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CRISTINA CALAFATE LEITES

Em entrevista ao Novo Fangueiro, Paula Cristina Calafate Leites, nascida em 25 de Maio de 1969, fala sobre a sua carreira e a luta para vencer o preconceito e as barreiras físicas. .Licenciada em Filosofia, Cristina Leites é cega de nascença, é um verdadeiro exemplo de superação e trabalho, cujo esforço e dedicação deram tão certo que hoje, com 36 anos, é totalmente independente.
É telefonista na Câmara Municipal de Esposende, totalmente autónoma na profissão que toma e faz serviço de voluntariado no Museu D’Arte de Fão.

Obrigada, Cristina, pela tua colaboração
e pelos conhecimentos transmitidos
Quem é a Cristina Leite? Cristina, fala um pouco da tua infância e da tua deficiência. Eu nasci em 1969, num dia marcante para a minha mãe, que sofria as dores de um parto forçado por uma freira, que não tinha a noção do que fazia. Tanto eu como a minha mãe estivemos entre a vida e a morte.
Algum tempo depois de vir para casa, os meus pais aperceberam-se que eu não via, porque não seguia os movimentos que eles indicavam com as mãos.
Em 1976 fui internada no Instituto de S. Manuel, no Porto, a fim de me prepararem para a vida. No Instituto fui desde a primeira refeição ensinada a comer com os talheres, e desenvolvia tarefas que tinham em vista a preparação para a vida, tais como a costurar, a lavar, engomar, dobrar, a cozinhar, arrumar etc.
Fui colocada no Infantário, onde aprendi a dar e a receber e a colocar a minha imaginação à prova.
Posteriormente, no primeiro ano de escolaridade, “apresentaram-me” a máquina de Braille, através da qual aprendi a ler e a escrever. Ao contrário do alfabeto que os normovisuais utilizam, o Braille é representado por pontinhos que a máquina digitaliza num papel grosso, e que nos permite tacteá-los levemente.
Para além de Língua Portuguesa, matemática, História de Portugal, Meio Físico e Social, tínhamos também aulas de Música, de Educação Física e Dactilografia.

E na adolescência, como era a convivência?
O que achas da inclusão escolar de crianças no concelho de Esposende?
No meu tempo era complicada a inclusão porque o cego era muito marginalizado, eu senti muita dificuldade em relacionar-me. As pessoas voluntariamente tentavam afastar-me com comentários e eu chegava a um certo ponto que nem queria que a aula terminasse por causa do intervalo. Depois da instrução primária frequentei a Escola Preparatória de Esposende e estava inserida numa turma de colegas “ditos normais”. Tinha uma professora de apoio que vinha à Escola uma vez por semana e trazia todo o material para eu conseguir estudar.
Apesar de ter feito amigos, havia sempre alguém que tinha a “amabilidade” de lançar uma ou outra piada, ao que tentava não ligar.
Por vezes tentava igualar-me aos outros. Contudo, não dispunha de equipamentos necessários, que me permitissem ultrapassar certas barreiras.
A partir do 10º ano o material Escolar começou a escassear, acabando por receber livros a meio do ano ou depois. Assim, durante as aulas, limitava-me a registar o máximo de apontamentos, para conseguir estudar. Involuntariamente prejudicava os colegas de turma e os professores, porque a máquina de Braille emitia um ruído desagradável.
Na Secundária era confrontada com situações desagradáveis, porque se referiam a mim como se de uma “anormal” se tratasse. Quando me viam com a bengala, riam e seguiam-me, fazendo por vezes maldades.
Comecei a refugiar-me nos locais menos povoados, como se estivesse a fugir de algum mal cometido.
Acordava angustiada, porque sabia que teria de enfrentar uma sociedade que, a meu ver, me rejeitava.
Como era rejeitada, só me sentia bem com os familiares, na medida em que não me faziam mal. Assim, tentava isolar-me de uma certa sociedade, que tive de aprender a enfrentar no momento em que entrei na Faculdade.


A partir do momento que foste estudar para o ensino superior decidiste então que poderias superar o problema e ser uma pessoa feliz? Como fazias para estudar?
Devido às situações constrangedoras, a determinados comentários e situações que passei no liceu em Esposende, eu fui obrigada a criar uma carapaça e refugiei-me nela. A partir do momento que entrei para a faculdade, eu fui obrigada a partir essa carapaça para conseguir sobreviver lá fora. Consegui fazer num dia numa cidade, o que não fiz aqui em Fão durante anos.
A partir do momento em que eu entrei para a faculdade, fui obrigada a pôr os meus medos de lado e a sobreviver, comecei a apanhar o autocarro, o metro, etc.
Fui colocada na Universidade de Lisboa. Os familiares ficaram preocupados, porque sempre me protegeram e não acreditavam que conseguisse sobreviver sozinha numa cidade.
A primeira vez que me desloquei da residência até à Universidade fui acompanhada. Permaneci sempre atenta às curvas, sons e passadeiras, com receio de me perder no regresso.
Na faculdade comecei a gravar as aulas tentando captar tudo o que o professor transmitia.
Nos dias seguintes já ia e vinha da universidade sozinha. Pela primeira vez consegui dar os primeiros passos sozinha, o que me deixou muito orgulhosa. A partir desse dia comecei a ter mais confiança em mim, porque, afinal, ao contrário do que pensava, era uma pessoa capaz.
Aos poucos comecei a afastar-me da residência, com o intuito de descobrir ruas, deslocando-me aos estabelecimentos sem acompanhantes. Cada vez que conseguia vencer uma etapa, enchia-me de coragem e tentava avançar nas conquistas.
Durante a minha estadia em Lisboa aprendi a conquistar, a lutar pelo que pretendia alcançar, deixando de esperar que os outros fizessem isso por mim.
Depois, consegui transferência por permuta para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
No dia em que vim para o Porto, deram-me a conhecer que não poderia gravar as aulas. Alguns colegas vieram ter comigo e gravaram-me todo o material, a fim de conseguir estudar para as frequências. Foi graças a eles que consegui licenciar-me em Filosofia, e tive o privilégio de leccionar durante dois anos, após ter terminado o estágio.


Depois de tantas conquistas, como foi a primeira experiência de leccionar?
Lembro-me bem do primeiro dia em que me estreei como professora. Estava nervosa, porque não sabia como os meus alunos iriam receber uma professora cega.
Mas durante dois anos que leccionei tive sempre uma boa relação com os meus alunos.
Na altura que dei aulas apurei ainda mais o ouvido, pois de inicio os alunos tentavam enganar-me. Admirados às vezes com a minha percepção, brincavam comigo e perguntavam se era mesmo cega. Aos poucos, eles chegaram à conclusão que seria inútil tentar enganar-me.
As aulas decorriam normalmente. Expunha a matéria e criava a possibilidade de diálogo e debates.
Era eu quem elaborava os próprios testes. Na data dos testes vinha um colega ajudar-me a vigiar e pedia a alguém de confiança para os ler e eu corrigia e atribuía as cotações.


Há quem diga que as novas tecnologias possam conduzir a um isolamento dos seus utilizadores. Qual é a tua opinião?
Por exemplo o caso do Novo Fangueiro Online , em relação a um cego que saiba Internet penso que não há problema em aceder. Se não existisse “on line” seria muito mais complicado uma vez que teria de existir em Braille.
Nós podemos perfeitamente trabalhar com computador. Um cego consegue responder às necessidades se houver as adaptações. Não é necessário o teclado estar em Braille. O computador é normal e tem um teclado normal. Os únicos destaques e que estão presentes em todos os teclados, são umas marquinhas em alto-relevo nas teclas "F" e "J", e no número "5" do teclado numérico, sinais que nos servem de referência.
O computador tem instalado um leitor de ecran chamado jaws, que suporta uma voz que faz a leitura do que está no monitor.


Enquanto invisual, quais as dificuldades e limitações que te deparas diariamente?
A nível arquitectónico há muitas dificuldades, não só nos edifícios mas também as ruas, por exemplo em Fão os passeios são muitos estreitos e irregulares, o que nos condiciona.
Para alem das barreiras arquitectónicas existem outras que são as próprias pessoas. Os funcionários deveriam ter uma formação específica. Por exemplo um cego chega a um estabelecimento que não conhece, não sabe para onde há-de ir e fica à espera que venham ter com ele.
O cego consegue sentir a pessoa pela respiração e pelos passos mesmo a muitos metros de distância, mas com tanto movimento e ruído é complicado ouvir e torna-se uma barreira.
Para alem dessas, são as faltas de adaptações, quando entro num estabelecimento para fazer compras. As prateleiras não estão em Braille e por muito que consiga localizar os alimentos, não consigo identificar a marca preferida.


Como é viver em Fão em relação às grandes cidades onde viveste?
Nos meios pequenos as pessoas deparam-se com mais dificuldades que na grande cidade. É perfeitamente normal que as pessoas da grande cidade tenham outro comportamento, outra forma de lidar connosco porque elas têm acesso a mais informação do que aqui nos meios pequenos. Como têm acesso a mais informação, são mais receptivas e têm mais facilidade a ajudar-nos e auxiliam-nos.
No Porto entro perfeitamente nos estabelecimentos comercias e vou às compras. Aqui não vou com o mesmo à vontade.
A nível arquitectónico, a grande cidade está mais preparada para receber pessoas portadoras de deficiência visual:
- O semáforo não nos condiciona, porque, quando está verde, emite um sinal sonoro que nos permite atravessar com autonomia.
- Os passeios amplos são essenciais, porque o cego consegue proteger-se melhor, fazendo o arco maior à sua volta com a ajuda da bengala, sem perturbar os outros que circulam ao seu lado.
- Os postes são óptimos pontos de referência, na medida em que nos situam, e fazem com que cheguemos facilmente a qualquer ponto da cidade.
A nível de formação profissional, é mais fácil na grande cidade. Estou neste momento a terminar um curso de Internet e estou a fazê-lo no Porto. Também existem esses cursos em Fão e Esposende. Mas o cego tem que tirar esses cursos com pessoas que tenham formas próprias de ensinar.
Se o melhoramento das acessibilidades estivesse nas tuas mãos o que farias?
Melhorava os edifícios do ponto de vista arquitectónico.
Em relação aos passeios, tentava fazer obras no sentido de ampliá-los mais, para facilitar a nossa mobilidade.
Teria em atenção o atendimento ao público. No meu entender, o ideal seria que todos os funcionários fossem submetidos a uma formação específica. Deste modo, ficariam a saber como lidar com determinadas situações.
Construiria uma imagem positiva das pessoas com deficiência, visto terem mais pontos em comum com os demais do que diferenças, pelo que conseguem desenvolver competências desde que beneficiem dos equipamentos necessários.
Acabaria com a descriminação, e promoveria a igualdade de oportunidades.


Qual a mensagem que deixas para as pessoas que por algum motivo se sintam inferiores ou limitadas?
Peço a essas pessoas que não percam a coragem, na medida em que nos ajuda a lutar por uma vida melhor.