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Enfiando-nos o betão pelos olhos adentro...

Nos tempos em que não abundavam no solo luso terras que, tal como Fão, mereciam o ilustre adjectivo de “cosmopolitas” – que ostentávamos com orgulho – conceitos como “globalização” era coisa futurista que talvez estivesse a acontecer lá para os lados de Londres, Franquefurte ou Roterdão e a ideia de “Internet” nem sequer tinha sido concebida, corria então a década de 80, à semelhança de tantos futuros homens adultos da região, comecei a trabalhar numa das unidades hoteleiras do nosso burgo. Devo lembrar que nesse tempo iniciar uma actividade profissional com menos de dezasseis anos não significava forçosamente “trabalho infantil”, era (talvez acertadamente) encarado pelos nossos progenitores como um valioso complemento pedagógico aos conteúdos que apre(e)ndíamos na escola e, embora encarássemos aquilo quase como uma fatalidade - lá nos íamos habituando, realizados com aquela sensação de conquista pelos primeiros tostões fruto do nosso esforço. Ilustrando, com as devidas ressalvas, assim como aos nossos pais lhes esteve destinado irem para a guerra do ultramar aos 20 anos, a nós jovens fangueiros, saídos do armário e acabados de atravessar a inquietude da adolescência, calhava-nos quase sempre ir trabalhar para os hotéis, bares e restaurantes de Ofir.

Porém o que justificou esta simples nota introdutória não foram propriamente as questões relacionadas com as parcas economias daquela época, mas antes a vantajosa influência cultural que sentíamos por trabalharmos em contacto directo com os turistas, sobretudo os estrangeiros.
Cedo vislumbramos a posição privilegiada daquela oportunidade,estimulante e enriquecedora.
Logo nos primeiros convívios com os holandeses da Vonk Reizen e os alemães da Olimar ou com os ingleses que naquela época já só aqui caíam avulso, começávamos a perceber que as coisas boas de além fronteiras não eram só os habituais sacos de dois quilos de caramelos espanhóis e a perspectiva que tínhamos do mundo passou a ir muito para além daquela que nos era dada a conhecer pelos livros que requisitávamos na velha carrinha da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian que parava com oportuna regularidade lá para os lados do Cortinhal.
Aos de terras de Sua Majestade mal lhes púnhamos as vistas em cima, saíam cedo lá para os lados das dunas atapetadas com 18 buracos da Estela e, quando regressavam imprudentemente ébrios a desafiarem as Leis de Newton, refugiavam-se imediatamente nos respectivos rooms e só os voltávamos a ver no dia seguinte na visita matinal à farmácia, erro, digo no bar do hotel a socorrerem-se de uns Bloody Mary que sorviam rapidamente antes de voltarem a tentar uns almejados birdies.
Em contrapartida, quando conseguíamos desviar uns holandeses e uns germânicos para o Bar de Fão do Feliz, para o Fojo do Sérgio, ou para a Antiga Lareira dos Fados, logo ficávamos a saber que dos Países Baixos vinham muito mais do que tulipas ou vacas frísias (as mesmas que naquele tempo eram cartaz turístico nas arriscadas travessias do Cávado a nado lá para os lados de Gandra) e da Alemanha, ainda dividida, muito mais do que Volkswagens Carochas (além de que em duas horas de interessada conversa aprendíamos muito mais de língua inglesa do que em cem horas fechados nas gélidas salas de aula do liceu).
Resumindo, entre umas visitas às caves do Vinho do Porto e aos espigueiros do Soajo, os camones lá se demoravam entre nós a abrir-nos os horizontes culturais e a desfazer muitos dos mitos sobre um Admirável Mundo Novo nada semelhante àquela sociedade pervertida imaginada por Aldous Huxley no seu livro com aquele mesmo nome e que tanto nos assombrava.

Enfim, para um jovem fangueiro, ávido de modernidade, sentia que em certa medida éramos como o povo da caverna da alegoria de Platão e a influência dos nossos visitantes da então distante Europa representava aquilo que nos havia de libertar dos fantasmas ainda sentidos pelos resistentes vestígios do defunto Estado Novo. A esta distância daquelas vivências e sentimentos, admito a minha/nossa condição iminentemente provinciana, mas confesso que quando saíamos do hotel a imagem que trazíamos dos estrangeiros era a de uns alienígenas, não naquela ideia da representação dos povos ocidentais em Papalagui (O Homem Branco) do Tuiavii, mas antes numa versão mais parecida com a garrafa de Coca-Cola em Os Deuses Devem Estar Loucos – algo ou alguém mais elevado e evoluído do que nós – desculpem-me a franqueza.

Apresentada uma das muitas perspectivas do contexto social daquele período, vamos então ao pequeno mas intrigante episódio que me trouxe até aqui.

Ainda enquanto estudante, a minha primeira ocupação profissional foi desenvolvida na Recepção do Hotel Ofir. Aqui, numa das diversas artimanhas para obtermos alguns rendimentos extra, expúnhamos uns postais no balcão do check-in com bonitas fotos da nossa terra que íamos vendendo a bom ritmo. Eram umas imagens do ininterruptamente vasto pinhal, dos extensos areais orlados por altivas dunas, dos vários cais do Cávado pejados de lavadeiras e… uma vista a partir de um dos quebra-mar daquilo que eu julgava ser o símbolo de conceitos como “inovação”, “desenvolvimento” e “progresso”: - as três imponentes Torres de Ofir plantadas na praia. Este negócio, além de razoavelmente lucrativo, desenvolvia-se de modo muito simples – o nosso chefe era periodicamente visitado por um fotógrafo que trazia inúmeras alternativas dos tais postais da nossa região que eram escolhidos conforme a sua própria sensibilidade estética que, mais coisa menos coisa, coincidiam com os de um qualquer comum lusitano e efectuava a encomenda que não demorava a chegar em grandes caixotes contendo umas boas centenas de exemplares e quase todos escoavam com facilidade. E digo “quase” porque inexplicavelmente as imagens do ex-líbris do nosso urbanismo não vendiam, aliás chegávamos a ter praticamente todo o expositor de postais apinhado com os três arranha-céus impingindo-os sem outras opções e mesmo assim os doutamente esclarecidos turistas, objectos da minha fascinação, recusavam-se sempre a comprá-los, enquanto esboçavam um esgar de desprezo. A minha desilusão foi avassaladora – como podiam os arquétipos do modernismo cometerem tal sacrilégio?

Perante este “o murro no estômago” … não… não desisti nem me derrotei e, sem tabus, aproveitei o desassossego e decidi pôr em prática os persistentes conselhos da professora de filosofia – questionem-se, dizia ela – até que acabei por descobrir conceitos como “aberração”, “imprudência”, “desproporção”…

Fão de hoje, de um Portugal integrado na Europa, da era digital, da tecnologia wireless, do Novofangueiro Online e dos muitos internautas e bloggers, necessariamente longe da tacanhez pré-europeia da década de 80… mas desgraçadamente refém das asneiras do passado e incapaz de se corrigir, a tentar vender continuadamente os postais da decadência intelectual, da ocupação do território por obstruções paisagísticas incoerentes, nem que para tal se estrangulem estradas enfiando-nos o betão pelos olhos adentro.


Jorge Silva

jorgesilva560@gmail.com
www.verdes-ecos.blogspot.com