“In illo tempore”
Não sei quanto tempo já passou nem quero saber. Sei que as nossas ruas tinham sempre crianças, muitas delas mal vestidas com o ligeiro calção cintado com atilhos sob camisola desajustada pelo tempo. Talvez dádiva da senhora vizinha a quem Deus dera mais sorte.
Nos pés apenas os dedos maltratados por umas repetidas “topadas” nos paralelos toscos da rua e sarados pelo chão que estancara a ferida.
Depois da “escola” e da sacola de sarapilheira arrumada em qualquer canto da rua, as brincadeiras e correrias acompanhavam o alarido da pequenada. As árvores entroncadas no Largo Amândio Teixeira patrocinavam a escalada e as suas folhas pequenas e resistentes sibilavam entre bocas, com diferentes efeitos sonoros. A simetria dos troncos formavam largas balizas e no 2 contra 2 simulavam o recinto perfeito.
As bolas agrediam a estética e tudo servia para um bom jogo.
Mas naquele dia a coisa correu diferente. No chão empoeirado luziram cinco coroas, de prata mestiça tratada pelo tempo e foi uma correria até à loja do Sr. Rufino, empurrando-se sobre o balcão e gritando “cinco c’roas de jogadores”.
O Sr. Rufino olhou os miúdos ansiosos e sobre os óculos repetiu o scanner da moeda e lá foi questionando “quem vos deu isto” com a resposta uníssona “achamos”.
Os olhitos esbugalhados miraram a lata cúbica dos caramelos, enquanto o Sr. Rufino os espalhava no balcão e aos pares os contava em voz alta “dois, quatro, seis… vinte e cinco”, eram a tostão cada. Limpando os dedos na bata acizentada o Sr. Rufino lá exclamou “pronto”. Foi um ver se te avias até desembrulhar aqueles papelinhos que cobriam pequenos bocados caramelizados, com fotografias dos ídolos do futebol devidamente fardados, com pose de mãos atrás das costas.
De repente alguém gritou “senha”. Avidamente olharam o cartão dependurado na estante amarelada e alguém se adiantou “uma bola”.
De um vermelho vivo, em plástico ligeiramente resistente, atestadinha de ar, a bola era grandota e a correria até ao largo foi um instante.
“Eu sou primeiro” , disseram alguns em simultâneo expressando a ânsia de a experimentar.
Em segundos as balizas estavam compostas e os pontapés alongados cruzavam-se repetidamente. A alegria da pequenada era contagiante e outros apareceram.
“Quem guarda a bola?” e o consenso em breve chegou.
“Amanhã vamos pró campinho”, alguém disse.
No dia seguinte na escola, a conversa principal no recreio era a bola.
À tarde, no “campinho”, juntou-se a pequenada. “È ao bota fora” , alguém sugeriu, perante tantas presenças.
O empenho era imenso e não se falava em amor à camisola. Já se evidenciavam uns melhorzitos e os mais tímidos encostavam à defesa, junto à baliza improvisada.
Ali a um canto arrumavam-se as sacolas, com o livro, a lousa e os “regrões”, testemunhos calmos de um entusiasmo por uma bola.
Tão simples …
Manuel Ferreira