Para a História de Fão
Cativos fangueiros nas masmorras de Argel.
A pirataria mourisca, nomeadamente a sediada em Argel e em Salé (Marrocos), foi uma verdadeira praga que infestou a costa de Esposende nos finais dos sécs. XVII e durante o XVIII, ora assaltando e saqueando navios, ora raptando tripulações de pescadores que eram levados para as suas masmorras, para depois ser negociada a sua libertação.
Foi um período de grande instabilidade para as populações ribeirinhas, pois, não era raro correr o boato «anda moiro na costa», para logo se temer uma acção de assalto ou de represália não só deles, mas também de outros ditos “mais civilizados” como franceses, holandeses e em determinada altura até do próprio pirata encartado “Sir” Francis Drake, que deu bem que fazer ao norte de Espanha, onde a sua esquadra matou gente de Esposende e de Fão, que por lá andavam.
Para vigiar a costa contra estes assaltantes, de noite, acendiam-se fogueiras nas praias e nos lugares mais altos (os fachos). Rondava-se a borda mar noite e dia e as localidades ribeirinhas avisavam-se umas às outras através de sinais de fumo ou de fogo.
O forte de S. João Baptista foi construído neste contexto de prevenção junto à foz do Cávado, porém, nunca serviu para tal.
Terá funcionado mais como dissuasor do contrabando que por aqui era feito em grande escala. É que nunca dali foi dado um tiro contra a pirataria, pois, pouco tempo depois de ter sido edificado, com o assoreamento e a consequente distanciação da barra, tornou-se obsoleto por ficar fora do raio de acção da balística do tempo; e de tal forma as populações supostamente resguardadas pelo “forte” e sua guarnição ficaram expostas, que ainda no tempo das Invasões Francesas, em Antas, se organizavam milícias populares para vigiar a praia, com o argumento de que iam “dar fogo ao brigue” ou seja, receber a tiro quem, vindo do mar, ali tentasse desembarcar.
Ao largo da nossa costa sempre passaram muitos navios de comércio vindos da América do Sul, carregados de mercadoria valiosa, nomeadamente das chamadas Índias de Castela e do então nosso Brasil.
Os fangueiros eram naquela altura, excelentes e destemidos pescadores que se afoitavam a ir pescar ao “profundo”, onde abundava a pescada. Para isso, possuíam barcos grandes e velozes, admirados por outras comunidades piscatórias, por serem essencialmente seguros. Eram as conhecidas “Lanchas de Fão”, que eu defendo, desde há muito, serem as precursoras das que se tornaram famosas com o nome de “rascas”, tipo de embarcação hoje reivindicado como sendo originário da Ericeira.
O frontispício do Livro da Entrada de Irmãos da Santa Casa da Misericórdia de Fão, de 1767 a 1861, reforça a minha convicção, (baseada ainda noutros pressupostos) pois, naquele belo desenho feito à pena, lá aparece a “rasca” .
Mas não só! Na espécie de brasão que orna a frontaria da Capela de Santo António, porventura anterior a esta data, lá está ela gravada na pedra: um barco, com três mastros inclinados para vante e respectivo velame latino e isso é uma “rasca”. Das últimas rascas conhecidas – da Ericeira – algumas foram construídas nos Estaleiros de Fão...
A área de pesca em que essas embarcações e as tripulações fangueiras operavam e a que me venho referindo, era muito próxima dessa rota comercial e, portanto, a zona preferida da pirataria berbere e quejandos que por ali andava à caça. Contudo, neste provocador desafio, nem sempre a mourama se saía bem e quando tal acontecia, eram os seus elementos aprisionados, se não, mortos, pelos assaltados.
Todavia era certo e sabido que não desistiam e na primeira oportunidade voltavam, não só para roubar, mas também para se vingar; e quando assim era, à falta de melhor, faziam verdadeiras razias entre as embarcações de pesca, que embora não tivessem mercadoria valiosa que lhes interessasse, tinham as tripulações que depois serviriam de moeda de troca por outros deles ou por resgate, obtendo assim avultados lucros quando negociada a sua libertação. Muitas vezes os prisioneiros acabavam por serem vendidos como escravos e desses perdeu-se o rasto, a não ser daqueles que conseguiram fugir.
Fão foi particularmente martirizada por este tipo de agressões, com muitos dos seus pescadores raptados e cativos. Muitos foram os morreram, sem voltarem à terra natal; outros, porém, foram resgatados depois de árduas negociações, em que as Misericórdias, a Administração local, através do Juiz dos Órfãos e Cativos e por vezes alguns particulares, tiveram um papel relevante.
Os pescadores aqui tratados eram na sua maior parte gente relativamente pobre, afora os mestres das embarcações, que eram considerados mais valiosos, pois, possuíam alguns bens de fortuna, sendo por isso os primeiros a serem negociados ou trocados por prisioneiros equivalentes, transacções essas a que não eram alheias a crença religiosa de ambos os lados.
Tal como os piratas berberes, que muitas vezes operavam sob a proteção oficial, também nós os metíamos a ferros nas prisões, para depois os negociarmos, embora a maior parte, tanto de um lado com do outro, morresse desprezada e abandonada, depois de ter passado as maiores sevícias e privações nos calabouços das infectas prisões daquele tempo, sem que a oportunidade salvadora aparecesse.
Vejamos, então, o que aconteceu, segundo registos existentes nos Livros de Óbitos da Paróquia de S. Paio de Fão:
1686 – Em Novembro chegaram notícias a Fão, «por via de um captivo» chamado Gaspar, que Pedro Miranda, havia falecido, nas masmorras de Argel. Sua mulher, Isabel Manuel, tinha falecido em Fão, a 4 de Setembro do ano anterior. O mesmo cativo e outros que foram resgatados na altura, informaram ainda que Paulo Gonçalves, marido de Maria da Costa, conhecida pela “Janeira”, também tinha morrido no cativeiro;
1690 – No dia 25 de Julho, chegou a notícia a Fão, de que havia falecido Bento Luís, que se encontrava cativo em Argel;
1691 – Em 9 de Novembro, o padre de Fão recebeu notícia, por carta vinda de Argel, que confirmava a morte de Pedro Mayo, que lá se encontrava cativo;
Em 11 de Novembro do mesmo ano, chegaram também a Fão, cartas que davam conta da morte de Manuel Luís Câmara e Gregório…..(?) que na cidade de Argel se encontravam cativos;
1692 - No dia 9 de Janeiro, chegou a nova de Argel, de que havia falecido Silvestre Manuel, que lá se encontrava cativo;
No dia 14 de Julho, chegaram notícias de que Gaspar Francisco, tinha falecido em Argel, onde se encontrava cativo. O padre Francisco Roiz volta a registar, agora no dia 11 de Setembro, que Manuel filho de Catarina de Morais, viúva de Domingos Ribeiro, tinha falecido em Argel, onde estava cativo;
Maio de 1753 – Rapto da tripulação da lancha dos “PINTOS”
A notícia certa do que se tinha passado sobre o desaparecimento desta lancha e da sua tripulação, só chegou ao fim de um ano, quando o fangueiro Jacinto André foi a Argel, muito provavelmente com a intenção de resgatar um seu cunhado e um seu sobrinho, das mãos dos Mouros.
Foi ele quem mandou a notícia por carta, de cujo conteúdo o Reitor de Fão, ao tempo, o Encomendado Manuel Leite Mariz, teve conhecimento e registou em 12 de Novembro de 1753.
Diz o dito assento de óbito, que:
- Lourenço Lopes, solteiro, filho de Manuel Lopes e de Antónia Ferreira, que estava em poder dos mouros, tinha falecido na Ilha de Argel, em 6 de Agosto de 1753, por ter sido raptado da lancha chamada dos Pintos, em Maio deste mesmo ano.
Tratava-se de um “filho famílias” de Fão e por isso, seus pais, lhe mandaram fazer voluntariamente três ofícios de 11 padres cada um.
O Padre anota que o emissário Jacinto André, nessa data, ainda se encontrava em Argel.
Um outro assento, este com data de 26 de Maio de 1754, deve estar relacionado com o anterior, porquanto também se refere a outros cativos, que faleceram na cidade de Constantina, perto de Argel. Contam os dois assentos de óbito subsequentes, baseados nas notícias certas que chegaram a Fão, que Manuel da Silva Areias, marido de Antónia Manuel, da Rua de Baixo e seu filho Manuel, solteiro, tinham falecido «da presente vida na cidade de Constantina, terra de Mouros» onde há um ano se achavam cativos «com outros mais pescadores desta mesma freguesia».
Ora, «há um ano» era Maio; e foi em Maio que se consumou o rapto da “lancha dos Pintos,” cuja tripulação, devia ultrapassar os 20 homens.
Faziam ainda parte deste grupo, mais pescadores fangueiros que conheceram as masmorras da Ilha de Argel e lá morreram cativos:
- António Manuel Braga, marido que foi de Maria Francisca, da Rua Direita
- João, solteiro, filho de Manuel Gonçalves Manete, da Rua da Areosa;
Estes registos foram feitos, na base das notícias «certas» que haviam chegado a Fão, no dia 26 de Maio de 1754.
Muitos vezes estes raptados eram «filhos famílias», isto é, pertenciam a gente endinheirada ou de condição social elevada, que andavam ao mar, tal como qualquer simples pescador, mas a exercitar-se para mais tarde serem mestres, pilotos ou capitães de navios.
Fão era também uma terra de marinheiros que deixaram bem marcada a sua passagem pelo Brasil.
José Felgueiras
Esposende, Agosto de 2016
1- Navio de vela de dois mastros que enverga pano redondo em ambos.