Homenagem ao Dr. Alceu
(Texto integral da palestra proferida pelo Prof. Joaquim Peixoto na homenagem ao Dr. Alceu Vinha dos Santos.)
O Sr. Dr. Alceu, que hoje homenageamos, foi um cidadão com uma grande e profunda consciência cívica, um homem que comungou durante a sua existência o dever cívico de filantropo – o mais sábio, o mais puro, o mais justo, o mais simples.
Foi um “talent de bien faire”.
Para o Sr. Dr. Alceu, segundo Paulo VI, a política foi uma foram superior de exercer caridade, foi estar ao serviço dos outros e para os outros e, de entre os outros, os que menos oportunidades tinham.
Teve uma farmácia de que foi proprietário, no tempo da fome, da peste e da guerra. Ninguém ficava sem um medicamento, mas a farmácia fechou.
Foi para Moçambique. Lá permaneceu vários anos. Quando regressou de férias, a Pide não o deixou voltar. Ficou por cá. Dano o seu aval como Director Técnico à Farmácia Higiénica.
Colaborou como dirigente em várias em várias instituições sociais da nossa Terra: Bombeiros, Futebol, Clube Fãozense.
Coordenou e foi responsável da Página de Fão, no jornal “O Cavado”, onde caricaturou várias figuras da nossa sociedade.
Colaborou em Revistas humorísticas e realizou, como protagonista, o primeiro spot publicitário ao tabaco, realizado pela Invicta Filmes.
Escreveu o texto, compôs a música e cenários da revista “Ora chupa que se apaga” em benefício da residência paroquial, por volta de 1955.
Conheci-o nessa altura.
Parava, à tarde, na alfaiataria do meu pai, já que o único café da terra o “Galo d’Oiro” tinha encerrado.
Entretanto, em 1958, começámos a gerir o Café do Rio, que pertencera ao Clube Fãozense e que ele abriu, como Presidente da Instituição, na casa da família.
Aí, no café, achou que eu tinha potencialidades: já ia dizendo umas palavras em Francês e Inglês. Fui, então, o seu 1º explicando, seguindo-se o Sr. Mário Ferreira e outros … outros … muitos.
Fizemos com o Sr. Dr. Alceu o 2º ano do liceu, depois o 5º ano, nós e muitos mais. Os resultados eram óptimos. Durante mais de 10 anos deu explicações nos anexos do nosso Café e em casa. Nunca levou um tostão a ninguém. Começava as explicações por volta das 5,5 da tarde e terminava às 8 da noite; e, muitas vezes, vinha depois do jantar e voltava a dar explicações até à meia noite.
Disse-me um dia: Meteste-me no corpo o vício de ensinar …
Duas coisas destaco da sua vida político-social:
1ª - Nunca interferiu ou quis mudar as ideias políticas ou os ideais políticos dos seus explicandos, quase todos jovens já a entrar na idade adulta;
2ª- Viveu economicamente pobre e pobre morreu, mas muito rico espiritualmente.
Daí a nossa amizade para além da vida e que hoje queremos rememorar.
O Sr. Dr. Alceu é, para nós, a raiz cultural, como acima disse, medularmente espiritual, fraterna e comunitária; é o modelo perfeito do Homem Filantropo, impulsionado por ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, segundo o seu ideário, respirando uma Humanidade unificada, mais equilibrada social, económica e cultural. É uma aspiração a uma prosperidade política e económica a que só a cultura poderia ser e é o veículo dessa prosperidade.
O seu filantropismo foi regido por uma intrínseca necessidade de valorização dos jovens e amigos que o rodearam e que se foi alargando à medida que a ânsia de valorização desses jovens se foi pronunciando.
O sonho do filantropo Dr. Alceu consistiu, com a sua acção docente de explicador sem fins lucrativos, consistiu em ajudar os jovens a derrubar as barreiras erguidas pela sociedade da época; pelo governo da época; pela crise económica de então.
Ele acreditava que, mais dia menos dia, haveria a necessidade da vinda de um “Encoberto” que concretizasse todos os intentos frustrados da sociedade da época.
Em síntese:
O Sr. Dr. Alceu protagonizou a força, a resistência, a tenacidade, a rebeldia, a fidelidade e, particularmente, de uma forma desenvolvida, o Humanismo. Deu o Ser e o Ter a uma juventude marcada pelo “ferro em brasa” da sua origem, mas potencialmente rica no desejo de valorização intelectual.
Revolucionou, no bom sentido, a jovem sociedade fangueira, alargando o seu altruísmo cultural ao concelho.
A nossa consciência cívica sente-se realizada, por, publicamente, Fão agradecer ao Sr. Dr. Alceu aquilo que ele fez pelos jovens…
Obrigado, Sr. Dr. Alceu.
Prof. Joaquim Peixoto