A nobreza entre os pobres
Estávamos em plenos anos 30, no tribunal de Esposende, o juiz de porte sério e respeitável pede silêncio para dar início a uma audiência, onde se encontram muitos fangueiros, para assistirem ao desfecho na justiça, de uma querela entre vizinhos, que viviam, conviviam e por sinal, até se zangavam ali para os lados da “Pedra Alta”.
Não que o caso merecesse grande referência, fosse pelos contornos do episódio ou pela peleja dos advogados, que por vezes fazem transcender fúteis questões, é certo que a sala estava a apinhar de fangueiros. Quando o magistrado chama uma das testemunhas, a-“D.Ana Carolina de Vilhena!”, este para espanto geral de um público boquiaberto, levanta-se, dirige-se à humilde senhora de xaile de “carduz” pelas costas , beija-lhe a mão e com grande deferência a convida a sentar no lugar que habitualmente era reservado só a pessoas ilustres.
A pobre mulher, ruborizou, baixando os olhos com respeito e alguma desconfiança da seriedade de tal comportamento por parte do juiz: -“Senhor Doutor Juiz, por favor…mas que…”
-“Senhora, seria muita falta de respeito, desprezar uma nobre descendente da Casa de Bragança”. Retorquiu o magistrado perante a perplexidade de todos os presentes, principalmente das gentes de Fão que desconheciam de todo a linhagem de D. Ana.
Por estes tempos eram muitos os nobres, que após a queda da monarquia e a crise do pós guerra 1914-1918, foram perdendo regalias, direitos e propriedades e até chegaram a vender os próprios títulos para sobreviverem à pobreza.
D. Ana Carolina, era um desses casos, que apenas recebia uma pequena tença, creio que em milho ou outro cereal, de umas terras algures plantadas.
Esta senhora, que veio parar a Fão, não sei bem como, acolheu a si umas crianças que lhe chamavam avó, mas ao que tudo indica eram filhos de uma parente ou criada de sua mãe que falecera nova. Adelaide , Zeca e Adolfo (o Adolfo “Donana”, como muitos conhecemos, pai da Tina e outros 3 irmãos), foram criados numa pequena casa térrea, já um pouco em ruínas, com muitas dificuldades, mas com muito carinho e esmerada educação.
É que D.Ana Vilhena, apesar de sua pobreza era muito culta, educada, aprimorada costureira e bordadeira, com uma bela caligrafia. Numa época em que na nossa terra a maioria das pessoas eram analfabetas, Dona Ana escrevia e lia correspondência para “meio Fão”, de namorados, esposos, pais e filhos que proliferavam por terras distantes, principalmente de África e Brasil. Sua grande formação, dava confidencialidade a quem tinha de relevar os mais íntimos segredos e ânsias, nas diversas cartas que passavam pelas suas mãos.
Lembro-me por exemplo, de que o Arlindo Cardoso, secretário da Junta a solicitava para elaborar várias certidões e atestados, pela mestria e beleza da sua caligrafia.
Quem a conheceu sabia que era uma pobre diferente, pois tratava toda a gente com muito respeito e cordialidade, usando uma linguagem muito refinada para o meio em que vivia. Envergonhada, não era capaz de pedir esmola, por muita carência que passasse, mas que era socorrida por muitos fidalgos e famílias “bem de vida”, que nutriam por ela um grande respeito e carinho.
D.Ana Carolina de Vilhena, na sua singeleza, pequena estatura, magreza, rugas acentuadas e vestes humildes, foi um exemplo de uma época difícil de grandes contrastes e mudanças, mas em que o saber, o respeito e o altruísmo a diferenciaram e a mim particularmente sensibilizou.
Mário Belo