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A minha infância mora aqui !

Naquele tempo…

Falar de Fão reporta-me, inevitavelmente, para o tempo do ‘naquele tempo’ de que os antigos (e até os menos antigos, mas que com eles conviveram) tanto falam. É o tempo do “torrãzinho sem igual”, do Fão de outrora.

6ª Feira, sempre sagrada. O fim do dia aproximava-se com a partida para Fão. A excitação era imensa e a viagem quase interminável. À medida que íamos chegando, a família reunia-se. Os da terra já nos esperavam – também para eles parecia ser um dia especial.
O “Tio Néné”, tão grande, tão imponente, tão doce no sorriso, fazia questão de ser dos primeiros a dar-nos as boas vindas e mostrar o quão feliz estava por nos reencontrar. «- Estás crescida!», dizia, todas as semanas, ao mesmo tempo que as suas mãos, fortes, seguras, poderosas, encontravam, sempre por três vezes consecutivas, uma (ou até as duas) das nossas bochechas. Recordo hoje com saudade essas “palmadinhas”, cuja intensidade era sempre proporcional à alegria de nos ver… e a alegria era sempre tanta!
Rapidamente, todos se organizavam, sem quaisquer conflitos ou guerras de sexo – homens para a mesa de jogo, mulheres para os sofás da sala de estar. Nós, “a canalha” (termo carinhoso com que a família sempre nos designou, às crianças), tínhamos também o nosso canto e os nossos vícios – as brincadeiras que acreditávamos serem só nossas! Mas a grande animação parecia vir sempre da zona dos adultos, com as gargalhadas contagiantes da Quinhas e da Lulu, sempre mais intensas a cada “nova acha” lançada pela “Tia” Palmira. Entre linhas e costuras falavam (sempre no tom exacto) das suas “saias velhinhas, todas rotinhas de andar a bailar”. Era eu menina e, fascinada, observava-as, já com tantas rugas, e imaginava-as num rodopio constante, marcado pelo ritmo tonal das suas próprias vozes – inigualáveis vozes! Acreditava até que agora pudessem ter “uma nova, feita na moda, para estrear”, mas tudo me fazia crer que nunca se iriam desfazer das suas saias rotinhas, aquelas que já lhes conheciam os passos e as acompanhavam sem entraves.

São assim, ainda hoje, as gentes de Fão…

No dia seguinte, logo pela manhã, lá aparecia o Júlio e a Carmina, com o pão fresco pela mão e o sorriso pela cara. Faziam tudo para que nada nos faltasse, como se tivessem à sua responsabilidade o fazerem-nos sentir em casa. Por vezes apareciam com toda a família, como que a reforçar o conforto.

São assim, ainda hoje, as gentes de Fão…

Por essa altura já a minha avó rondava há muito os tachos e as panelas para que, à hora marcada, tudo estivesse perfeito, fosse um piquenique no pinhal, fosse um simples almoço de família. E eram sempre tantos tachos! O meu avô, esse, tinha a seu cargo a escolha dos melões. «- Olhai, este até vai bufar!!!! Que categoria!!!». E eram sempre tão bons! A família rapidamente se multiplicava e, de repente, passávamos a ser muitos irmãos, muitos primos, muitos tios… E éramos sempre tantos à mesa!...

São assim, ainda hoje, as gentes de Fão…

Pela tarde, saltitávamos de casa em casa, sempre ansiosos pelo grande momento: a visita à casa da “Tia” Palmira, onde nos esperavam os coelhos, os pintainhos, as brincadeiras no quintal e as misteriosas idas ao sótão, com espreitadela obrigatória ao quarto da “Tia” Cândida, a mais antiga de todas e sempre a mais recatada. A alegria era imensa! Por mais crianças que fossemos, havia sempre coelhos e pintainhos para todos nós, que baptizávamos, alimentávamos e acarinhámos sem na altura sequer imaginar o seu fim (trágico, como viemos a constatar mais tarde…). E enquanto nós experimentávamos o sabor do ser-se livre, elas duplicavam-se nas suas tarefas de bordar, costurar e fazer clarinhas ao som das cantigas da terra.

São assim, ainda hoje, as gentes de Fão…

Estávamos no início da década de 80 e dizia então o meu avô, sempre atento àqueles que o rodeavam:

Vila de Fão boa gente
Sempre alegre e sorridente
E muito acolhedora
Haja sol ou tempestade
Quer de manhã ou de tarde
Rezam a Nossa Senhora

Trazem sempre na lembrança
A Senhora da Bonança
Que lhe acalma as suas dores
E pedem com devoção
Que Deus cubra de bênção
Os briosos pescadores

E lá do alto do monte
A mostrar o horizonte
Perfumado de alecrim
Aos Domingos Dias Santos
Imploram os seus prantos
Lá no Senhor do Bonfim

Uma gente muito unida
Que a todos dão guarida
Cumprimentam a sorrir
Só querem o que é seu
Esta gente já nasceu
Com o fim de bem servir

(…)

Cândido Sarapicos
(II de Fevereiro de 1982)

Se é suposto a nossa infância ser um lugar mágico, onde todos os sonhos se tornam realidade, a minha foi-o com certeza, quanto mais não seja aos fins-de-semana… Em Fão aprendi a crescer, aprendi a acreditar, aprendi a sorrir, aprendi a gargalhar e aprendi muitos dos valores que ainda hoje me sustentam.
O experimentar a bicicleta pela primeira vez; a aventura de poder andar sozinha na rua; as tarefas de responsabilidade como ir à Lai-Lai ou ao Carvalho comprar leite e manteiga; as tardes passadas no Cortinhal, um pequeno mundo à parte onde os dias pareciam não ter fim; as festas do Senhor de Fão e, com elas, a afirmação de que já éramos crescidos – tudo isto fez parte do meu processo de crescimento, absolutamente mágico, como o deveriam ser todas as infâncias.
Mais tarde, as novas descobertas – os primeiros amigos fora da escola, as primeiras idas ao cinema, as primeiras saídas à noite, as primeiras idas ao pão quente, as tardes passadas entre a Rita Fangueira e o Grupo dos Amigos de Fão, os primeiros enamoramentos, os primeiros desgostos e, claro, os primeiros confrontos com a família, tão próprios de qualquer adolescência…

Hoje os tempos são outros, necessariamente.

Já não nos sentamos em torno da lareira. Já não colocamos o xaile à volta dos ombros nem a manta pelos joelhos. E não aprendemos nunca a pedalar numa máquina de costura pois acreditávamos que elas – as que o faziam – iam ser eternas.
Hoje reunimo-nos à volta de um copo, muitas vezes à espera que ele nos faça soltar as gargalhadas tão reprimidas durante a semana. E ouvimos música aos gritos, é verdade, tantas vezes de má qualidade, apenas porque precisamos que ela fale mais alto do que os nossos próprios pensamentos, quase sempre ensurdecedores. Abraçamo-nos e atiramos os sapatos para o lado como que a dizer que, estejamos onde estivermos, quando estamos juntos estamos em casa!
Não somos melhores nem piores, simplesmente regemo-nos por novas regras na tentativa de procurar outras respostas aos mesmos ideais… porque, afinal, nós queremos mesmo ser eternos e eternamente jovens! E a nós não nos basta dizerem-nos que todas as pessoas são eternas, quanto mais não seja dentro de nós…. Nós queremos efectivamente sê-lo, a cada segundo!
Do lado de lá de Fão as nossas vidas vão rolando, com rumo ou sem ele, sempre sem qualquer possibilidade de retorno. Mas assim que atravessamos as portas da Vila e nos perguntam “Onde vais, mor?”, sabemos que não queremos ir para mais lado nenhum.
Os tempos são outros, necessariamente, mas o conceito de família e amizade mantém-se, inalterável, entre as gentes de Fão. A casa já não fica no mesmo sítio, mas todos sabemos onde é… A chave já não pode permanecer do lado de fora da fechadura, mas todos sabemos que a porta está sempre aberta…

Hoje tornou-se urgente ser-se feliz. Noutros tempos era-se, simplesmente. Em Fão, isso ainda vai sendo possível…


Marta Serapicos Antunes