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Largo do cortinhal

Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens.


As águas marulham junto ao casario sob um ligeiro vento que perturba o dia em cinza.
O largo do Cortinhal escureceu e no seu espelho desliza agora à vara o canote, encostando a cada casa a oferecer ajuda.
Era a cheia, que o rio solto depois das chuvas copiosas e sem as barragens de agora, esfolava as margens e se esbarrava na maré , invadindo sorrateiro as ruas e largos de Fão.
Primeiro era o Bom Jesus em zona baixa a alagar e a estender a invasão…
Nas ruas os mais pequenos de calça arregaçada desafiavam a maré que crescia e saltavam até aonde havia pé.
Notava-se o alvoroço da criançada que media aqui e ali o avanço da cheia.
Na imagem de meados do século passado o barqueiro de improviso empurra lentamente a vara, enquanto na janela alta a Rosa das Voltas aprecia o quadro invasor. Ao lado a casa da Ana Fiscala…ao lado o robusto palacete.
Era a ajuda mais fácil em terra de pescadores onde o barco de fundo de prato apontava de porta em porta e corria lentamente apalpando a calçada submersa.



Hoje as marés longas, as tais de outrora já são raras e muito dificilmente se espraiam nas ruas de Fão. As barragens controlam os caudais…raramente descontrolam.
O Largo do Cortinhal tem um arvoredo alto, num chão bem desenhado onde o chafariz de granito e arredondado dá vida.
A vida esfrega-se lá no recanto e os bancos enchem-se de movimento em tardes solarengas.
Voltado ao rio e à paisagem, separa-se do casario requalificado por uma rua elegante limitada pelo lajedo mantido pelo tempo.
Lá ao fundo já foi o Café do Rio, em tempos, recentemente foi bar, hoje é um snack com refeições leves …
Os carros sossegam e por entre os passeios largos outros circulam intervalando com a acalmia dos dias mais escuros. Em dias de inverno nem o barqueiro passa.
E já não vemos pessoas às janelas …