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Pedra alta

Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens.


A beira rio…! As águas limpinhas do rio Cávado encostavam-se aos muros e os cais espalhavam-se de sul a norte e era frequente ver as lavadeiras com barrelas de roupa que enxaguavam entre cantares e muita conversa mundana. O cheirinho a Clarim espalhava-se no ar e a espuma descia o rio ao sabor das correntes.
O rio andava fundo nas marés baixas e os muros pareciam mais altos.
O barco cinza do Vilela preso na mó e o do Carlinhos Figueiredo, de cavername desenhado e pintura cuidada, eram peças de um cenário onde as paredes de xisto corriam de lés a lés . Os barcos andavam à vara ou com remos…
As marés vivas embrulhavam-se com as nortadas contra os muros e nas escadinhas do cais do Cortinhal os miúdos atiravam os “barquinhos” que ondulavam favorecidos pelas correntes.
A Pedra Alta ia crescendo de entulhos e o torrão era ponto de passagem irregular até ao cais do Xita. Para um lado e outro eram o cais do Campos, os cais do Cortinhal e o cais do Borda…
Com as marés mortas e de garfo na mão os mais pequenos apanhavam as solhas que se escondiam entre pés nas areias claras e os eirões que se escondiam nas talocas.
Com uma linha e um anzol enxovalhado em pão com azeite pescavam-se os peixinhos que luziam de prata nos seus movimentos repetidos.
Dizem que em noites de calmaria as escadinhas do Cortinhal, que se alongavam até ao rio, eram poiso para cantorias e desgarradas com o choro das guitarras e os ritmos compassados dos violões.
O Cortinhal escondia-se por trás de um muro de construção granítica que servia de coradoiro e abrigado das nortadas, o “cantinho” escutava as conversas da má língua. O rio sentia nas paredes de lousa a barreira escura e fria…


Tempos de agora onde o rio encosta à Marginal, rectilínea e aprumada, de piso em granito desenhado e serrado com candeeiros modernos e bancos voltados para a paisagem dos montes. Secundários, os cais sobram para o rio e as pequenas lanchas em fibra povoam as águas.
No sapal e em plena maré basante, dezenas e dezenas de patos entremeiam-se com gaivotas, maçaricos, garças e mergulhões e o paul cresce com o juncal.
O monumento piramidal sobressai e o jardim do Cortinhal, com piso desenhado e o chafariz granítico caminha até ao rio em paredes monolíticas de sebes aparadas .
As palmeiras ladeiam o norte e o cantinho da má língua preserva ainda o passado.
A Marginal do Minguinhos avança uns bons metros sobre o rio e os passeios à beira rio são um encanto até à Pousada.
Os tempos trouxeram asseio e a beira rio é hoje um palco contínuo para apreciar a natureza e fazer as caminhadas.