"Uma manhã no Largo do Cais"
Embora em forma de poesia, estas linhas pintam em simples pinceladas um quadro que com certeza ainda muitos guardam na galeria das suas recordações...uma manhã num dos lugares mais movimentados de Fão nos anos 60.
Uma manhã no Largo do Cais
Nasci no Largo do Cais
Nele aprendi a andar,
Nele cresci
e até ser homem vivi,
Com meus irmãos e meus pais.
Meu recreio, meu mundo, meu lar…
E um dia, de insónia ao luar…
Lembrei tempos, gentes do passado
E tentei pintar um quadro
Das memórias do menino,
Mimado pel’ Adelaidinha
E pela minha mãe Aurora
Da sacada olhando cá fora…
Apregoando a Maria do Fino
Interrompe o Faria, o Mota, o Antonino,
Em amena cavaqueira
Enquanto o velho Quintino
Aparelhava o Tirone
E os rapazes não param a brincadeira,
O Chico, o Lino, o Tija, o Calone,
Chamam-me pr´ra jogar à bola.
Chega-se mais malta p’ra beira
O Miguel e o Zé Fandino,
Pé descalço e a fungar
Foge ao pai que está a iscar
O espinhel com sardinha
À janela vem Zézinha,
Chamando o seu padrinho.
Uma senhora discreta
Acende uma vela às Alminhas
Local de promessas certa
No chalé abre-se uma janelinha,
É o Minguinhos a espreitar
Para o rio, sua paixão…
Foi quem mais soube lutar,
Por esta riqueza de Fão.
Na rampa as lavadeiras,
Esfregam, conversam e cantam…
A Maria Ruana, a Folheteira,
A Fira, a Regina, a Sineira,
A Panca, a Antoninha e a Tina Vinte-e-Nove.
O tempo cinzento…mas não chove.
No rio passa o Senhorinha,
À vara movendo o seu bote.
Entre as mulheres a conversa desalinha
Alteram-se as vozes, vem os insultos,
Puxam-se os cabelos, há gritos
E nós putos, aflitos
Parámos p´ra ver o dá
Sua esta, sua aquela, sua má!
Filha desta e filha daquela,
Sua vaca, cabra, cadela…
O alvoroço é total !
Até os peixes se assustam
De tamanha confusão,
Mas eis que chega o Vilela,
(De botas altas e boné)
Qu’era o regedor de Fão.
Meninas que é isso, então?
Parem com esse banzé!
Os gritos passam aos choros
E um tal desabafar,
E entre abafados coros
Lá voltam a ensaboar…
A tranquilidade regressa.
Quem passa com certa pressa
De comprida fisga em riste,
É o Angorra e o Bibita,
P’ra a ponte lampreia caçar
E conseguirem alguma guita.
Mais cabisbaixo e triste
Bom “Mixarro” qu’era Zé,
Tosse seca e um escarro
Uma vida a s’apagar…
Faz uma festa à filha Mé,
Sentada com seu jeitinho
Tal como o nosso Marinho,
No seu local predilecto,
O Cais ali bem perto.
Mas aquela calmaria…
Volta a ser interrompida,
Ouve-se um estrondo na ponte,
E volta a gritaria,
Das mulheres em alvoroço.
Já corre o João Faria,
Antes da sirene tocar
-Depressa sai da frente ó moço!
E aquele som no ar…
Sempre tão familiar
Faz-me estremecer…
Passam homens a correr:
O Zé Augusto, o Alaio,
O Cantoneiro da Praça,
O Chico Regina, o Tone Graça
O Taborda, o Tone Gaio
E o Chefe Miro Careta
Saltam para o velho Ford,
Que sai do Quartel como um raio
Sempre a tocar a sineta.
E dessa manhã de Maio
Guardei este quadro no tempo
Esta tão cara herança
No cofre do pensamento
Do meu tempo de criança.
E muitas recordações,
De pessoas, de momentos
De diversas emoções,
Das pescarias, das estacadas
Dos cortejos, desfiles, procissões,
Queima do Judas, paradas,
Das bandas, das marchas, fanfarras,
Das serenatas aos serões,
Com meu pai liderando as farras.
O cais era o centro e epicentro
Das maiores manifestações.
Mas o Cais não desapareceu
Continua bem guardado
Há mais de 300 anos
Resistindo a moléstias e danos
Pelo Frade ali plantado.
José Belo 2008-07-20