Era Verão…
Para quem percorre a agora denominada A28, no sentido Viana do Castelo - Porto, a chegada ao cume do monte de São Lourenço é premiada com uma espectacular visão sobre o estuário do Cávado.
Nesse final de tarde do início de Setembro, após longos quilómetros de viagem desde o sul de França, este quadro encontrava-se completamente toldado por uma densa manta de nevoeiro, que teimosamente pairava sobre a faixa do litoral.
Era este o final de umas férias passadas com bons amigos, que com muita pena tinham visto a sua duração reduzida para metade, fruto dos condicionalismos impostos pela Mãe Natureza.
Alheado das tarefas de condução na parte final da viagem, começava a ser invadido por uma dúvida. O que fazer com quase duas semanas e meia de férias que, imprevisivelmente, me restavam?
Acordei. O corpo ainda dorido da viagem encaminhou-se, quase que como por instinto, para a varanda. Os sentidos despertaram para uma segunda-feira de manhã, em Setembro, simplesmente radiosa. Em pouco tempo, e afastando outros pensamentos com as mais variadas sugestões e destinos, decidi que os próximos dias seriam passados em Fão.
É de facto estranho apercebermo-nos de que o Tempo nos muda. Há dez anos atrás ansiava pela chegada do mês de Agosto e de todas as alterações que provocava à pacata vida fangueira.
Momentos antes tinha acabado de, convictamente, “empenhar” aquele que é cada vez mais um bem precioso, o nosso tempo de lazer, em cerca de 20 dias passados integralmente em Fão. Em boa verdade, há já cerca de oito anos, altura em que iniciei a minha vida profissional, que não estava na minha terra por um período tão longo de tempo.
Um dos ingredientes essenciais para que umas férias de Verão sejam bem passadas é o clima e, nesse aspecto, fui abençoado com um tempo maravilhoso. Longos dias de sol com óptima temperatura, com a característica nortada a fazer, também ela, as suas férias. Dias em que momentos de tranquilidade, descanso e, acima de tudo, uma sensação de leveza interior, passam a ser uma constante, ganhando novamente espaço para existirem em toda a sua plenitude.
Caminhadas solitárias desde o Ofir até à foz do rio; páginas de um livro percorridas sob o calor agradável do sol; momentos de contemplação do azul do mar e do céu; tempo para dormir uma agradável sesta cujo fim não terminará com o ruído do despertador; deambular ao luar pelas vielas, cangostas e ruas do centro de Fão, tão ansiosas por regressar a um passado não muito distante, em que eram cheias de vida; passeios pelos novos passadiços de madeira tão bem conseguidos e com a importante função de proteger um frágil ecossistema que, como todos sabemos, continua a ser ferido de morte com a construção de mais e mais “importantes” condomínios fechados; o encontro casual com aquela pessoa que já não víamos há bastante tempo e que nos permite concluir que as amizades verdadeiras são mesmo assim, indiferentes à distância e à ausência; o participar no dia-a-dia dos nossos pais e sentirmo-nos, com isso, novamente crianças; o transmitir uma energia positiva àqueles que amámos pelo simples facto de estarmos mais felizes.
Concluo que, quando num determinado momento e num determinado local, sentimos que não desejámos estar em mais lado nenhum, podemos, no meu entender, dizer que somos felizes.
Foi sem sombra de dúvida esta a sensação que pautou estes dias muito simples, mas talvez por isso mesmo inesquecíveis, que aqui vivi, no meu lugar de sempre, em Fão.
João Santos