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As árvores da praça

Dizem que em breve as árvores da Praça serão como as árvores que connosco cresceram...

Este ano cortaram as velhas árvores da Praça.
Sim, as velhas árvores que estavam doentes. Uma doença que há muito lhes cortara parte da virtude, que não mostrou piedade e que acabaria por as matar através duma corrosão ainda maior do que aquela em que já se mostravam.


E depois...
Depois, no lugar das velhas árvores plantaram novas árvores.
Pequenas e frágeis...
Dizem que em breve as árvores da Praça serão como as árvores que connosco cresceram... Sou dos que acredita que essa é a verdade. Sou dos que quer que essa seja a verdade.
No dia em que as cortaram, cheguei à Praça, ao fim da tarde, e nem acreditava no que estava a ver. Senti-me traído. Senti o vazio da perda das velhas árvores. Como era possível? Ninguém tinha avisado que tal aconteceria um dia. Nunca quis acreditar que tal acontecesse. Mas a verdade estava ali defronte. A Praça estava nua e quase me revoltei pelo acontecido; quase me revoltei por não ter guardado na memória uma última imagem, uma última foto tirada de casa; quase me revoltei por não terem cortado só uma delas e, aos poucos, as demais. Só que nenhuma daquelas árvores merecia a ausência das demais...
Tinha que ser. Apenas nos andávamos a enganar e a não querer perder a imagem do que já só era memória.
E eis que dei por mim a pensar... “quando é que plantaram aquelas árvores?”
Não sei.
Dizem que foi há mais de 40 anos.
Só sei que me lembro delas desde sempre... (é que eu ainda estou na “idade da pré ternura”...).
Lembro-me de ser miúdo e vir aos fins-de-semana a Fão.
De casa, olhando pela janela, via estender-se à minha frente a Praça...
Lembro-me do fascínio que a Praça exercia sobre mim como espaço de liberdade e de brincadeira, com o seu verde, próprio daquelas árvores, à data altas e frondosas.
Ali vi a “Manica” a vender tremoço. Ali aprendi a andar de bicicleta, eu e outros da minha idade (sabeis de quem falo...). Ali me lembro da terra batida com godos no canto... Ali vi a barraca da fruta ao longo de anos. Ali vi a bica de água dar azo a discussões. Ali joguei à bola. Ali vi as zangas das “vendedeiras” de Fonte Boa. Ali aprendi a andar de patins e de skate (quando o cimento chegou). Ali tantas vezes vi a “Minada” a vender fruta e legumes para além da “praça” e da algazarra matinal... Ali vi surgir a “revolução do granito” que todo o chão de Fão tem engolido. E sempre lá estiveram as árvores da Praça.
Lembro-me da passarada que ali rodeava a ramagem. Lembro-me de, mais tarde, em plena adolescência, passar horas a fio sentado na esplanada da Praça... eu e tantos outros ali crescemos no Verão... Mais uma vez, as árvores estavam lá. As mesmas da minha infância mas, tal como eu, haviam mudado! Mais altas, mais velhas, mas sempre com um relacionamento muito próprio com todos os que em Fão as olhavam, muitas vezes sem as ver.
Acho que me tinha habituado a ver as velhas árvores da Praça como uma companhia, a companhia que é própria dos amigos.
De facto, uma árvore não fica de costas para ninguém. É como um amigo.
Se se der a volta em torno dela, a árvore estará sempre de frente para nós.
Os verdadeiros amigos também!
Dizem os chineses que às árvores plantadas com amor nenhum vento derruba...
Quem planta árvores, cria raízes...
Quem cultiva bons amigos, também!
As árvores são sinónimos de eternidade...
E uma verdadeira amizade também é para sempre!
Assim foram as velhas árvores da Praça. Amigas que me acompanharam ao longo da vida e até há pouco. Que me viram crescer e que cresceram comigo.
Sempre achei engraçado o facto de querer lembrar o dia e o momento exacto de certos acontecimentos importantes nos nossos relacionamentos. Sei que, cada vez mais, às vezes constantemente, o faço. Contudo, quando se trata de um início de apego, duma simples memória de começo de amizade, raramente isso acontece e as mais das vezes apenas nos lembramos de momentos vagos e inesquecíveis através de anos. No presente lembramo-nos do passado, recordando uma ou outra data pelos acontecimentos importantes ocorridos junto a pessoas ou em certos locais. No entanto, raramente temos motivos para precisar o dia exacto em que começamos a estar ligados a um lugar de forma muito própria.
Não creio que será assim com as novas árvores da Praça.
As novas árvores da Praça, hoje pequenas e frágeis, amanhã altas e frondosas e, quiçá, daqui a 40 e alguns anos, como as que agora se cortaram, também serão fonte de recordação.
Tal como aconteceu comigo e com as velhas árvores, as novas vão crescer e acompanhar ao longo dos anos a actual nova geração de Fão.
Daqui a 40 e alguns anos, serão eles a olhar para trás com saudade e reconhecimento pela companhia constante destas novas amigas.
Por isso, quando forem à Praça não critiquem o acto de coragem que foi cortar as velhas árvores da Praça.
Antes olhem em volta e sorriam, pois as novas árvores vieram trazer a um dos núcleos de Fão nova vida, nova vida que surge onde, infelizmente, já quase só se sente o silêncio de um Fão só, triste e desabitado.
Por isso, quando passar pelas novas árvores que agora estão na Praça, não vou olhar para elas como as “usurpadoras” do trono das antigas, mas antes como as novas amigas que nos vão acompanhar durante, pelo menos, os próximos 40 e tal anos, com a esperança de ali ainda ver um Fão acompanhado, alegre e habitado.
Este ano plantaram novas árvores na Praça.


Manuel José Cardoso Torres Ramos da Fonseca