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Da Páscoa ao Senhor de Fão - tempos de encantamento!

Despertou-me logo certa nostalgia o convite para recordar a semana entre a Páscoa e o Senhor Bom Jesus de Fão em meados do século passado_ Nos tempos actuais, de informação instantânea, pautados por telemóveis e "nets", alguns cenários e situações que guardo na memória mais parecerão extraídos de filme de ficção.

As cerimónias litúrgicas da Semana Santa estavam reduzidas nessa altura a actos meramente simbólicos. A grandeza das procissões, com vibrantes pregadores, que emocionavam até às lágrimas os crentes e inquietavam os indiferentes, a filarmónica que interpretava composições gregorianas e clássicas, já eram saudades contadas pelos mais idosos. Pouco depois do virar do século, a crise instalou-se para ficar e não havia verbas que suportassem culto e tradição de dois em dois anos. O peditório da Semana Santa colava-se ao das Festas do Bom Jesus. A Santa Casa, comidos os legados pela inflação, batia à porta de benfeitores e organizava cortejos para que o hospital não se reduzisse a triste asilo. A crise da construção naval (devido ao assoreamento do rio e chegada do barco a vapor), seguiu-se a do Brasil, para onde tantos fangueiros emigraram, depois a Grande Guerra, pneumónica, recessão económica mundial no final da década de 20. A classe piscatória, em número considerável, passava fome de rafeiro vadio, suplicando uma côdea pelas aldeias, andrajosa e descalça. Entretanto, famigerado bando de assaltantes era o terror de quem já pouco tinha de seu.

Na década de 50, com o Ofir e a emigração para a Europa mais industrializada, o panorama melhorou consideravelmente. Nos dias da Semana Santa, nos tempos do saudoso prior Nogueira, não faltavam rapazes à porta da sacristia a disputar uma opa. Como nos funerais, para pegar na bandeira ou agarrar borla, garantia segura de um punhado de aparas de hóstia (pão ázimo, sem fermento, antes de consagradas), dadas nas escadas da casa da devota D. Sara.
"Xô", gesticulava energicamente para os rapazes o sr. Francisco, sacristão que fora combatente de Grande Guerra, com histórias de espantar, impondo ordem na sacristia antes que se esgaçassem as opas. O fito da rapaziada era levar campainha ou caldeira numa das duas cruzes, garantia segura de uns punhados de amêndoas em casas certas. De amêndoas autênticas. Não das de recheio a farelo, espalhadas nos baptizados de gente remediada, porque os dos pobres eram "chochos". O padrinho ou familiar lançava uns punhados dessas amêndoas ou confeitos e logo os rapazes mergulhavam sobre a terra batida, às vezes empoeirada, o beneficio não valia o custo, de calças e joelhos maltratados, quando não um galo na cabeça, além de "festa" garantida à chegada a casa.

As primeiras barracas a acampar na alameda eram as dos matraquilhos. "É ao perde-pagas", desafiava quem ficaria logo sem cheta se perdesse uma ou duas partidas, a cinco tostões. "Chegou o carrossel", anunciava alguém que passava o tempo a correr para o lugar de encantamento e a boa nova depressa se espalhava. A entrada dos Zés P'reiras, de Fragoso, de calça branca e faixa vermelha, dominava a tarde de Sexta-feira, com numerosa concentração a esperá-los junto à ponte. O famoso trio, curtido a romarias e verdasco, conhecia muito bem os locais indicados para o abastecimento líquido, servido em malgas esmaltadas, pois malhar no bombo ou soprar aos foles requer força e fôlego. "Agora, ide gastar o dinheiro para a festa e esquecei-vos de quem vos fiou no Inverno todo”, avisava a tia Adelina, apontando para as travessas com postas de raia e bacalhau frito, aconchegadas com cebola e salsa.

Os foguetes lançados pelo Neca Boucinha assinalavam as correrias dos rapazes que se atropelavam na disputa da cana e que, afinal, não servia para nada.
No Domingo era uma multidão de terras vizinhas. O mostruário da alameda, referência da cultura popular, repetia-se anualmente. Não era uma feira de ruído e fancaria. Junto ao fontanário, o carrinho das bombas, que estouravam se o freguês tivesse força suficiente para impulsioná-lo por um trilho ascendente. As barracas dos brinquedos, das farturas, um pouco mais tarde, o doce de romaria em toalhas brancas junto ao adro barroco, as tremoceiras. Era a época em que carrosséis e carinhos de choque eram quase novidade, todos eles a caminho das Cruzes, fazendo uma pausa em Fão, se as celebrações dos "irmãos" não fossem próximas. O Senhor de Matosinhos/ mandou dizer ao de Fão/ para contar ao de Barcelos/ que também era seu irmão.

A entrada das bandas de música, ao meio-dia, era acto solene. Uma banda junto à ponte, com membros da comissão e pessoas engravatadas a acertar o passo da marcha, no regresso traziam a regueifa para o almoço, outra percorria as Pedreiras, gente que no tocante a bairrismo não recebia exemplos de ninguém. Fão teve sempre gente com ouvido apurado, na filarmónica de boa memória, nos finais do século XIX, ou a nível de clero, como os padres Alaio e Manuel Borda. Gente sabedora da arte dos sons não perdia interpretação e debitava opiniões sobre as bandas. Não havia auto-estrada, as camionetas ronronavam à primeira subida, os automóveis luxo e aventura de muito poucos, havia quem ocupasse a tarde de Domingo, junto à estrada, a contar os que passavam — na semana de Senhora de Agonia então é que era, movimento que não passava de descanso nos nossos dias - depois da sessão de fogo de artificio os músicos pernoitavam em casas particulares. Na noite do fogo, o "pilinhas" era vizinho da vendedeira de café por atacado, feito em enormes cafeteiras, fervida a água colocavam duas ou três colheres de pó. Cumplicidade extensiva ao toldo dos petiscos junto ao muro, com ganinho de loureiro a anunciar pipo sem parança.
Os devotos do Senhor Bom Jesus osculavam com emoção a comovente imagem, que recusou tintas de restauro até que o meu pai encontra ou a fórmula certa.

Os tostões eram poucos, depressa gastos em matraquilhos, copo de tremoços, pirolito de bolinha ou doce barato, feito de farelo revestido a açúcar e, lambido este, restava uma coisa melada e nada apetecível. Lançava-se, então, olhar de compaixão para a generosidade familiar, mas ninguém podia distribuir o- que a todos faltava.
A Segunda-feira era para os de Fão e romeiros de terras vizinhas, até os cumpridores e rigorosos professores dispensavam os alunos, era "feriado", se não por força de lei, por força da tradição e devoção ao Senhor Bom Jesus. A procissão aos doentes e encamados, que assim se "desobrigavam" da obrigação pascal, era uma manifestação de piedade e solidariedade para com o conterrâneo diminuído. Como o Lar não existia nem em pensamento, o doente ou velhinho escoava o seu tempo amparado a um dos seus parentes, sem condições de higiene, médicas ou medicamentosas, mas como calor e conforto vindos de uma seiva comum.