Tapete de flores
| Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens. |
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A mobilização dos fangueiros para o arranjo dos belos e longos tapetes de flores que embelezam as ruas em dia de saída do andor com a veneranda imagem do Senhor Bom Jesus, sempre teve larga tradição local. Ainda hoje se conserva essa dinâmica e garante argumentos elogiosos à capacidade anímica das gentes locais, pelo envolvimento geracional, pelo esforço e pelo magnífico resultado. Quem se lembra diz que os campos de outrora se cobriam de flores selvagens e os cestos enchiam-se de cores alegres, misturados com cantigas, alguma folia e sorrisos abertos. Pelos lados de S. António os grupos faziam a recolha dos amarelos e dos roxos vivos, enquanto pelos quintais se pediam rosas e esfolhavam as japoneiras que completariam os desenhos arquitectados e guardados em matrizes de madeira, zelosamente conservadas. As ruas ligeiramente sombrias do casco urbano antigo enchiam-se de gente, e das janelas espreitavam-se os extensos quadros coloridos com enfeites de flores e espadanas traçadas . No chão os cestos em vime acompanhavam o andamento e as crianças sorriam em interessantes correrias. Os líderes comandavam nas suas ruas, aligeiravam os constrangimentos, acertavam e garantiam o ritmo. As pessoas participavam em magotes e pela rua direita, pela rua da Igreja e sequentes, a movimentação deixava as casas vazias. O alinhamento em serrim húmido embebido em anilinas adiantava o percurso e as gentes entoavam animadamente as estrofes de tantos ensaios. O centro urbano vivia pujante de gentes e animação com os seus recantos e encantos de cor e frenesim, como mostra a imagem tirada no ano de 1950, no cruzamento da Casa Penetra. Os tempos passaram e repetiram-se de quatro em quatro anos, como exige a tradição mais próxima, pois em tempos idos a imagem só vinha à rua em circunstâncias muito especiais. Os campos regorgitam ainda flores amarelas e roxas e recolhem-se em bacias ou sacos de plástico que se enchem e encostam nas malas dos carros. Correm-se algumas freguesias, bate-se às portas a pedir solidariedade em pétalas. Reforça-se o contingente e procuram-se artistas de rua. As mulheres são em maior número e pressente-se a desertificação do centro. Pedem-se reforços para algumas zonas da rua direita. Os jovens aderem e sentam-se no chão e estendem as pétalas pacientemente enquanto escutam o mp3. Pulverizam-se os trabalhos feitos contrariando o vento incisivo. Nas periferias trabalha-se afanosamente e os magotes alinham-se em percursos elásticos. Acertam-se as matrizes e o entusiasmo contagia. Nas encruzilhadas florescem quadros policromáticos soberbos. Nas pedras da Tia Leinora esvoaça uma vela náutica. Em todos os recantos sobra entusiasmo e empenho. No velho centro urbano remata-se ainda o painel ajardinado em ritmo lento,já sem as correrias e os gritos das crianças. |
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