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São os tempos...

Alguém dirá: “são os tempos...”
Alguém como eu que nasci no Porto mas com família, casa, bicicleta, bola e amigos em Fão. Adoptei, inevitavelmente, esta vila como minha.

No “estádio” da Praça muitos golos se festejaram entre amigos que fui amealhando durante os eternos fins de semana em que havia tempo até para o tempo. Dali ao Cortinhal estava à distancia de apenas mais um “sprint” na fiel “bicla” e de mais umas horas em genuína liberdade.
Do Cortinhal ao rio, já se sabe, só mais um passo!
Belas pescarias e almoços fiz por ali com o meu “velhote”. Voltávamos, sempre, com o balde cheio para casa e pronto para que a minha mãe e avó fizessem o que de melhor as mães e avós sabem fazer: iguarias!
Mais tarde o pinhal e, finalmente, a descoberta da praia.
Pelo meio ficam as imagens das ruas povoadas todo o ano, das chaves à porta de casa, dos serões à lareira, dos verões intermináveis, e de uma aura alegre que parecia nunca abandonar a vila.
Julgo que o fascínio de Fão foi, para mim, esta inexplicável sensação de liberdade e convívio com o carisma que encontrava nas gentes e paisagem deste “torrãozinho sem igual”.
Que infância fantástica foi a minha!
Entretanto, os anos têm passado. Tal como as águas do rio Cávado por baixo da nossa centenária ponte ou como as areias do Ofir levadas pelo mar até outras costas, também nós, embrulhados nos estudos, profissões e universos pessoais vamos engrenando na cadência rotineira da vida sem que tenhamos dado conta do que vai sucedendo à terra.
Acordo hoje. Fão está diferente...
Vivo agora numa vila que ainda me oferece o conforto de sair à rua, reconhecer e ser reconhecido por amigos e gentes mais velhas que nos saúdam com o típico “môre”, de quem realmente o tem para dar, mas que já não oferece diferença a quem vinha a Fão fazer bem mais que “tomar um copo”.
Sinto a terra à mercê de uma pretensa e prolífera vida nocturna, entretanto decadente, para passarmos à especulativa pressão da inevitável industria imobiliária.
Sei que, aos olhos de muita gente, chegou o progresso!
Mas, para mim, que observo casas em ruínas, ruas desertas, pouco asseadas e inseguras não me consigo esquecer ou deixar iludir pelos esforços permanentes e inconsequentes da já costumeira renovação cosmética na marginal beira rio, respectivos bancos e candeeiros.
Rejubilamos com a Festa do Marisco ou qualquer coisa onde se coma, beba e faça barulho.
Já alguém se lembrou das Clarinhas? Da Lampreia? Do Robalo? Dos Folhadinhos? Dos tapetes de Flores? Marcas da nossa terra em que se devia investir, a sério, e mostrar com dignidade este património evidentemente apreciado.
Fão vai perdendo vertiginosamente a patine que a tornava uma vila pacata, elegante e com valores de cidadania.
Basta visitar o nosso cemitério e percebermos, pela riqueza ornamental, que não se trata de uma terra qualquer. Basta dar uma volta pela vila e vermos os solares de família que vão resistindo. Basta passear pelo que sobra de pinhal e descobrir casas, algumas recentes, cujo desenho se integra e não agride a paisagem. Basta olhar à nossa volta e entendermos que num raio de 3 ou 4Km podemos usufruir de Mar, Praia, Rio, Monte e Pinhal.
Quando é que alguém se lembra de dizer “Basta”?
Que Fão vamos oferecer ao tão pretendido fluxo turístico? Espaços de diversão nocturna com uma decoração diferente das que se encontram noutras terras?
Será de mim, ou das minhas limitações?
Passeio pela Avenida António Veiga e torna-se, para mim, complexo e difícil de entender como é que se pode confrontar o sossego de gente que investiu tranquilidade em Fão com a decadência do mais bonito hotel de charme da vila, verdadeiro empregador das gentes da terra, transformado em mercado nocturno para pessoas que vêm passar uma horas, sujar passeios, fazer barulho, e depois regressarem ordeiramente para as suas terras na certeza de que nada disto terão à porta de casa a perturbar o seu descanso.
É engraçado... até os bêbados que deambulavam pelas cangostas, a altas horas da madrugada, perderam o encanto, simpatia e generosidade das cantorias imperceptíveis.
Enfim, vejo-me a cair no lugar comum de realçar o exemplo dos vizinhos Espanhóis que, por quase toda a costa, conseguem dinamizar e preservar simultaneamente.
Aqui ao lado, bem perto de nós... que somos todos responsáveis, à nossa maneira, em deixar que se massifique Fão a escalas incomportáveis sem que daí se perceba os benefícios globais deste sacrifício e nos conduz para esta contradição de fundo: Verão superlotada, o resto do ano abandonada.
Faz falta gente que saiba pensar Fão numa perspectiva futura e que a vida continua para além da nossa. Gente que saiba fidelizar quem nos visita oferecendo-lhes o que é mais precioso e cada vez mais raro de encontrar: tranquilidade e bem estar.
Hoje fui à praça. Está mais moderna... e vazia.
São os tempos.

Pedro Serapicos