À minha Terra!
À minha Terra! Que é dona de uma beleza cortante!
As suas nobres praias que um dia foram calcorreadas por monarcas, poetas, sonhadores e principalmente sobrevivência dos nossos antepassados pescadores e aventureiros. Dizem os sábios que quando existem algumas maleitas não há como perguntar ao dr. mar e à sua enfermeira areia, o que fazer para nosver novamente a sorrir!
Mar de lendas e aventuras! Quantos de nós também não conheceu o seu semelhante nas suas águas cor de prata e areal dourado… Continuamos a buscá-lo quando precisamos de meditar ou então procurar respostas para as nossas infindáveis indecisões.
E o nosso pinhal semeado por algum Rei D. Dinis, quem não se lembra dos passeios nas suas sombras reconfortantes! Parecia que estávamos no meio do nada, e estávamos no meio do oxigénio do mundo. Os seus montes arenosos e ondulantes cobertos de musgo e pinheiros desordenados, como era lindo! As suas pinhas mansas e o seu musgo para melhor aconchegar o Menino Jesus e seus pares em tempo de Natal! Foram tempos bonitos… Agora, vemos no lugar desse majestoso pinhal, o consumismo do povo! Casas, prédios, lixo quanto baste. Vai ser tarde demais quando pararmos para pensar no grande mal que fizemos à natureza, o legado que vamos deixar aos nossos filhos vai ser puro consumismo. Nós que um dia fizemos parte do mais belo que a natureza nos presenteou!
A nossa vila de ruelas esguias e desconcertantes, que beleza sem igual!
Quando nos deparávamos no cruzar das ruelas e esquinas com os carismáticos na nossa linda Terra, como o Marcelino, que se fazia passar por autêntico sinaleiro, e sempre à espera de uma moedinha… E também o saudoso Avelino, quando era abordado pelos ditos camones e restantes turistas e ele direccionava-os sempre com a sua espontânea preguiça, “É por ali…”; dizia-o com os pés!
E a nossa famosa tasca até então emblema da nossa Terra, frequentada por doutores, engenheiros, arquitectos e claro os ébrios de então! Não faltava nada, desde o fado vadio às sardinhas, do famoso jogo da malha à sueca e, claro, o bom vinho! Como era lindo! Agora tudo isso acabou, não esquecendo as famosas revistas no então salão paroquial, o velho Maia, o ensaiador, qual Spielberg qual quê! Tudo era direccionado ao milímetro, o Chico Solinho, o homem da viola e das cantorias, o Barbosa, a Carlota, a Dulce e tantos mais, que na ausência de tudo já faziam de Fão uma terra virada para a cultura. Como era lindo! Continuo a dizer!
Não me quero esquecer das famosas serenatas que se faziam para cortejar as senhoras desta Terra, qual Romeu e Julieta! Era tudo tão puro e natural que trazia a esta Terra, cantinho de Portugal, como um dia cantarolamos e aqui fica registado: “Oh Fão antigo, torrãozinho sem igual, és o mais lindo cantinho de Portugal!”
Na época havia miséria, mas acima de tudo, havia lealdade e honra! Agora deparamo-nos com uma terra cheia de tudo e cheia de nada! Ganhamos à miséria, mas perdemos a integridade e os bons costumes, onde estão as revistas! E as serenatas também? Até os famosos emblemáticos decidiram partir! E levaram tudo com eles, deixando-nos como legado uma terra que toda a gente se orgulhava de dizer, “EU SOU DE FÃO!”.
Porque será?
Falando de turismo, fomos criando alguns alicerces como forma de colmatar essas faltas, visto que ficamos sem a agricultura, a indústria e as pessoas. Começamos a abrir alguns bares para fazer de apoio aos hotéis e pousada existentes, mas não tem sido fácil, pois parece que se deixou de amar os filhos da terra, e somos apontados como criadores de espaços de maus vícios…
Nós que damos prioridade aos jovens de Fão no seu primeiro part-time. Se repararem só tem sucesso em Fão, no meio empresarial, quem não é de cá! Gostava que pensassem em nós com mais respeito e carinho por aquilo que fazemos.
Acredito que não é porque são mais inteligentes do que nós, mas sim porque os deixam trabalhar à vontade e nós, conterrâneos, estamos sempre na mira das contradições! Se fazemos alguma coisa, está mal feita, se não fazemos é porque não somos audazes! Por favor, deixem trabalhar quem também tem orgulho de ser Fangueiro. Por vezes só precisávamos do silêncio das pessoas que têm as vozes mal caladas! Era importante não esquecer que o futuro passa também por nós.
Posso estar a ser agressivo com as palavras mas, infelizmente, e porque estamos em democracia, é o que se passa na Terra que ninguém ama mais do que eu! Por isso somos obrigados a sair daqui com os nossos investimentos, como aconteceu comigo, e vos garanto que fui acarinhado e principalmente ouvido, nos projectos a desenvolver.
Fão ainda tem um bocadinho de tudo para vencer a nível de turismo. Apoiem os jovens desta Terra, que têm sangue na guelra e querem levar o nome de Fão, também a nível turístico, o mais longe possível.
Celestino Fradique Alves