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MANUEL RAMOS MORGADO

Talvez sem exagero, o “Manel da Pira”, seja o homem que apesar de toda a sua modéstia e no seu “hobby” caseiro, mais tenha feito pela valorização do património arquitectónico de Fão, nas últimas décadas . Partindo do nada e sem qualquer herança ou formação, iniciou-se num trabalho de artesão, que embora tenha começado há pouco tempo, tem já um notável e valiosíssimo espólio

NF- Quem é Manuel Morgado e como começou esta paixão pelos trabalhos em madeira?

Manuel Morgado- ”Sou um fangueiro, que nasceu em 1946 na Rua de Serpa Pinto e que precisamente hoje comemora o 36º aniversário de casamento, com a Elvira Araújo, uma mulher que também me ajuda bastante, pois é tão apaixonada como eu nos trabalhos e sua manutenção, o que ainda me motiva mais.
Eu sempre tinha a ambição de trabalhar em carpintaria, mas nunca consegui realizar esse sonho e fui para a construção civil, especializando-me em pintura. No entanto, gostava de trabalhar a madeira e comecei a fazer pequenas coisas, sendo que a primeira peça, foi uma caminha, para as bonecas da minha filha, feita com uma grosa e um canivete.


NF- Mas em algum momento, algo te motivou mais intensamente?

Manuel Morgado
- “Sim. Foi quando visitava a Feira de Artesanato de Vila do Conde e me chamou a atenção um stand que tinha várias peças em madeira e disse cá para mim, se não conseguiria eu fazer qualquer coisa do género.”

NF- Quais os primeiros trabalhos e temas escolhidos?

Manuel Morgado
- “Como sempre gostei dos Bombeiros, embora nunca tenha feito parte do Corpo Activo, mas trabalhei com o ”Manel da Ana” na parte final da construção do quartel e fiz parte durante cerca de 20 anos da sua direcção, pelo que foi a minha primeira fonte de inspiração. Assim, a minha primeira peça de alguma envergadura foi o primeiro carro de incêndio (a “charrete”), tendo feito depois o próprio símbolo da Corporação. Também por essa altura, portanto há cerca de 12 anos fiz alguns equipamentos da apanha do sargaço e a antiga cozinha de nossa casa e ainda a cordoaria do António David. Coisas de Fão e da minha e da história desta Vila”.

NF- As casa e os edifícios históricos, marcam o teu trabalho…

Manuel Morgado
- ”É verdade ! A primeira casa que fiz foi onde nasci e depois a casa onde vivo agora e a seguir fiz a casa que foi do Dr. Sampaio, junto ao Museu, na rua Azevedo Coutinho, que está em ruínas. No princípio fazia todo o edifício, mas como o espaço em casa era pouco e era difícil em alguns casos analisar toda a construção, comecei a dedicar-me só as fachadas. Inicialmente estava a pensar nos coretos do concelho, mas depois virei-me para as casas, que achava de maior valor arquitectónico. Ao fazer as fachadas, consigo ficar com a parte mais rica e visível dos edifícios e ao mesmo tempo tenho mais capacidade de armazenagem, pois podem ficar nas paredes de casa, onde as tenho expostas com iluminação em todas.”

NF- Pode-se dizer que demonstras um grande bairrismo, nos teus trabalhos...

Manuel Morgado
- ” Claro que sim. Fão é uma terra muito rica arquitectonicamente, embora já tenha sido mais. Dá-me pena ver certos edifícios desaparecerem e degradarem-se sem solução à vista. Por exemplo a minha primeira fachada, foi a casa da D. Sara, mas graças a uma fotografia antiga, pois infelizmente já tinha sido demolida, mas muitas vezes somos induzidos em erro, pois a maior parte das casas foram sofrendo alterações ao longo dos tempos e não há quem tenha informação ou fotografias das suas origens.
Quando expus na Cooperativa Cultural em 2004, tive a visita do Presidente da Câmara, que muito apreciou o meu trabalho e lançou-me o repto para fazer o edifício da Câmara Municipal. Eu respondi-lhe, que não fazia nada de Esposende enquanto não tivesse tudo de Fão, e isso não sei se conseguirei algum dia. No entanto, tenho já o coreto da Senhora da Saúde, de quando pensava em fazer só coretos.”


NF- Com certeza foste aperfeiçoando a tua técnica, tiveste alguma formação específica ou influência?

Manuel Morgado
- ” Sim fui-me aprefeiçoando, mas sem influências ou qualquer formação. Frequentei um curso de Artes Decorativas no ASP, mas foi mais para outro tipo de trabalhos, como pintura e pequenas coisas que faço para oferecer à família, mas gostei muito e foi gratificante frequentá-lo.
Claro que com o tempo fui apurando a forma de trabalhar e adquirindo algumas ferramentas que não tinha. No princípio trabalhava só com grosa, formão, serrote, canivete e pouco mais, depois fui comprando pequenas serras, berbequins e outros utensílios, que me ajudam a conseguir ganhar mais tempo e perfeição.
O que me faz perder mais tempo é o estudo do próprio edifício e as suas medidas, tentando conseguir uma escala correcta no seu todo. O artesão mais “tosco”, se assim se pode chamar, rentabiliza mais o seu tempo, pois não vai a esse pormenor, mas claro que tem também o seu valor e tal como eu dificilmente repete exactamente a mesma peça.”


NF- Alguma vez pensaste ou foste induzido a vender trabalhos tens?

Manuel Morgado
- ”Não, isso nunca. Primeiro porque como disse, dificilmente faria uma peça igual , depois porque não era capaz de ver partir qualquer delas, nem eu nem a Elvira e finalmente porque felizmente fui adquirindo espaço para as ter em casa. Também nunca seria possível cobrar o justo valor de cada trabalho e a afeição que depois lhes ganho.”

NF- Quanto tempo te leva a fazer por exemplo uma dessas fachadas, qual o teu último trabalho e quais os próximos projectos?

Manuel Morgado
- ”Quando trabalhava, como empregado de comércio, tinha menos tempo e poderia fazer 2 peças por ano, mas agora que estou desempregado, tenho outra disponibilidade e consigo fazer um desses trabalhos em 3 meses.
O meu último trabalho foi a fachada da casa do Querobim Evangelista, que é agora do seu filho , ali junto à antiga “Pensão da Miquinhas”.
Estou decidido a fazer a igreja Matriz de todas as freguesias do Concelho, uma sugestão que achei interessante do presidente João Cepa. Já tenho 5 feitas: Fão, Gandra, Rio Tinto, Fonte Boa e Apúlia. Portanto as que estão mais próximas, mas já tenho quase todas fotografadas.


NF- Quando expuseste os teus trabalhos? Dá-te gozo mostrá-los?

Manuel Morgado
- ” Fiz 2 exposições, em Junho de 2002, na sede do Águias de Serpa Pinto e em 2004, na Cooperativa Cultural de Fão, nas Festas do Bom Jesus. Não posso dizer que não gosto que apreciem os meus trabalhos, mas não tenho grande vaidade nisso e gosto mais de mostrá-los e admirá-los no seu próprio espaço em casa. As mostras no exterior dão-me muito trabalho, pois é preciso muito cuidado para os retirar e voltar a colocar de novo no seu lugar e há sempre algum pequeno acidente, que causa alguns danos nas peças. Quem me conhece, sabe que na minha forma de ser, não há lugar para vaidades, sou uma pessoa simples e humilde e assim serei sempre.”

NF- Alguma vez pensarias em legar as tuas obras a alguma entidade ou associação, para ser perservada para o futuro?

Manuel Morgado
- ” Embora tenha muito apego às minhas peças, não descuraria em as ceder um dia, desde que eu achasse o momento certo, me faltassem capacidades ou condições de vida e sabendo que isso tivesse algum interesse cultural para a terra. Cheguei a pensar ir dando aos meus filhos algumas coisas, mas para já eles também podem disfrutar de tudo cá em casa, onde todo o trabalho está bem acondicionado, no seu local próprio e fazem parte já do nosso dia-a-dia.”

Este um depoimento, de um fangueiro, homem simples e humilde, mas de um fantástico valor humano e artístico. E que, como me dizia em tempos alguém de grandes méritos reconhecidos:- “Vale sempre muito mais quando somos procurados que impingidos”. Isso bem se poderia aplicar ao Manel, que foi multiplicando a sua obra discretamente, para satisfação pessoal, amor à arte e à terra, tão rica em património, que infelizmente não é tão valorizado e perservado como gostaríamos. É sem dúvida alguém que pela sua obra vai ajudar consideravelmente a notabilizar muitas das nossas riquezas e recordações.