CARLOS PALMA RIO um fotógrafo da natureza
Carlos Palma Rio é um fangueiro que dispensa apresentações e tem como ponto forte os seus trabalhos de partilha pública ligados à fotografia da natureza, especialmente orientada para o património natural de Fão.
Sendo um amador da fotografia, o seu desempenho nesta área é de bastante qualidade e vai estes dias publicar um livro onde mostra a biodiversidade local, numa colectânea de mais de 2 centenas de fotos referentes a 120 espécies registadas em Fão, o que o diferencia e nos promove.
O seu blog “Fão natural” mereceu logo a atenção de alguns especialistas e entidades ligadas à natureza e também os trabalhos que assina neste jornal, numa rubrica com o mesmo nome, reforçou a curiosidade da leitura.
Quisemos assim perceber melhor os terrenos que este nosso colaborador pisa…
1-Como começou essa tua “curiosidade” fotográfica pelos elementos vivos da natureza?
Penso que desde sempre tive interesse por tudo o que está ligado à natureza, mas sobretudo a partir da altura em que entrei para os Escuteiros. Lembro-me que a primeira insígnia que obtive nos Escuteiros, foi precisamente a de Conservação da Natureza.
Entretanto os documentários que via na televisão sobre a vida selvagem foram sempre um motivo para desejar um dia fazer qualquer coisa de semelhante.
A fotografia surge mais tarde, com a aquisição da primeira máquina fotográfica, ainda muito limitada. O impulso que um amigo deu, o João Jaques, foi determinante para levar um pouco mais a sério esta actividade.
2-Desenha-nos resumidamente o processo que segues até publicares a imagem e o texto no teu blog.
Esse é um processo que se vai aprendendo ao longo do tempo, quer no que diz respeito à técnica fotográfica, quer no conhecimento e estudo das espécies. São muitas horas no campo, muitas das vezes completamente imobilizado em esconderijos quando sei que determinada espécie pára por esse lugar, outras vagueando à procura de sorte, quase sempre sozinho, muitas horas de estudo e leitura sobre as espécies, para escrever os meus textos, muitas horas em frente do computador a ver todas as fotos, a arranjá-las se for caso disso e a catalogar as fotos. Mas são sempre horas ganhas e nunca perdidas, mesmo que durante todo um dia não faça uma foto.
3-Que equipamentos utilizas?
O equipamento, à medida que se vai evoluindo, nunca é o que queremos!
E então quando faço fotografia com algumas pessoas que fui conhecendo graças a esta actividade, é que surge a vontade de ter mais e melhor. No entanto o que tenho tem servido. Tenho uma máquina Canon EOS 450 D e uso sobretudo uma teleobjectiva Sigma 50-500 mm, às vezes com duplicador. De qualquer forma, pelo que tenho aprendido, uma boa aproximação dá resultados muito melhores do que uma objectiva com longo alcance.
4-É apenas um hobbi que te dá satisfação ou pretendes algo mais com essa actividade?
É apenas um hobby que gosto de partilhar porque acho que todos devem ter o conhecimento da existência de uma biodiversidade tão rica na nossa área. Pretendo, sobretudo, contribuir para que a sensibilização de todos para a importância da conservação dos habitats.
5-A colectânea de imagens no teu blog criou a ambição da publicação em livro? Conta-nos um pouco do fenómeno em ti.
Penso que foi uma evolução natural. O blog é visto por gente de todo o mundo, com uma média de 30 visitas diárias, o que para uma matéria tão específica e de uma área de estudo tão limitada, é bom. Tem visitas de 51 países, notando-se visitas regulares de alguns deles. A ideia do livro surge porque entendi que seria uma forma melhor de chegar às pessoas de cá e porque gostaria que este inventário de espécies ficasse registado de uma forma mais acessível à maioria das pessoas.
6-Que obstáculos sentiste para publicares um livro ? Fala-nos também da primeira publicação online.
Uma publicação destas fica cara e para quem faz disto um passatempo, é incomportável.
A vontade e o facto de estar convencido que é importante que as pessoas tenham conhecimento do que temos cá em termos de riqueza faunística, fez-me procurar apoios.
A Câmara Municipal de Esposende, através do Senhor Presidente, de imediato se propôs a dar uma parte do apoio. Dispus-me publicamente a ceder todos os direitos de edição e comercialização, abdicando de qualquer lucro, para que alguma instituição de Fão pudesse editar e tentar, assim, obter alguma contrapartida económica, mas infelizmente não foi solução.
Entretanto fui convidado para fazer parte do recém criado, Grupo de Trabalho de Fotografia da Natureza, do Ambiente e Documental, da Quercus. Um dirigente da Quercus descobriu o livro online e quando me falou na surpresa que foi para ele essa forma de edição, eu falei neste projecto actual, mais enriquecido, mas que estava parado por falta de apoios. Quase imediatamente ficou ali resolvida a questão do apoio em falta. Uma reunião este fim-de-semana, em Lisboa, com a direcção da Quercus confirmou esse mesmo apoio.
A edição online foi a forma que encontrei de publicar o livro sem investimento. Foi também uma experiência que tinha como objectivo perceber como seria aceite e o resultado foi muito bom dando origem a este trabalho que brevemente estará à disposição de todos.
7-O teu trabalho tem merecido muita curiosidade. Conta-nos algumas situações que reforçaram o teu ego como fotógrafo da natureza.
Há momentos especiais como, por exemplo, quando se faz uma fotografia de uma raridade e depois se é elogiado por quem sabe muito mais do que eu. Os pedidos de cedência de fotos para publicação em sites ou revistas da especialidade para publicidade institucional de áreas protegidas ou projectos ligados à conservação da natureza, os convites para participar no Grupo de Fotógrafos da Natureza de Portugal, no Aves de Portugal, no grupo de fotografia do Flickr da National Geographic Portugal, entre outros e o mais recente convite para dar início ao Grupo de Trabalho de Fotografia da Natureza, do Ambiente e Documental, da Quercus, são motivos naturais de orgulho, sobretudo porque estamos a falar de fotografias exclusivamente feitas em Fão.
Um episódio que também me satisfez muito, foi o facto de uma professora da Universidade Nova de Lisboa, enquanto fazia uma pesquisa sobre o estuário do Cávado, ter descoberto o meu blog e o livro online e, depois de o receber, ter recomendado a sua aquisição a todos os seus alunos.
O apoio que uma organização como a Quercus, e sem ter sido por minha iniciativa, deu à publicação do livro é, sem dúvida, motivo de orgulho.
8-Até onde pensas ir? Que projectos.
Esta questão é difícil de responder porque nem eu diria há um ano e meio atrás, altura em que me dediquei mais a sério a esta actividade, que estaria hoje a falar sobre a publicação de um livro.
Sinceramente a única coisa que desejo é continuar a fotografar e andar horas “no mato” a aprender, a observar comportamentos e a fotografar. Agora gostaria de melhorar a qualidade das fotografias, tecnicamente falando. Tenho dito que o livro não é uma mostra de fotografias, isso deixo para os fotógrafos. O livro é um pequeno inventário de espécies, feito com imagens. O patamar seguinte será tentar fazer fotografias de melhor qualidade.
No entanto estarei sempre aberto a colaborar com quem entender que os conhecimentos que fui adquirindo ao longo do tempo, possam ser úteis. Já o tenho feito fora de Fão e o farei com muito mais gosto na minha Terra.
Um projecto junto das escolas, que estou ainda a “desenhar”, poderá ser o próximo passo para dar a minha pequena contribuição para preservação e conservação da natureza.
9-Observar e fotografar a natureza é apenas uma moda ou sentes que é sobretudo uma missão?
Tudo o que está ligado à natureza, neste momento, é moda. Com a evolução da fotografia, a facilidade em fotografar a natureza também se transformou numa moda. Só desejo que quem o faz tenha os devidos cuidados e que não faça de tudo o que é mau para conseguir uma foto melhor. E este desejo estende-se a tudo o que está relacionado com o turismo da natureza. Podemos usufruir da natureza que nos rodeia mas, sobretudo, de saber como o fazer.
Para mim, mais do que uma missão, é cada vez mais é uma forma de estar.