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Questões de Cultura

Nunca é demais lembrar a perda de tão importante figura fangueira, mesmo quando a imprensa a já noticiou. Relembro, pois, o Dr. Albino Campos tão recentemente desaparecido do nosso meio e de forma tão inesperada. Não são suficientes as palavras para descrever as qualidades deste “carvalho” de que me orgulho ter sido aluna. Leccionou, escreveu, fundou o clube de futebol em Fão, enfim, enriqueceu a terra a as suas gentes.

Na verdade, o “encanto” que a letra atribui a Fão está nas gentes, embora também nos recantos típicos e na paisagem. E é sobre a nossa gente, a nossa terra e oportunidades de todos nos enriquecermos o meu propósito neste espaço cujos dinamizadores quero já felicitar. Este jornal, quer em suporte de papel, quer em suporte informático, é, pois, revelação do valor dos nossos fangueiros. Outros valores existem, materiais e humanos, uns conhecidos, outros nem tanto. Acredito, contudo, que muito mais poderíamos fazer pela terra que parece cair num marasmo quente, e em que a proliferação de bares está acima de muitas coisas bem mais necessárias. Parece-me premente edificar percursos sociais, culturais, cívicos, lúdicos que divulguem os nossos artistas, as nossas vontades, as nossas competências, porque cada fangueiro é muito rico e não lhe chegará, certamente, guardar para si o que sabe e o que faz ou tem. Há que abrir, então, as oportunidades; e existem actividades e acções nesse sentido, só que não esgotam potencialidades. É bem certo que, por exemplo, durante as festas da vila, já foram dadas oportunidades aos fangueiros de exporem verdadeiras obras-primas; estou a lembrar-me de Manuel Vale que expôs miniaturas de fachadas de edifícios fangueiros manualmente construídas. O que me parece é que as festas duram muito pouco; por isso, sugeria que fossem criados espaços de exposições temporárias e que pudessem estar abertos, oferecendo cultura, experiências e animação, o ano inteiro.Bastaria que a Junta de Freguesia se dispusesse a alugar ou a solicitar aos fangueiros ou entidades fangueiras interessados o empréstimo de uma sala para, com um plano anual de actividades efectivo, se pudessem concretizar tais iniciativas. E isto sem por de parte a possibilidade de se convidar artistas de fora da terra para exporem ou darem palestras dirigidas a todos os grupos sociais e faixas etárias. O ganho seria irrefutável e os custos poderiam dividir-se pelos cidadãos que quisessem acolher, nos seus lares, um ou outro desses homens e mulheres das letras, da escultura, da pintura, do teatro, da fotografia, enfim; nada que nunca ninguém tenha feito. Os hotéis também não ficariam a perder se colaborassem com os interesses culturais e sociais de Fão. A iniciativa é que tem que partir de quem gere a “casa” e tem forma de funcionar como diapasão.

Se pensarmos noutros potenciais de Fão, temos a salientar monumentos que merecem ter recolhida e divulgada a sua história ou as suas histórias ou, ainda, estórias. Com as escolas do primeiro ciclo poder-se-iam criar vínculos de trabalho e de difusão desses locais e monumentos. Apraz-me falar, a pessoas que visitam Fão, do símbolo fálico que se ergue em lugar tão imponente como o Cais dos Bombeiros; o Frade do Cais encerra um simbolismo e uma tradição merecedoras de visita guiada. Não faltariam fangueiros reformados e jovens que, pelo menos ao fim de semana, se dispusessem a acompanhar interessados, estudiosos e até curiosos por locais típicos da terra.

Os concursos para melhor montra, mais bonita varanda, mais isto ou aquilo, não se realizam por não existir vontade, pois nunca me pareceu que os fagueiros se tivessem oposto ou recusado a embelezar a terra, a sua montra ou varanda. A dinamização da terra não é difícil de fazer, o que entrava é não existir um grupo de trabalho, na Junta de Freguesia, responsável por este pelouro; porque não podemos esperar que o pelouro da cultura da Câmara Municipal de Esposende nos agite e mova em prol do nosso próprio bem-estar. Fão ganharia com um grupo desses pois, com a participação dos restantes utentes, poderia solicitar às escolas trabalhos no âmbito de projectos curriculares; teríamos, certamente, resultados interessantíssimos a nível de sugestões para nomes de ruas partindo do estudo de cada uma nas suas diferente vertentes – localização, arquitectura característica, entre outros elementos; sugestões para um novo e representativo logótipo da terra, porque os cavalos-marinhos não são das águas geladas como as da nossa praia ou do nosso rio. Enfim, o que não terão as crianças para dar e para aprender!

A iniciativa, que só alguns estabelecimentos comerciais tem, de separar os lixos é louvável, e pena é que outros o não façam sem estar à espera que os obriguem ou exijam. Porém, dar uma forcinha para que arranque a responsabilidade de todos nós, cidadãos consumidores também, separarmos os lixos, poderia sair de uma iniciativa de esforços conjuntos; ou seja, com o envolvimento de associações culturais, desportivas, recreativas, escolas e de outros. Em Fão já temos iniciativas desportivas nas suas diferentes modalidades, e ora no masculino ora no feminino, dando aos jovens possibilidade de ocuparem os seus tempos livres, de aprenderem a organização estrutural do corpo e também da mente. E, de facto, a competição oficial no feminino, no Andebol, em Fão, vai de vento em popa não só pelas vitórias, mas porque mobiliza quarenta atletas que semanalmente treinam duas a três vezes e já o fazem há alguns anos.

Parece-me que se tem que construir respostas culturalmente e socialmente sustentadas para o desafio de uma sociedade participativa e de conhecimento. E estas não são mais do que propostas de iniciativas de promoção de direitos essenciais democráticos. Não acho que Fão tenha necessidade de chegar a um pódio, com a realização de todos estes eventos; sinto é que todos nós temos o ónus de realizar, mostrar, construir Fão como forma libertadora de cada um e de todos em si; para isso, têm que ser construídos recursos e meios. É impossível não falar de um hiato enorme que Fão tem - a não existência de uma biblioteca que é o tijolo edificador de uma sociedade democrática, para promoção do gosto da leitura, para estimular a reflexão e para fugir à rotina. Se preciso for, faça-se uma campanha de oferta de livros; criado o espaço, sem monos apenas, não faltaria quem contribuísse, nem os contadores de histórias fangueiros ou não.

A reconstituição de uma época passada podia chamar turistas à terra e despertar para a leitura de obras de leitura obrigatória durante a escolaridade básica; o “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente poderia ser revivido. Talvez um ambiente dos Descobrimentos fosse um tempo a reconstituir pela presença do mar, do rio, e da riqueza da época em si.

Não esmiuçarei mais o que se poderia ou não fazer. Cabe-nos a todos agir.