Entre o passado e o futuro...
Quando gentilmente fui desafiado a escrever uma crónica para o Novo Fangueiro, de quem sou um fiel leitor, senti de imediato a angústia daqueles que têm pela frente uma folha de papel em branco exigindo ser escrita.
De que falar?
À partida seria lógico abordar o tema que domino, que me acompanha diariamente, me dá sustento e porquê negá-lo, me faz feliz, a arquitectura. E o quanto haveria para falar de arquitectura, numa vila que possui um inigualável património construído que vem já desde a Idade Média. Contudo a recente experiência pessoal de quem partiu e voltou a esta terra não me parece passível de ser esquecida.
Nasci há vinte e nove anos nesta vila, ainda na adolescência emigrei para Esposende, depois para o Porto, mais tarde a Póvoa e recentemente voltei a instalar-me em Fão. Estas mudanças fizeram-me perder o sentido de identidade, de pertença, que considero fundamental qualquer homem ter em relação a uma terra e que diariamente procuro, em cada esquina, cada edifício, fragmento de história, no simples gesto de um vizinho desconhecido ou no sorriso da senhora da mercearia.
Não sou, nem me sinto fangueiro. Há contudo qualquer coisa inexplicável que me faz gostar desta terra, que me fez voltar e que me obriga a fazer 100km diários. Não sei se o encanto das casas, a magia do mar ou simplesmente o carinho dos amigos.
Por formação ou defeito sempre vi os núcleos urbanos, aldeias, vilas ou cidades, como organismos vivos, que à semelhança de todos os outros, têm células, órgãos, artérias e sangue e se as casas são as células, os museus, cafés e hospitais os órgãos, as ruas artérias, as pessoas são o sangue que torna o organismo vivo, que lhe provém oxigénio e lhe dá alimento. É deste sangue, ou da falta dele que desejo falar nesta crónica, pois é dele que mais sinto falta em Fão, ou para ser mais preciso no centro histórico.
Escrevo estas palavras sentado à janela da minha sala orgulhosamente pintada de verde e dela só vejo persianas fechadas, casas centenárias em ruínas, ameaçando a qualquer momento dizer-nos adeus e ruas sem comércio nem palpitação, violentadas apenas por um ou outro carro mais apressado. O problema, é que não moro em Ofir ou nos Lírios, mas antes no centro da vila, na rua Azevedo Coutinho.
O pensamento pretensiosamente moderno que invadiu o mundo durante todo o séc. XX e concretamente Portugal no pós 25 de Abril transformou-nos em suburbanos, gente que foge de tudo aquilo que lhe lembra o passado. Um passado geralmente preenchido de escassez que desejamos esquecer ou no mínimo esconder debaixo do tapete, preferindo morar num qualquer apartamento periférico com vizinhos barulhentos, ao lado, em cima e em baixo, do que em aldeias ou vilas, hoje dotadas de todas as condições necessárias para nos proporcionar a ambicionada e merecida qualidade de vida.
Ainda assim rejubilamo-nos quando os turistas nos elogiam os locais pitorescos, nos insuflam o ego bairrista com afirmações de beleza. E que belas são as cantarias em Fão, que românticas são as ruas, que deslumbrante é o por do sol sobre a ponte.
A nacional relação com o passado e com os seus símbolos, é claramente o reflexo “novoriquista” de uma sociedade em vias de desenvolvimento que urge transformar. As casas antigas com as suas cantarias e janelinhas, as canções e histórias que sempre ouvimos contar, os trajes, a gastronomia, pelo facto de serem património, não devem, nem podem, ser entendidos como coisas bonitas de se ver e pronto. Não podem, nem devem, ser tornados museus de arte antiga que visitamos apenas ao Domingo para regalar a vista e esquecer o quotidiano semanal. Têm que ser conservadas, estudadas, mas sobretudo vividas, porque sem vida, sem sangue, sem pessoas, tristezas e alegrias, gestos bonitos e feios, tendem a padecer do que mais trágico há na vida, morrer de morte lenta, que é a mais agoniante das formas de deixar este mundo.
O centro de Fão pode necessitar de muitas coisas, obras, equipamentos, acontecimentos, mas tudo isso é e será em vão se as pessoas não existirem.
Por isso vos escrevo de coração apertado. É fundamental voltar ao centro, voltar de armas e bagagens, encher as casas e as ruas de vida, de crianças as brincar, de discussões e sorrisos, pois só assim, uma comunidade pode encarar o futuro com esperança no olhar.
Pedro Ferreira