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A colónia balnear em Fão
Contributo sócio-cultural

Por imperativo do calendário, estamos já a viver em pleno a época balnear.

Deambulando por algumas publicações jornalísticas, sabemos que, pelo menos desde 1919, mas tudo leva a crer que já mesmo antes, a pacata povoação de Fão começou a ser visitada por pessoas dos mais variados recantos do país, que aqui procuravam repouso dos longos meses de trabalho.

Encantaram-se, certamente, como nós ainda hoje, com a tríade - mar, rio, pinhal- que a Natureza generosamente ofereceu a Fão.

De ano para ano, o grupo de visitantes aumentava. Apetece afirmar que cada um, quando partia, levava o desejo e a incumbência de, no ano seguinte, trazer uma ou mais famílias. Assim, foram criando raízes, estreitaram-se amizades que perduraram ao longo do tempo, formaram-se novas famílias e alguns deles escolheram mesmo ficar sepultados no cemitério paroquial de Fão.
Bem recebidos e estimados pelas gentes de Fão, estas famílias traziam alegria e movimento à sua praia, que era considerada das melhores do Norte.
Achamos interessante a transcrição, desde já, de um soneto publicado em “O GRULHA” de 28 de Agosto de 1919.



Tornar-se-ia fastidioso elencar todas as pessoas e famílias que iam compondo a colónia balnear, mas será certo que, em grande parte, estavam bem posicionadas social e culturalmente.
Ao mesmo tempo, também acorriam a esta praia gentes de instituições de acolhimento de crianças, que aqui encontravam o carinho, o bem estar e a alegria que os tempos de verão estimulam e proporcionam.

De entre estas, vale a pena recordar o Internato Municipal do Porto, a quem o povo de Fão fazia, com o estralejar de foguetes, uma alegre e atenciosa recepção, à entrada da nossa terra, no Senhor Bom Jesus. Com a sua banda de música, e “sob a hábil regência do senhor Leitão”, percorriam então as ruas de Fão e cumprimentavam os fãozenses que os cercavam com carinho. A banda de música tocava às quintas e domingos no coreto do Senhor Bom Jesus e na festa da Senhora da Bonança, tendo promovido, num dos anos, uma festa no Largo do Cais, depois de celebrada missa pelas almas do Purgatório. Estavam sempre disponíveis a colaborar nas festinhas de Fão. E os fangueiros, querendo mostrar-lhes o carinho que por eles nutriam, ainda que em época de muitas carências económicas, faziam-lhes ofertas de bens alimentares que grupos de senhoras iam arrecadando em peditórios, que se alargavam até Apúlia.

Pouco a pouco, os banhistas iam-se integrando na comunidade fangueira, trocando gestos de carinho, amizade e reconhecimento, com contributos mútuos concretizados das mais variadas formas.

A título de exemplo, foi noticiado, ao tempo, que a imagem de S. José, ainda hoje venerada na Igreja Matriz, foi oferta da Senhora D. Maria José Pinto Torres, do Porto, após um mês de estadia em Fão. Esta imagem, em madeira, foi, com toda a pompa, conduzida em andor desde o Templo do Senhor Bom Jesus, em procissão, “achando-se ornadas as ruas do percurso”.

Em artigo do Senhor Dr. Pedro de Almeida Eça, publicado em ”O Comércio do Porto” e depois transcrito em “Ecos da Beira Mar”(1928), a tónica mais saliente é a beleza da linda praia de Fão, considerada magnífica, com a sua areia finíssima e lisa, e, porque protegida pelos célebres Cavalos de Fão, e dado o seu suave declive, “o banho é sem perigo e delicioso”, “nela podendo as crianças tomar banho sem auxílio de banheiro”. A permanência na praia era tão agradável que algumas famílias lá faziam por vezes a sua refeição do almoço, sendo também desse tempo o chá na praia, ilustrado em postal da época que de seguida se reproduz.

Não se esquece o articulista de fazer alusão aos pastéis da Clarinha, que considera “soberbos”.

E, a concluir, como médico que era, indicava a praia de Fão como “estação de cura das crianças linfáticas e que padeciam de vegetações adenóides, de adenopatias tracheo-brônquicas, etc., pois que a sua atmosfera marítima, temperada pela brisa balsâmica dos pinheirais, é muito propícia ao tratamento destas doenças”. “A esta terra, como estação de repouso e praia para tratamento do linfatismo, pode facilmente prognosticar-se um largo futuro”.

Afirma o articulista de “Ecos da Beira Mar “ que o impacto daquele artigo foi tão grande que muitas pessoas tomaram a resolução de vir passar algum tempo em Fão, mostrando-se por isso grato ao seu autor.

E assim aconteceu na verdade, pois cada vez mais banhistas afluíam a Fão. Com os mesmos sentimentos, que os uniam e contagiavam, iam aproveitando e saboreando o que de bom e belo aqui encontravam, contribuindo também para levar bem longe o seu nome.

Organizaram-se e constituíram-se mesmo em associação de iniciativa e turismo, sob a denominação de GRUPO AMIGOS DE FÃO (G.A.F.), com estatuto aprovado por alvará do Governo Civil do Porto, de 31 de Agosto de 1939. A sua primeira sede foi na Praça da República, nº 117, da cidade do Porto, residência do seu principal mentor e entusiasta, Dr. Franklim Nunes, dando corpo, conjuntamente com os senhores Capitão Jorge das Neves Larcher, Dr. Jorge Rodrigues dos Santos Júnior, Professor Eduardo Mário Pinheiro, Dr. Manuel de Freitas Sampaio e Castro e Álvaro Augusto da Costa Machado, à sua comissão instaladora.

De entre os objectivos desta associação destacam-se o engrandecimento e embelezamento da praia de Fão, a defesa do património documental e artístico e a organização de festividades desportivas e de beneficência. Em toda a correspondência expedida, a assinatura do presidente da direcção era antecedida de “A Bem de Fão”. Como consta do Relatório da Gerência de 1944-45, tais objectivos terão sido conseguidos, dando relevo à fundação de uma biblioteca, e com a menção de que, depois de deduzidas as despesas, os resultados eram distribuídos pelos Bombeiros Voluntários, Conferências de S. Vicente de Paulo, Caixa Escolar das Escolas Primárias, obras e piano da catequese, sacristão do Bom Jesus e pobres de Fão, entre os quais, por mais de uma vez, é referido o Manuel Panquinhas em favor do qual foram realizadas algumas festas.

Numa grata recordação, esses saudosos AMIGOS DE FÃO são verdadeiramente credores do nosso maior respeito.

No plano individual, e numa homenagem largamente participada, quer pela população, quer pela colónia balnear, Fão soube justamente perpetuar o nome de um deles, o Capitão Larcher, atribuindo em 1945, ano da sua morte, o seu nome à rua que, da estrada nacional, leva à Senhora da Bonança. A este Homem, então considerado “ a caixa do correio das pretensões de Fão e dos seus habitantes”, e que incansavelmente propagandeou o nome desta terra por todos os meios - imprensa e publicações, atractivos e festividades, deve-se-lhe ainda a autoria da sua Monografia, publicada em 1948 por iniciativa do G.A.F., e que ainda hoje constitui importante fonte de informação sobre as suas gentes e o seu passado.

No G.A.F., essa notável geração de directores foi dando lugar a outros, mantendo como elo de ligação a pessoa do Dr. Manuel Sampaio e Castro, continuando fiéis aos fins para que a associação fora fundada, embora com maior visibilidade das suas actividades de divertimento, com gincanas de bicicletas, corridas de saco (no Verdinho - Campo das Rodas), concursos de pesca, campeonatos de sueca e king, concurso do vestido de chita, chás dançantes, verbenas, campeonatos de ténis de mesa, gincanas de automóveis, em paralelo com outras de carácter mais educativo, como o concurso de adivinhas, os desenhos na areia ou a caça ao tesouro.
A projecção da praia de Fão ultrapassou também as fronteiras do próprio país, com a divulgação da designação Ofir, na sua ligação ao hotel situado junto à praia, pela dinâmica iniciativa do Engº Sousa Martins, também ele com nome atribuído em rua. Começou então, a partir dos anos 50, a afluência de turistas ingleses à nossa praia, numa vivência animada pelos bares, cafés e ruas de Fão.

Como são diferentes os tempos, as vontades, os interesses e as realizações!

Pelo convite que nos fizeram, endereçamos os nossos agradecimentos, fazendo votos para que o NOVO FANGUEIRO e a sua GENTE NOVA dêem mostra de que há também um novo espírito e novas motivações para que, sem revivalismos, mas ligados à memória colectiva de que somos portadores, seja possível elevar mais alto o nome da VILA DE FÃO.