"Onde pára o dinheiro"?
Tenho acompanhado, como a maior parte dos portugueses, os contornos sobre a crise que tem afectado a alta finança e a estranha forma como os bancos, depois de apresentarem lucros de milhões anos a fio, com vencimentos principescos aos seus gestores e investimentos megalómanos, de um dia para o outro ficaram na bancarrota. Tudo isto, fez reavivar uma antiga história que ouvi ainda criança em casa da minha avó.
E aquela história ou lenda, contada pela Eufrásia Neto e mais tarde pelo meu pai, que era um narrador nato, com contornos de actor e que deve ter passado por várias gerações, em tempos que nem se falava de dinheiro, investimentos e muito menos de bancos, surgiu adormecida do baú das minhas memórias, com uma clareza a encaixar na realidade actual.
“-Era uma vez…. (como começavam tradicionalmente as narrações), há muitos anos, num reino do norte da Europa, uma rainha que numa das caçadas reais perdeu um anel, pelo qual tinha uma grande estimação, pois já vinha de várias gerações e havia sido dado pelo rei que partira para combater nas cruzadas. Perante tal angústia a rainha mandou os arautos para divulgarem, que daria uma grande recompensa a quem o encontrasse. Passaram vários meses e a rainha vivia entristecida por tal perda, já sem grandes esperanças da sua recuperação. Um dia, ao passear com as suas aias pelos jardins do palácio, ouviu umas vozes mais alteradas junto aos portões, onde estavam dois guardas reais. “
-Fora daqui! Vai embora antes que sejas castigado!
A rainha foi-se aproximando e viu os guardas a afugentarem e ameaçarem um pobre mendigo.
- Que se passa aqui? Interrompeu a rainha.
- Sua Majestade, este pobre diabo insiste em falar-lhe! Retorquiu um dos guardas.
-Pois deixai-o falar, que com certeza não me quer mal.
- Sua Alteza, eu apenas queria mostrar-lhe este anel que encontrei no meio de uns campos por onde passei esta manhã. Disse timidamente o mendigo ,desviando o olhar da rainha e inclinando a cabeça para o chão como acto de humildade.
- Mas é o meu anel! Homem, levante-se para eu lhe agradecer, hoje fez da sua rainha a mulher mais feliz do mundo e por isso vou recompensá-lo como merece. Disse a rainha exuberantemente feliz e emocionada.
”A rainha chamou a sua aia e mandou que trouxesse uma mala de ébano trabalhada, que encheu com moedas de ouro e ordenou que a entregasse ao mendigo. A aia de quarto, depois de algum tempo a contemplar aquela fortuna, guardou para si parte dela e chamou o mordomo-mór da corte para que este a fizesse chegar ao pobre, sem que no entanto, não deixasse também de lhe dar um bom “desvaste”. Logo de seguida este entregou a mala ao chefe das guardas, que por sua vez também resolveu “aliviá-la” de grande parte das moedas. Este, chamou um dos oficiais de serviço para levar a mala, que não se fez de rogado e desviou também para os seus alforges outra boa quantia, chamando um dos seus soldados, que a levou, sem que no entanto, não deixasse de retirar o resto das poucas moedas que sobejavam, colocando na mala uma pequena moeda de cobre, um “penny” ou centavo qualquer e entregou-a assim ao mendigo.
Este, feliz pela recompensa e a tiritar de frio, parou na taberna mais próxima e com a moeda pediu um copo de aguardente que bebeu avidamente de um só trago.”
Ora esta história devido à semelhança com esta crise mundial dos bancos, veio à tona das minhas recordações e fez-me pensar…
Os bancos que eram tão prósperos,
A transbordar de dinheiro,
Com lucros exorbitantes,
De repente ficaram vazios…
O dinheiro…não ardeu,
Nenhum bicho o comeu,
Onde é que ele se meteu
Ninguém foi, ninguém sabe, ninguém viu,
O certo é que o dinheiro sumiu.
Teria fugido para Inglaterra?
Para a Suiça ou para o Brasil?
E agora vai ser o Estado a injectar milhões para repor o que desapareceu.
Mas com que dinheiro?
O meu, o seu e o de toda a gente…
Mas o meu não é certamente,
Pois mal chega para mim!
Na verdade há um ditado popular que diz: ”Uma desgraça quando vem, nunca vem só”.
Mas desta vez felizmente só foram os bancos que ficaram pobres, já que os banqueiros, esses continuam ricos. E esta, hem!?
Mário Belo