Rua da Igreja
| Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens. |
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Em qualquer localidade do Norte não havia rua tão percorrida como a sua rua da Igreja. Logo desde a nascença eram os baptizados concorridos de criançada à espera do lançamento dos confeitos coloridos, no tudo ao monte na apanha daquelas “preciosidades” à mistura com a areia entre a calceta tradicional. Lá em cima os sinos repicavam alegremente pela nova adesão. A rua da Igreja canalizava obrigatoriamente para as missas domingueiras e os mais novos ficavam à espera de saber se de tarde haveria catequese. Mas a rua da Igreja acolhia também os casais que iniciavam um novo e longo percurso familiar, enchendo-se de alguns carros com táxis à mistura, fatos novos, muita vaidade e alegria. À porta do monumento juntavam-se as mulheres com os embrulhos de arroz que despejavam sobre os noivos à saída, com muito riso e movimentação, enquanto nos beirais dos telhados vizinhos os pardais esperavam o início do repasto. Também as procissões religiosas e as festas litúrgicas encanavam por ali muita gente. A rua da Igreja era o centro da vida da comunidade e o princípio do fim do caminho de cada um, que dali partia rumo ao sul, acompanhado dos familiares enlutados e dos amigos tristes. Ontem a rua da Igreja enchia-se de prédios antigos, alguns abrasileirados e da rua Direita se avistava ao fundo a torre sobranceira da nossa Matriz, enquanto por ali ao meio, já em passado mais recente se sentia o bulício da tasca do Lino d’Areia. Por ali escorriam os movimentos de gente e de veículos,poucos, vindos da estrada nacional e do lado da Cantina. No princípio da rua quem vem de Nascente, os largos portões em muros altos escondiam à esquerda até à Viela os velhos espaços das Turras, ali ao lado do casarão setecentista. Os tempos pouco mudaram para além da pacatez que assola o velho centro urbano fangueiro e os carros novos enfileiram rua fora. A rua da Igreja que se chama rua Prior Gonçalo Viana ainda canaliza as nossas gentes até ao velho mas renovado edifício da Matriz. Mas leva muito menos água, não por falta de crentes que o Padre Rocha bem acarinha, mas por mudança das centralidades que passaram para Poente. Menos nascituros trazem menos baptizados e os sinos alegres já não juntam a pequenada à espera dos confeitos, que já desapareceram das confeitarias, agora mais conhecidas por pastelarias. As pessoas também juntam-se agora no Bom Jesus no dia da partida e os casais jovens fazem opções diferentes até ao dia do remorso. Mas ainda há dias alegres naquela rua e não há centímetro de lugar para tanto carro quando os noivos ali prometem mundos e fundos para o seu futuro,com muita alegria bizarra. O casario antigo está bem conservado e ainda é das ruas históricas com mais residentes. O comércio não reduziu, com pastelaria e café, a Fangueirinha, nos baixos da casa da Almerindinha,depois um minimercado, uma cabeleireira e um armazém de alguns víveres. Os velhos muros e portões das Turras logo no início, deram lugar a um prédio incaracterístico onde funcionou em tempos o banco e hoje o seu aspecto não reforça a qualidade da rua. No extremo poente e ladeando o largo da Igreja,a residência paroquial, construída de novo e as outras habitações renovadas, são um exemplo positivo e arejado de revitalização urbana na Vila. Também hoje, em dia de procissão do Bom Jesus que se repete normalmente de quatro em quatro anos, a rua da Igreja mostra vitalidade e os seus residentes e os jovens a eles ligados empenham-se em exibir a sua criatividade e amor ao sítio.Ainda é uma rua de passagem. |
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