JOÃO ESTEVES e o seu Billiken II
Filho de uma família fangueira bem numerosa, o João Esteves bem cedo sentiu a atracção pelo rio, a que não é alheia a proximidade ribeirinha do casarão dos Campos, das suas tias, em pleno jardim do Cortinhal, que frequentava e onde hoje reside. Paredes meias com o Cávado, a atracção pela água e as artes de marinharia parece terem resquícios genéticos e no seu portfólio consta a aquisição e recuperação de 2 embarcações antigas em parceria com o seu irmão Pedro.
Um veleiro francês quase centenário é a embarcação mais robusta e foi estes dias notícia de “bota abaixo”, depois de uma dezena de anos de recuperação em franca estadia entre muros no quintal do palacete da família.Este acontecimento, outrora frequente nos estaleiros navais de Fão, mereceu a nossa abordagem e a entrevista em pleno convés do Billiken II, onde fomos recebidos.
Fala-nos desta bonita embarcação…
Este veleiro, que data de 1913 e mantém de origem o nome Billiken II, foi construído na região de Bordéus e encontrámo-lo em Viana do Castelo, há cerca de 13 anos, onde estava ancorado e era já propriedade de um português, que lhe adaptou um motor interior, funcional e necessário às manobras de navegação.Com o meu irmão Pedro, apreciamos as suas características clássicas e acabamos por adquiri-lo, transportando-o por água até junto do nosso “estaleiro” no Cortinhal.Mantém as suas características originais com cerca de 11 metros de comprido e tem um mastro de 12 metros que aceita pelo menos 5 velas em simultâneo.A sua estrutura é em carvalho francês e americano e o casco em madeira iroko, com espessura de 3 centímetros e meio. O convés é em pinho de Oregon e as escotilhas e o poço em mogno brasileiro. O mastro é em pinho de riga. Foram vários anos de trabalho e tivemos a colaboração de um carpinteiro naval de Viana, que aplicou nele muito do seu saber.
E o seu interior?
O interior é em mogno brasileiro, com bons acabamentos e espaços para o repouso com 4 beliches, cozinha, salão com mesa, mesa de cartas, sanitários e o paiol para arrumos. Os equipamentos de navegação completam as suas boas condições para ir por aí fora. Ao que nos parece espaços bem dimensionados para viajar… Este veleiro, que nos seduz particularmente por ser um clássico, tem características suficientes para algumas viagens marítimas e em breve estará pronto para navegar, faltando agora completar o seu lastro, que terá cerca de mil e quinhentos quilos e ficará localizado em consonância com o centro vélico, criando o necessário equilíbrio à embarcação.
Já existem projectos a curto prazo?
A embarcação deverá ficar nos próximos tempos na marina da Póvoa para uma repintura exterior e rumará depois para a Galiza. Espero participar em manifestações de embarcações tradicionais que se realizam no norte de Espanha e possivelmente em França, onde estive já várias vezes a integrar uma equipa em regatas.
Fala-nos dessa tua experiência…
Sobretudo em Espanha, especificamente na região galega onde a sua costa recortada fomenta muitas iniciativas náuticas, tenho participado em várias regatas, mercê da frequência de eventos e de uma cultura muito ligada ao lazer da água. É uma zona muito bonita e atractiva. Em Espanha vive-se de uma forma diferente, mais alegre, mais dinâmica. Estive também em Brest, na Bretanha francesa, onde se realiza um grande evento náutico lúdico durante vários dias, com a participação de cerca de 2 mil veleiros tradicionais. Continua depois em Douarnenez, onde também já estive e espero regressar.Também por cá já participei em regatas de competição fazendo parte de uma equipa, embora em veleiro moderno.
Consegues justificar essa atracção pela náutica?
Não sei se geneticamente haverá alguma razão para pensar isso pois também os meus irmãos sentem esse apelo. Os meus tios avós tiveram uma ligação forte às artes de navegar e fomos sentindo essas referências na família. Mas penso que a proximidade do rio Cávado, que atraiu sempre as crianças das várias épocas, a existência de pequenos barcos na família que favoreciam o conhecimento do rio e reforçavam as sensações, acabaram por criar e fortalecer essa apetência pela náutica.
Sabemos que adquiriste também uma embarcação tipicamente fangueira…
Com o meu irmão Pedro adquirimos também e recuperamos um pequeno barco de fundo raso, ligado à pesca artesanal local e que é referenciado nos estudos que existem sobre embarcações tradicionais por "canote de Fão". É uma embarcação de 2 proas e fundo liso, que se usava na pesca em rio e mar e que permitia com facilidade o acesso a zonas baixas e até rochosas. É um dos raros exemplares ainda existentes de uma embarcação que fez parte de uma forma de subsistência de bastantes famílias fangueiras e também de Fonte Boa.
O João Esteves partilhou connosco aspectos interessantes de uma arte com muitas tradições que ele e o seu irmão Pedro têm procurado preservar e viver. O seu veleiro Billiken II e o canote são um património que reflectem essa forma de estar.