E Fão é muito mais que um nome ...
Nasci no Porto, vivi no Porto e desde 2005 vivo em Fão.
Até meados de 2003 os meus pais tinham no centro da vila e perto do rio uma casa. A ela recorríamos nas férias e nos fins-de-semana ou sempre que nos era possível.
Parte da minha infância foi aqui passada. Aqui brinquei, aqui aprendi a andar de mota, aqui fiz os primeiros peões de carro, aqui namorei, aqui fiz festas longas e divertidas. Fiz amizades duradouras e com elas acordei um pacto: Assim que possível assentávamos vida em Fão.
Não são apenas as clarinhas, os folhadinhos da D. Tininha e as costelinhas do Tio Pepe, é o rio, o mar, o pinhal, o rame-rame da gente, o olhar afável das pessoas daqui que me atraíram e atraem. É o poder respirar sem pedir licença, é o poder passear sem ter de me deslocar de carro até ao parque verde mais próximo, é o chilrear dos passarinhos e as escaladas dos esquilos. É a natureza no seu estado quase puro que me fez pensar em passar a viver aqui e passar a visitar a minha cidade do coração.
Foi um amor à primeira vista.
Numa primeira fase, como se sabe, tudo são facilidades, adaptei-me a tudo pelo espírito edílico da minha nova vivência. Faltavam cinema, teatro, exposições, cafés ou bares abertos até tarde e com boa música ambiente. Mas, lá me ajustei sempre a pensar que no dia seguinte as horas demorariam o dobro a passar, o tempo iria esticar e haveria tempo para relaxar doutros modos.
Estamos em 2007, continuamos sem teatro, sem cinema, sem exposições, sem cafés ou bares com boa música e acolhedores e onde se possa estar em “amena cavaqueira” com os amigos, a excepção é o bar irlandês na pracinha, muito agradável.
Junto do rio, onde se podia dinamizar o espaço, continuamos a não poder tomar um café, um sumo, um chá, almoçar ou lanchar. Á parte o Verão, o resto do ano não é nada. Bom, temos sempre a possibilidade de passear ao longo do rio que já não é mau de todo.
Se num início me mantive em Fão sempre que folgava o trabalho, e para cá tentava chamar amigos e família, tentando fazer-lhes ver as delícias de viver fora da urbe, agora, e desculpem-me, quem sai daqui sou eu. Procuro fora o que aqui não encontro. Em Esposende, em Viana, em Braga e, obviamente na minha cidade tão amada, o Porto.
Continuo a saborear Fão até à medula, mas, sinceramente, acredito que podia “lambuzar-me” muito mais.
Sou designer, trabalho com grandes empresas algumas conhecidas internacionalmente, (uma delas, Claus Porto, com os meus trabalhos, foi referida no programa da conhecida Oprah Winfrey). Mas, infelizmente, aqui, ou porque sou visto como outsider ou porque ainda não se percebeu a importância da imagem na divulgação e comunicação, os trabalhos que desenvolvi para Fão foram quase nulos.
A minha esposa abriu um cantinho para os meninos, depois da escola ou nas férias, poderem alargar horizontes, não só de estudo mas também culturais.
Com este texto e estes dois últimos parágrafos só quero demonstrar que Fão tem potencialidades que nem sempre são exploradas como devem. É pena…
Nuno Neves
www.n2-design.pt