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CARLOS RIBEIRO OLIVEIRA
Engenheiro do Ambiente

Natural de Fão, o Carlos Oliveira tem 34 anos, é licenciado em Engenharia do Ambiente pela Escola Superior Agrária de Ponte de Lima (está a finalizar o mestrado em Gestão Ambiental e Ordenamento do Território na mesma instituição), e é um dos 9 membros da Equipa de Missão que se encontra a desenvolver o projeto "Geraz com Querença", nas terras de Geraz do Lima (Deão, Moreira, Stª Leocádia e Stª Maria), desde o dia 3 de Setembro deste ano.



O Carlos, conhecido popularmente em Fão por "Káká", nome de "guerra" como também foi conhecido no futebol e particularmente no Clube de Futebol de Fão, onde jogou em vários escalões e até foi campeão regional e "capitão" de equipa, antes de um tanto prematuramente ter deixado o desporto para se dedicar aos estudos.



Como jogador do CF Fão, aqui como capitão de equipa na sua última época (2005/2006)

Novo Fangueiro- Antes de te decidires por tirar este curso, tiveste algumas dúvidas em relação ao teu futuro, experiências, empregos, cursos ? Fala-nos dessa fase.

Carlos Oliveira- ”. Antes de mais importa referir que as dúvidas quanto ao futuro sempre existiram e vão continuar a existir, agora cada vez mais e penso que uma solução passa por investirmos em nós.
Relativamente ao meu percurso, posso dizer que tive variadissimas experiências, quer profissionais quer académicas. O meu percurso académico sempre foi compartilhado entre Fão e Viana do Castelo, desde a escola primária até ao ensino secundário. Após esta fase, optei por frequentar o ensino profissional na Escola Profissional de Esposende no curso de Técnico de Hotelaria, Receção e Atendimento.
Então, por opção, larguei os estudos quando concluí o 12º ano para arriscar na minha vida profissional, pois sempre achei que se ganhasse experiência em determinada área, conseguiria ao fim de algum tempo ser competitivo. Além disso, queria estabilizar e ter um salário, na medida que fosse suficiente para os meus projetos de vida, nos quais se incluía constituir família, ter casa própria e enfim, independência. Como tal, comecei a minha carreira profissional a trabalhar numa empresa têxtil, experiência essa que terminou ao fim de cerca de 2 meses. No mês seguinte, fui trabalhar como motorista de distribuição numa empresa do Porto e aproximadamente ao fim de 1 ano, voltei à estaca zero, onde tinha apenas 21 anos. O ciclo seguinte foi o mais difícil de todos na minha vida, porque estive no desemprego durante um período significativo, no qual acabei por fazer algumas opções que não foram as melhores.
Próximo passo voltar a trabalhar. Durante o ano seguinte, vendi pacotes de chamadas telefónicas, aspiradores, colei cartazes, etc, etc, etc, até que surgiu uma oportunidade de trabalhar num balcão dos CTT. Perto de casa, numa instituição de referência, enfim, estava no bom caminho finalmente. Custou-me muito inicialmente, pois sinceramente, o meu conhecimento acerca dos serviços que os CTT prestavam, para além do envio de correspondência, eram praticamente nulos. Tinha um contrato de 6 meses e ia fazer o melhor possível para que o renovassem, no entanto não foi assim e no final do contrato vim novamente para casa e para o desemprego. Entretanto, fui também funcionário de balcão numa sapataria durante quase 2anos. Era mais um mundo novo para mim, e no entanto estava a correr tudo ao contrário do que planeara inicialmente.
A emigração seria uma última opção, último recurso, pensava eu. Entretanto, decidi inscrever-me num curso de técnico de energias renováveis e nessa altura a aposta nas energias renováveis era grande bandeira política, que me permitiria abrir horizontes académicos. Não estudava já há cerca de 8 anos, mas finalizei o curso com bom aproveitamento e comecei desde logo a procurar soluções nesta área. Mas elas não apareceram e mais uma vez, tinha de trabalhar. Algum dia iria retirar os dividendos do meu investimento. E voltei ao início, trabalhando no têxtil. Recarreguei baterias, estabilizei a minha vida pessoal, sem nunca esquecer o estudo e foi quando voltei a tentar. Sem dúvida que o curso de Energias Renováveis tinha aberto a minha mente para questões ambientais. Foi então que descobri que a minha opção e paixão era, AMBIENTE. Comecei a pesquisar cursos, exames específicos e percebi que para seguir ambiente tinha que realizar o exame de Biologia (que por sinal, nunca tinha frequentado). Assim aconteceu, fiz o exame e fiquei com média final de 12 valores. Concorri, a espera foi longa…, até que em Setembro de 2007 são publicados os resultados e consegui entrar em Engenharia do Ambiente na ESA – IPVC. Frequentei o curso, onde conheci gente boa e comecei a ver o mundo e a olhá-lo como nunca o tinha feito antes e, ao fim de 3 anos terminei o meu curso com média final de 16 valores. Voltei a investir e tirei a Pós-Graduação em Gestão Ambiental e Ordenamento do Território na mesma instituição, com a mesma nota final e neste momento, estou a concluir a tese que me dará o grau de Mestre. Valeu muito a pena, pois hoje sou uma pessoa com outras perspetivas, com novos sonhos, sendo um deles o Doutoramento (para mais tarde). Se reparar, nada correu como eu perspetivava para a minha vida, mas hoje sei, que as opções que tomei, e o meu empreendedorismo levaram-me para um caminho melhor, que eu sei, será recompensado e na verdade está a ser neste momento no projeto “Geraz com Querença”. ”



Com a equipa do Projeto e o Presidente da Câmara de Viana de Castelo

NF- Quando e porque decidiste tirar este curso?
Carlos Oliveira- ”)O ambiente, desde o início do século começou a ser aposta e a constar nas agendas políticas, nomeadamente após a entrada em vigor do tratado de Quioto a 16 de fevereiro de 2005. Neste sentido, com a transição do Governo de Santana Lopes para o Governo de Sócrates, essa aposta foi reforçada, principalmente nas Energias Renováveis. Foi então que, uma vez que me via numa situação extremamente complicada, decidi frequentar um curso que me desse algumas possibilidades de emprego futuro. Na verdade, este curso de Técnico de Energias Renováveis não me deu emprego, mas deu-me um novo folego e um novo incentivo e levou-me à conclusão de que temos de investir mais em nós e oferecer mais-valias a quem nos contrata. O problema é que atualmente em Portugal isso não é reconhecido, mas abre com certeza mais portas.”

NF- As questões do Ambiente sempre te preocuparam? Achas que tiveste algumas influências familiares, pela atividade da tua mãe e padrasto na Assobio (Já fizeste ou fazes parte desta associação)?

Carlos Oliveira- ”Como disse anteriormente, a certa altura da minha vida surge o interesse no Ambiente. No entanto, por exemplo, sempre gostei de ver series documentais sobre plantas e animais ou de nadar no rio e no mar, ou ainda, por exemplo, de andar pelo pinhal e nunca gostei, por exemplo, de andar no lixo. Com isto quero dizer que talvez tenha gostado desde sempre do “ambiente”, como a maioria das pessoas. No entanto, uma coisa é gostar, outra é estar sensibilizado e interiorizar o que é isto do “ambiente”, que é um conceito como depreende, extremamente abrangente e, holístico uma vez que toca um pouco em todas as áreas de influência do poder de decisão e por isso é tão controverso. Por isso gosto de dizer que foi só a partir de determinado período da minha vida que estas questões ambientais começaram a fazer sentido. Acho que faz parte do processo de crescimento.
Quanto às influências familiares, sinceramente acho que não. Acho que o meu filho terá mais influência minha do que a que tive do meu padrasto e da minha mãe neste sentido. Lá está, são preocupações relativamente recentes pelo menos do ponto de vista social e político, embora este tema já venha a ser abordado, trabalhado e estudado no mundo há bastante mais tempo, pelo menos desde Toronto Conference on the Changing Atmosphere, no Canadá (outubro de 1988). Basta ver, por exemplo desde a abertura das assinaturas para retificar o tratado de Quito e a sua entrada em vigor, passaram cerca de 8 anos. Mas também fez parte da minha influência, a minha observação do mundo. Quanto à Assobio sim, faço parte, pelas razões acima referidas e não pela atividade da minha mãe ou padrasto. Faço parte porque tenho de fazer, é uma obrigação minha, embora reconheça que não participo da forma que deveria participar. Mas o âmbito de ação da Assobio vai muito para além da questão ambiental vista de uma forma isolada. Esta associação procura equilibrar os pratos da sustentabilidade (economia, sociedade, ambiente) englobando, como exemplo o património imaterial que nos dias de hoje é um pouco desvalorizado. Portanto, sim, é importante a sua existência no concelho, pois é mais uma barreira de defesa dos valores concelhios. ”



Com alunos do IPVC voluntários a colaborar no projeto

NF- Como surgiu este projeto “Geraz com Querença”, como te viste envolvido nele e concretamente em que linhas gerais se trata?
Carlos Oliveira- ”. Este é um projeto de dinamização de territórios rurais e que surge da necessidade de se importar capital humano qualificado neste caso para as terras de Geraz do Lima (freguesias de Deão, Moreira, Stª Leocádia e Stª Maria). Este capital humano é formado por uma equipa de missão de 9 elementos de 8 áreas de formação diferentes, na qual me incluo, e que tem a incumbência de realizar um conjunto de tarefas coletivas e individuais direcionadas para a revitalização económica, social e ambiental deste território. O projeto que me foi incumbido é o de identificar formas de valorizar os resíduos florestais e agrícolas para produção de energia, fertilizantes ou outros. Entretanto, um dos projetos coletivos é a criação de um “banco de terras”, a que chamamos de TERRAZ. Este projeto está previsto ser lançado no final da próxima semana, e o seu objetivo é a disponibilização de terras em regime de arrendamento ou comodato para quem as quiser trabalhar. Como gostamos de o apelidar, sem presunção, este é o primeiro banco de terras privado, local do país. Aproveito para divulgar as páginas do facebook https://www.facebook.com/GerazComQuerenca e do site do projeto: www.gerazcomquerença.pt. Quanto à minha envolvência no projeto, um dos critérios de seleção era ser aluno do Instituo Politécnico de Viana do Castelo (IPVC). O concurso foi lançado no site do IPVC, no qual decidi concorrer pois achei um projeto interessante e consegui esta oportunidade. ”


Apresentação da sua componente no Projeto

NF- E depois disto, quais os teus projetos, sentes que haverá facilidade em encontrar trabalho nesta área?
Carlos Oliveira- ”Não sei, devido às duvidas futuras que falamos no início. No entanto, no âmbito do projeto “Geraz com Querença”, existem algumas possibilidades futuras, como o emprego numa das instituições que apoiam o projeto ou a criação do próprio emprego. Atualmente, não é nada fácil encontrar trabalho, seja nesta área ou noutra área distinta. As dificuldades são muitas como todos sabemos, mas mais uma vez parte de nós fazer a diferença nesta situação, quer do ponto de vista geral e pensando no coletivo, quer do ponto de vista particular, pensando no individual. Não devemos ficar à espera que as coisas aconteçam”.”

NF- Esta zona do Minho e Alto Minho, é sem dúvida, das mais ricas em património natural, onde o verde ainda consegue predominar. Quais os principais perigos que possam fazer perigar esta riqueza natural, que também serve como grande bandeira ao turismo tanto interno como externo?


Trabalho no terreno, participando numas Vindimas

Carlos Oliveira- ”Sim, é verdade. Aqui ainda conseguimos, pontualmente, conciliar a riqueza natural com o desenvolvimento económico, embora as boas práticas de ordenamento do território sejam escassas. Por exemplo, a nível turístico foram cometidos alguns erros como a aposta no golfe que requer um consumo de recursos brutal, por exemplo, de água, mas também energético. A sorte é que estamos no Alto Minho e água não falta…para já. Outro dos problemas são os incêndios e a falta de capacidade de os resolver, o que não é fácil. A relação do homem com o fogo sempre foi quente e próxima (risos). Sempre fomos fascinados pelo fogo. Não sei se o caminho deve ser unicamente pela aposta na limpeza florestal, mas há muitos outros desafios que podemos enfrentar. A continuidade da presença de algumas espécies, que para a nossa gastronomia e turismo são importantíssimas, o problema das descargas, os resíduos, entre outros.”

NF- Como fangueiro e bairrista que sei que és e pela sensibilidade que foste adquirindo nestas questões do ambiente, quais são para ti as principais preocupações que devemos ter na nossa terra, onde é evidente o assoreamento do rio, a diminuição dos espaços verdes ou a destruição do corda dunar ?
Carlos Oliveira- ”Sim, esses são sinais evidentes, mas talvez causados por interferências do homem, nomeadamente pelo desvio do rio. Mas a natureza recupera o que já foi seu, não é? Realmente a inexistência em Fão de espaços verdes é uma realidade, mas não só. Um dos grandes problemas que temos é no período de verão e que não percebo muito bem como ainda não se compreendeu que não se resolve problemas de trânsito com constantes mudanças de sinais. Este tem de ser um desafio que deve ser pensado com sentido estratégico, sabendo para onde queremos ir e o que queremos que Fão seja no futuro. Existe uma clara falta de estacionamentos, os acessos à praia continuam a ser facilitados e não geridos, o trânsito acumula todos os anos, só falta estacionar no areal. O centro da vila continua desaproveitado durante esta época do ano à exceção da festa do marisco, mas que ainda assim fica por aí. Talvez seja importante começar a pensar que alguns percursos no centro da vila se tornem unicamente pedonais. Não se aproveita essa população visitante para frequentar e revitalizar o centro da vila, embora reconheça que se tem feito algo neste sentido nos últimos 2/3 anos. O pinhal no verão continua a ser destruído, são realizadas obras com interesse público, etc, etc. Tudo isto é ambiente. Tudo isto são custos, são consumo de recursos, são desperdícios e são questões que me coloco relativamente à nossa terra, a Fão. ”

NF- Que outras questões te preocupam ou te orgulham na nossa terra e que eventualmente gostasses que fossem diferentes?
Carlos Oliveira- ”Algumas foram já citadas e muitas haverá com certeza. Preocupa-me a reorganização das freguesias. Preocupa-me Fão estar “dividida” em duas partes, Este e Oeste, por uma estrada, que levou ao esquecimento de uma delas. Preocupa-me a inercia no caso dos sacos de areia da Bonança. Preocupa-me o clube de futebol e o estado a que chegou, embora neste momento não seja sócio e como tal não me deva alongar. Orgulham-me a terra, as gentes, sinceramente, os fangueiros, embora por vezes não saibamos lidar bem com eles e vice-versa. Fão tem aquele…não sei, talvez charme. É uma coisa estranha mas que na verdade existe. Quem vem para cá, fica e não larga por nada. Por isso devemos proporcionar, a todos os de cá, aos que cá ficam e aqueles que pretender vir, mais e melhor qualidade de vida, e Fão tem tanto potencial…”


Visita técnica a uma empresa do Alto Minho

NF- Alguns fangueiros têm divulgado e feito vários alertas de diversas formas para a divulgação da fauna, flora e património natural da terra. Gostavas de destacar alguém ou alguma dessas iniciativas?
Carlos Oliveira- ”Fico muito satisfeito por serem fangueiros a divulgar os valiosos valores da Fão. Uns sabem mais do que outros, mas o importante é que se fale. Não gostava de particularizar ninguém, pois todos têm mérito, mas todos sabemos que o Jorge e o Carlos têm sido muito ativos neste sentido, não esquecendo obviamente a Assobio e os seus membros. A todos os meus parabéns!”

NF- Num panorama mais global, como vês as questões de defesa do ambiente, da biodiversidade e sua sustentabilidade no nosso concelho e como tem sido tratadas pelas entidades?
Carlos Oliveira- ”Não é fácil responder a essa pergunta. Penso que muito tem sido feito mas não é fácil avaliar como um todo. Com certeza que há coisas bem-feitas e outras completamente negligenciadas. Enquanto um dos pratos da balança estiver mais pesado que os outros, é difícil conseguir a sustentabilidade de qualquer sistema seja ele de uma freguesia, um concelho ou um distrito. Não é um problema apenas do concelho de Esposende, mas sim global. Não penso que vá mudar muito nos próximos anos, fruto do momento atual, mas também não pode ser essa a razão para nos resignarmos. Este pode ser até um bom momento para se mudarem mentalidades e começarmos a pensar mais como um conjunto e no bem coletivo, porque não tenhamos duvidas que esse é o caminho a seguir.”