História de um retrato
Conto duma neta e avó, para as netas...
A neta e a avó, sou eu. As netas são a Leonor e a Constança, as minhas netas.
Então,lá vai.
Era uma vez, há muitos anos, uma menina
pequena, muito curiosa que vivia numa casa
com os seus papás e irmãos.
- Oh! vovó, já sei que essa menina eras tu!
atalha logo a Constança.
- Cala-te Constança – diz a Leonor. É que se interrompes, nunca mais esta história chega ao fim, não sabes como é a vovó?...
- Oiçam, meninas, eu mal comecei, já estão a pensar no fim, mas sempre vos digo, que na verdade eu não sei o fim desta história …
- Por amor de Deus! Se não sabes o fim, o melhor é parares mesmo por aqui. É óbvio, não é vovó? – volta a Constança, pequena “letrada” de oito anos, constantemente aplicando o seu vasto e rico vocabulário.
- Posso continuar?
Faz-se silêncio.
Pois nessa casa, havia um pequeno quarto interior, chamado o quarto do Senhor. Sobre uma cómoda, lá estava um grande crucifixo do Jesus, algumas imagens de Santos e por cima, a toda a volta, grandes retratos antigos de pessoas da família que já não existiam. O que me atraía mais, era um que estava mesmo em frente e que prendia imediatamente a atenção de quem ali entrasse.
- Com licença, vovó, só um momento: posso perguntar de quem era esse retrato? – interrompe de novo a Constança.
- Sim, meu amor. Aquele retrato representava a minha avó paterna, muito nova, agarrada ao seu filhinho, talvez de cinco ou seis anos, que era o meu Pai, também muito bonito e vestido à moda daquela época. Pelo meu Pai…
- O bivô Carlos? – pergunta a Leonor?
- Sim, meu amor. Pelo bivô Carlos, desde pequena aprendi a ter uma enorme ternura por aquela avó. Morreu com vinte e sete anos e pouco antes de morrer fez questão de tirar aquela fotografia abraçada ao filho, última recordação a ser enviada para o Brasil, onde trabalhava o marido, meu avô, portanto.
- Tu escolhes histórias difíceis e tristes – diz a Leonor. Já era assim quando o meu Papá era pequeno.
- É verdade, é – atalha a Constança. O Papá conta que a maior parte dos teus contos, metiam ambulâncias e meninos atropelados que seguiam logo para o hospital…
- Bem, bem, mas a minha Avó não foi atropelada, nem morreu no hospital. Quereis ouvir?
Naquela altura, contraía-se, por vezes, uma doença, a tuberculose, que acabava por ser incurável e as pessoas morriam. Foi o que lhe aconteceu.
- E o teu Pai? Com quem ficou?
- O meu Pai ficou com a Avó, minha bisavó Carolina, que era mãe da mãe dele e que sempre o estremeceu.
- Estremeceu?! Por que é que ela lhe fazia isso? Era má? – pergunta a Constança.
- Não, pelo contrário. Estremecer, aqui, quer dizer gostar muito, ter muito amor, muita ternura. Ela pretendia desdobrar-se, conseguir ao mesmo tempo, dar-lhe o amor de mãe e avó, percebes?
- Sim, sim, vovó. Anda lá p’rà frente – remata a Leonor.
Portanto, eu vivi sempre com aqueles retratos e foi com o meu Pai que aprendi a rezar sempre por aquelas pessoas de quem eu teria certamente um bocadinho e ainda hoje rezo.
Então, alimentei sempre o sonho de que um dia, muito mais tarde, quando os meus Pais já não existissem, aqueles retratos fossem parar a minha casa, continuassem comigo. E o sonho, tal como uma grande parte dos sonhos, tornou-se realidade. Eles vivem comigo! Estão na minha sala! Que feliz fiquei!
- A história é triste, mas é bonita – diz a Leonor, pensativa. E depois, quando fores velhinha, para onde vai o retrato? O teu pai e a tua avó?
- Não sei, meu amor. É um retrato muito grande… Quem sabe se uma minha neta, o quererá?...
- Ó vovó, nem penses, tu não estás lá… - sentencia a Constança.
- Olha, meu amor, mas eu estou!
- Como? Só se for por trás, escondida, achas? Não te encontro! Não te encontro!
- Não, mas eu sei que estou!...Sabeis onde? Bem metida no coração de cada um deles!
- Ah, vovó, eu isso nunca poderia adivinhar Tu nem sempre és boa a descobrir, mas desta vez, foste mesmo fixe…- diz a mais pequena.
- Então, a história do retrato continua, pois é?...
- Sim, querida Nonó. O tempo encarregar-se-á de virar as páginas deste conto e quem sabe, se um dia não serás tu, a outra neta, a recontar a história deste retrato!...
Dezembro de 2007
Zinha