Vagas de nortadas
como é da tradição
Anunciava-se vagas de calor para este Verão, houve instituições que, tecnicamente, se acautelaram para dar combate à canícula, afinal, como reza a tradição, não há Agosto em Fão sem nortadas. Fazem parte do bilhete postal, embora não se possam fotografar. Ainda bem, para não afugentar turistas.
Se tivermos em conta as intempéries que assolaram a Europa Central e as Américas, as elevadas temperaturas e fogos em países mediterrânicos, os ciclos de nortadas não passaram de refresco. A região está vocacionada para alternativas ao turismo de praia, seja o religioso, desportivo, gastronómico, histórico, paisagístico, ambiental, enfim, não faltam no Verde Minho programas para fortalecer o corpo e enriquecer o espírito, o que devia constituir generalizada preocupação, pois as férias dispõem de condições e tempo para a realização de projectos que a labuta quotidiana nem sempre permite.
Houve uma meia dúzia de dias óptimos para o bronze, não faltou na nossa terra muita gente, menos que em anos recentes, especialmente até ao período das Festas da Agonia, como vem sendo habitual. Férias, período de (re)encontros, dos emigrantes que regressam por semanas às raízes, trazendo os descendentes para que sintam a cultura dos seus ancestrais, de imigrantes espalhados pelos maiores centros empregadores do país, de fangueiros adoptivos que nunca se deixaram seduzir por outros locais de veraneio, cumprindo tradição familiar, nalguns casos de várias gerações.
Mas quão diferente é, agora, o Verão em Fão. Há algumas décadas, os veraneantes alugavam casa, traziam mobílias, tralhas diversas, familiares e criadas. A praia era mais elitista, todos os banhistas se conheciam, frequentavam os mesmos locais, primeiro o Clube Fãozense, os Amigos de Fão depois.
De jornadas gastronómicas a jogos, passeios, teatros, bailes, a filharada estava controlada, tudo parecia uma família alargada que anualmente se reunia.
Hoje, há mais dispersão e massificação. As vias rápidas aproximaram muito o Porto e Braga de Fão – as distâncias medem-se mais em tempo que em quilómetros - o automóvel e a praia democratizaram-se.
Muita gente que labora em cidades tem em Fão a primeira habitação, a pressão demográfica sobre o litoral acentua-se. O crédito barato facilitou a aquisição de habitação própria, pelo que a recente turbulência bancária traz apreensivos promotores imobiliários e fregueses.
As pessoas dispersam-se por centros de convívio sazonais, na praia, Praça, Pedra Alta, Canoagem ,nos bares e pubs abertos o ano todo, aos fins-de-semana, ou quando calha, ou apetece, a quem os gere.
A juventude sai de casa à hora em que pais e avós entravam, à uma e duas da madrugada, regressam manhã alta, não sei se a horas de apanhar o pequeno almoço. Quando as pessoas mais velhas se interrogam, respondem: “É o horário das discotecas”. Claro, se funcionam pela fresquinha, de madrugada e manhã, é porque há clientes. Semelhante forma de vida pouco terá a ver com tempo de descanso e de recuperação, a lua não bronzeia e, de noite, pardos são todos os gatos e fauna congénere.
Só os mais velhos se lembram da animação que os grupos de ingleses traziam nos tempos áureos do Ofir, bebiam alegremente no Frango Real e no Café do Peixoto, conviviam familiarmente com os indígenas que se expressavam como podiam e se faziam entender. Figuras respeitáveis andavam à roda de mão dada com inglesas e beijocavam nos tempos em que o biquini era apenas tolerado.
O Porto, o Verde e a cerveja eram muito baratos para quem trocava libras. Havia pinhal que cheirava a resina e a saúde, agora em vias de extinção - pela forma como se tratam os velhos, as árvores e os animais domésticos pode avaliar-se o grau de uma civilização – a praia era melhor, quem bebesse água do rio não ficava espintalgado como um perdigueiro. O turismo de qualidade procura paragens acolhedoras, com a melhor Natureza, o de massas a melhor relação oferta de serviços/preço.
Noutros tempos, contavam-se pelos dedos quem passeava entre a placa e Ofir. Havia quem olhasse esses maduros com certo espanto e interrogava-se sobre os benefícios de tal peregrinação. Hoje, é um formigueiro no alargado passeio, grupos das Pedreiras e do Ramalhão, todos numa cruzada contra o colesterol e diabetes.
A frequência da praia ou do café, a prática desportiva, o ensino, o telemóvel ou o computador, massificaram-se. Ainda bem. Na verdade, o vento, quando sopra, é para todos.
Faria de Morais
(Chico Cubelo)