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ARTUR JORGE GONÇALVES VIANA

Fão, é há várias décadas uma vila em que a actividade da restauração tem uma grande importância económico-social, não só pelo elevado número de visitantes que a procuram, mas também pelos muitos estabelecimentos abertos ao público. Sem dúvida que a Pastelaria é uma tradição, com maiores referências, divulgação e procura. As “clarinhas”, “pastéis de chila”, “pastéis de Fão” ou Branquinhas (como alguém ousou chamar), as “cavacas”, “os folhadinhos”,"as sogras", (as doces), são procuradas por milhares de pessoas. Daí que foi muito a propósito, que o nosso entrevistado se vocacionou, formou e investiu nesta actividade.

Novo Fangueiro- Então como começou e quando começou esse gosto pela doçaria?
Artur Viana- “A minha mãe, há muito que fazia os pastéis de chila e outra doçaria e eu com 11 ou 12 anos comecei a ajudá-la na cozinha, pois aquilo chamava-me à atenção e foi com um certo prazer que estendi as primeiras massas. Aquela transformação entusiasmava-me!...”

NF- E como foi a tua formação?
Artur- “Primeiro fiz o 12º. Ano de escolaridade na Escola Henrique Medina, tendo depois ido cumprir o serviço militar. Estive no centro de Selecção do Porto onde participava nas inspecções. Depois da tropa, fui trabalhar para a Solidal, que embora não fosse mau emprego, não me satisfazia pessoalmente.
Um dia vi na TV, um programa sobre a Escola Hoteleira do Porto, no Núcleo de Vila da Feira e que aceitavam formandos. Daí foi um passo até à minha inscrição no Curso de Cozinha/Pastelaria e o meu ingresso em 1994. Sempre preferi a área de Pastelaria e aí também me destacava dos meus colegas. Terminei o Curso em 1997, tendo estagiado nos hoteís “Suave-Mar” e “Comfort Inn”.

Quando regressei, consegui emprego na pastelaria “Marbela”, que é uma casa muito boa e onde pude pôr em prática o que aprendi e enriquecer os meus conhecimentos, ganhando outra experiência, tendo sido muito influente o António Meira, o pasteleiro do estabelecimento.”


NF- Depois, decidiste montar o teu próprio negócio. Já “cultivavas” a ideia ou foste incentivado por alguém?
Artur- “Sim, eu queria ter o meu próprio espaço e comecei a falar aos meus pais para procurar uma loja em Fão. Entretanto como estavam a renovar esta casa na Rua da Igreja (Prior Gonçalo Viana), achamos que era possível montar uma pastelaria no rés-do-chão.”

NF- Quando abriste a “Fangueirinha”, quais as maiores dificuldades encontradas?
Artur- ”Abrimos no “Dia da Mulher”, 8 de Março de 1998. O que me deu mais que pensar foi o espaço da zona de preparação e confecção, que era um pouco exíguo, por isso tive que pensar em conjugar a disposição do equipamento de frio e os fornos.”

NF- Qual a tua prioridade inicial, a venda no estabelecimento ou encomendas para fora? E quais os produtos com mais saída?
Artur- “Eu queria essencialmente vender aos nossos clientes diários da Pastelaria. Faço um pouco de tudo, desde pastéis diversos, alguns salgadinhos e até um pouco de pão, mas praticamente para o consumo na casa. Prefiro fazer pouco mas com alguma qualidade e variedade, embora esteja sujeito à procura. Mas muitas vezes faço determinado produto para satisfazer um ou outro cliente isolado.
Claro, que na altura das festas e alguns fins-de-semana a minha mãe e o meu irmão tem de me ajudar, mesmo começando muito cedo, o que faço normalmente às 6 horas da manhã. Nessas alturas, Natal, Passagem de Ano e Páscoa, o que tem mais saída são os “Bolo-Rei” e o “Pão-de-Ló”, em que se intensificam as encomendas.”


NF- Tens alguma técnica especial ? Alguma especialidade ? Qual o maior bolo que fizeste e o que mais gozo te dá no teu trabalho?
Artur- ”Não propriamente, mas por exemplo, as minhas massas são todas puxadas à mão com o rolo, o que nas casas maiores já é feito com a tecnologia. A nossa especialidade são as “Almerindinhas”, uma espécie de queijada de amêndoa, que é muito apreciada, mas nunca foi muito divulgada. O maior bolo que confeccionei foi para o aniversário do ASP há 3 ou 4 anos, que deveria ter cerca de 30 quilos.
O que mais me fascina é o trabalho com as massas, as suas voltas e a dobragem do “papel”. Gostava de fazer mais alguma variedade, mas tenho de me limitar á procura da clientela, que já não abunda tanto. Das massas fundamentais com que trabalhamos, “brioche”, “pâte à choux” e “ folhado”, é esta última a minha preferida. Também gosto de estar no balcão, principalmente pelo contacto com o público, mas a minha alma paira entre aquelas massas e a sua transformação.”


NF- Quais as tuas principais ambições e como vês o negócio em Fão?
Artur- ”Eu pessoalmente gostava de criar 2 ou 3 especialidades que se conseguissem impôr com muita procura.
O negócio, está com alguma recessão, pois o centro de Fão está a perder cada vez mais residentes e visitantes. Mesmo no verão, onde apenas a Festa da Cerveja (onde estivemos na última edição, tendo sido uma bela experiência) traz mais movimentação, estamos a perder veraneantes, pois há muitas casas em ruínas, aluguéis muito caros e ainda com os últimos problemas de acessibilidade, com as obras da ponte, são cada vez menos os que procuram o nosso centro. Também a crise económica, não deixa de se reflectir na nossa vila e nós não fugimos à regra dos afectados. Por outro lado, penso que se tem exagerado um pouco nas campanhas contra o consumo de doces. Sem dúvida que os exageros são prejudiciais à saúde, mas os excessos no consumo de pão, do sal, das frituras e muitas gorduras, são bem piores, aliado claro, ao grande sedentarismo das pessoas que fazem pouco exercício e não “queimam” as calorias acumuladas. Por exemplo, o consumidor em geral usa e abusa da manteiga, que é uma gordura animal, criando maiores reticências nos doces onde se usa a margarina, que é feita com gorduras vegetais.
Por último, penso, que em Fão, para a terra pequena que é e o número de residentes fixos, tem oferta a mais de casas a venderem artigo semelhante, como acontece na nossa área.”


O Artur Viana, fangueiro de 35 anos é a alma de um negócio familiar, onde seus pais Almerinda e Artur e seus irmãos são um grande suporte e incentivo. Calmo, simpático e culto, confessa que seria muito difícil trocar o seu Fão, por outro lugar, mesmo com melhores perspectivas de negócio, vendo em cada “croissant”, “pastel de nata” ou um simples “bolo de arroz”, uma pequena peça de arte que ajudou a criar.