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A força das palavras...

As palavras podem mudar sentidos, visões, pois trazem sensações, pensamentos, reflexões de todos os tipos…
Palavras bem entrelaçadas umas nas outras conferem às frases a essência que nos pode levar a compreender melhor o mundo, estabelecendo melhor a ligação entre o nosso pensar e a realidade.
Palavras que carregam sentimentos sejam de bem-estar ou de revolta.

É preciso sabermos sentir para sabermos escrever.
Quem lê é adepto de tentar compreender o mundo de todos, transcrito dos olhos de uns, a partir dos seus próprios olhos. Por isso, quando rascunhamos as nossas reflexões para o papel (ou até digitalmente), temos de consciencializarmo-nos de que existe a possibilidade de levarmos pela nossa identidade-escrita, energias positivas ou negativas, onde as mentes se podem moldar ou até iluminar-se com as novas ideias.
Escrever é a missão de transmitir o que cada um sente ao seu modo. Temos de encontrar um ponto de equilíbrio, que fica no chamado termo: senso-comum.
Daí que uma crónica seja das tarefas mais árduas de concretizar.
Mas por mais que não queira, já nestas palavras vai um pouco da minha opinião e da minha desguarnecida sabedoria.
No outro dia conversava no café com o escritor Rui Cacho e ele dizia-me que a crónica e o conto aparecem quase sempre coligados: Um carrega sempre um bocadinho do outro. Não que eu acredite que seja simbiose mas, em quase todos os contos há uma critica, uma opinião que por vezes até pode provocar alguma irascibilidade em quem discorda dela; e nas crónicas sempre se contam partes de histórias do nosso dia-a-dia (histórias de todos nós).

Uma das formas, já por muitos utilizada, para coordenar fragmentos das nossas histórias, é através da poesia. E, como não podia deixar de ser, esta belíssima terra, Fão, tem sido inevitavelmente alvo de incidência poética.
Já na sua essência, pela proximidade da Natureza às pessoas, desde as densas matas de pinheiros junto às consagradas Dunas de Fão até às longas filas de rochedos, Cavalos de Fão, que se definem entre o mar e a terra, esta Freguesia do norte tem sido e permanecerá a ser mais uma vibração poética de Portugal.
Um dos exemplos disso constata-se através do nosso escritor Eugénio de Andrade, que pelas dunas de Fão caminhou enquanto lhe despertava o cheiro maresia-poesia.
No ‘À Sombra da Memória’ escreveu: «Se alguém quiser procurar o Ernesto terá de o fazer nesta praia, ao longo deste mar. Procurem-no entre os juncos e os cardos das dunas. Aqui passou dias e dias ao sol, os olhos perdidos nas páginas frementes do Lawrence, do Gide, do Whitman, do Frazer, só os levantando de vez em quando para olhar a franja de espuma ou chamar a nossa atenção para uma linha, um verso. Procurem-no aqui, e se não o encontrarem não o busquem noutro sítio, porque se não estiver neste areal então é porque se fez orvalho ou poeira de longínqua estrela.» em “Com Ernesto, nas Dunas de Fão”.
Outros poetas levados pela substância poética que o Eugénio de Andrade transmitiu, acabaram por igualmente fazer referência a Fão nos seus poemas.
Jorge Sousa Braga escreveu o poema “Carta de Amor” em homenagem ao E. Andrade: «Um dia destes/ Vou-te matar/ Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)/ A medir o tesão das flores/ Ali no Jardim de S. Lázaro/ Um tiro de pistola e…/ Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto/ Podes invocar Safo Cavafy ou S. João da Cruz/ Todos os poetas celestiais/ Que ninguém te virá acudir/ Comprometidos definitivamente aos teus planos de eternidade/ Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão/ Um dia destes vou-te matar/ Uma certeira bala de pólen/ Mesmo sobre o coração».

Não me cabe a mim avaliar a qualidade poética inserida nos trabalhos dos que se inspiraram nesta pequenina terra, de gente humilde e de uma natureza incessantemente motivadora. Mas cabe-me, sim, dar a conhecer estas palavras dedicadas a Fão e, deste modo, agradecer o privilégio de ter sido convidada a ser cronista neste Jornal de uma terra pequena mas de uma enorme qualidade. Espero ter correspondido ao convite com aquela transparência de escrita, minimamente desejável.

Assim termino, agradecendo aos leitores.


Mafalda Chambel