JOÃO BARCELISTA
Nasceu em Fão em 1963 e é desde 1995 que o conhecemos como o carteiro de Fão. João Manuel Rodrigues Barcelista, para além da sua profissão, ocupa o seu tempo em benefício da sua terra.
Fez parte da Direcção do Clube de Futebol de Fão durante 4 anos (2 deles como presidente), vai para o 4.º mandato na Comissão de Festas do Senhor Bom Jesus e tem alguma experiência como autarca na Assembleia de Freguesia. A figura de Carteiro gera em cada um algumas referências e o João assenta no perfil clássico do homem de bicicleta que distribui notícias.
Novo Fangueiro – A profissão de Carteiro sempre foi a tua actividade profissional? Conta-nos um pouco do teu percurso e experiência.
João Barcelista – Antes comecei por trabalhar sazonalmente em hotelaria (Hotel Ofir e Hotel Pinhal). Trabalhei depois na secretaria do Hospital em Fão. Mais tarde fui para uma empresa em Vila Chã, até que surgiu a oportunidade de vir para os Correios.
NF – Porque escolheste esta profissão?
João – Não estava satisfeito profissionalmente e surgiu esta oportunidade. Em termos profissionais nada foi pré pensado ou programado, mas foi uma oportunidade que aproveitei mesmo tendo sido um acontecimento repentino, de modo que até foi exigida entrada imediata.
NF – Que área está ao teu cargo para a entrega de correio? Fazes todo o trajecto de bicicleta?
João – Estão a meu cargo a vila de Fão, exceptuando a zona de Ofir e Pedreiras. Faço também uma zona de Apúlia (zona de Cedovém). O meu percurso é de 27 km diários.
Faço todo o trajecto de bicicleta, e a pé, conforme o serviço, o tempo e a vontade.
NF – Gostavas de ter outra ocupação profissional?
João – Eu não trocava a minha profissão por outra profissão qualquer. Já surgiram outras oportunidades entretanto por acaso, mas gosto bastante daquilo que faço.
O motivo disto é precisamente porque gosto do serviço em si, e também por ser ao ar livre, aproveito também pela componente desportiva e saudável, que é o facto de ter a possibilidade de trabalhar a pé ou de bicicleta.
NF – Mas o teu serviço não começa “em cima da bicicleta”….
João – Não. O serviço começa às 6 horas e 25 minutos da manhã, em que é recepcionado o correio e depois é dividido. Há a separação geral e seguidamente é que vamos fazer o sequenciamento.
Por volta das 9 horas é que começa então a distribuição.
NF – Quais as maiores dificuldades na tua profissão?
João – Uma das maiores dificuldades é o facto de já ter sido aprovado uma nova toponímia e esta ainda não estar em vigor. Este processo está na fase de revisão na câmara do que já está aprovado.
Existem alterações de ruas, já aprovadas em Assembleia de Freguesia há mais de 10 anos, e que nunca foram actualizadas.
O nome da rua em si não é que seja o problema, o problema está no número da porta que tem de ser pedido na Câmara. No meu caso poderei ter apenas alguma dificuldade, mas o pior é quando estou de férias. Quando há uma pessoa que me substitui, é bastante prejudicial para todos, pois ou as cartas são devolvidas (que será o mais seguro) ou por vezes poderão ficar mal colocadas.
NF – Sente-se diferença notória na quantidade de correspondência actualmente, com o crescente avanço das novas tecnologias?
João – Há uma diminuição da distribuição. Nos dias de hoje a correspondência é essencialmente cartas de facturação (EDP, empresas de telecomunicações, etc.) e cartas bancárias. Já não se vê troca de correspondência, nem por exemplo tantos postais em datas festivas.
NF – Há algum acontecimento especial na tua vida de carteiro que gostarias de contar?
João – Por caricato que possa parecer, o mais marcante na minha lide, é um gesto que não nos é dado fazer. Por vezes as pessoas que não sabem ler, pedem-nos para ver determinada correspondência.
Nesses casos, é um sentimento muito peculiar presenciar e sentir a forma como as pessoas reagem às notícias, às vezes alegres, outras vezes menos alegres..
O João representa ainda a imagem do “nosso carteiro” correndo grande parte da Vila.
Os tempos já são outros e os conteúdos divergem do passado. As novas tecnologias da comunicação invadiram as casas e mais raramente se ouve o toque da campainha da bicicleta do carteiro.
Mas em Fão ainda se sente em cada dia o toque do passado.