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Compasso Pascal

Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens.

 

Já lá vão os tempos em que os preparos da festividade pascal eram vividos com intensidade no seio da família. Era uma azáfama marcante que precedia a visita da “Cruz”, preparando-se com esmero as cores da casa, de paredes pintadas e móveis envernizados, a rua limpa e pronta para a passagem do compasso, com os verdes recolhidos e espalhados nos momentos antecedentes junto à porta, não fosse alguém pisar o “tapete” preparado para o Senhor.
Nesse dia o banho era obrigatório e as roupas estreadas e exibidas em ligeiras correrias de criança. Os adultos semeavam algum nervosismo pelos cheiros a naftalina por entre o aroma a lavado em bacia de água aquecida em panela ao lume.
Os padrinhos mostravam sorrisos aos afilhados e uma moedita ou um saquinho de amêndoas de cores diversas eram empurrados para o bolso.
Logo cedo uns foguetes anunciavam a saída da Cruz da matriz e os sinos apadrinhavam o início da visita pascal com o padre em batina completa a afinar os sapatos de boa sola para a extensa caminhada. Do seu séquito faziam parte os homens bons generosamente encostados às festas religiosas e o miúdo da sineta, trajado com opa, ia avisando as gentes que espreitavam nas portas de que a Cruz estava perto.
O Prior ou o Padre convidado aceleravam o passo e cumprimentavam à entrada de cada casa o chefe de família, conversavam ligeiramente depois de uma breve estrofe pascal, enquanto a Cruz cheirosa rodava pelas bocas ondulantes do agregado. Afagado o envelope ou o pecúlio do prato que ia enchendo a saca ligeiramente esganada, a rotina corria de porta em porta, com os amigos e familiares a repetir-se de casa em casa.
A sineta ia marcando o percurso, acolitada pelo estoirar de um ou outro foguete e o fim de dia, longo e extenuante, terminava com o recolher da cruz na matriz, largamente envolvida pela fé das nossas gentes.
A velha imagem de ontem recorda a Cruz na rua Capitão Larcher, irreconhecível, com o Padre Avelino a liderar o grupo.

Bem… hoje as batinas mudaram e também as mulheres são parte da solução. Enquanto os padres escasseiam e se repartem pelas várias paróquias à sua guarda, a visita pascal é preparada de forma cirúrgica com vários grupos a correr as casas que ainda abrem a porta à Cruz, a escassear de ano para ano.
Numa tarde de 4 horas as ruas de Fão recebem os vários compassos “civis” que persistem em preservar a “visita”, prospectando as portas interessadas e repetindo “Aleluia, Cristo Ressuscitou”, com intensidade decrescente.
Curiosamente os jovens participam hoje de forma activa nos compassos, insensíveis à caminhada e nas portas abertas que encontram já só vão escutando a fé conservada na tradição e hábitos das faces enrugadas que os olham e ainda beijam a cruz engalanada e bem cheirosa .
As casas celebram festa com boa mesa e a Internet juvenil funciona indiferente ao acontecimento religioso, como qualquer outro dia de consulta no youtube ou de conversa no MSN.
Para os mais jovens a alegria de Páscoa tem a ver com as ansiadas férias escolares e umas compritas nos shopings, não esquecendo aquelas coisinhas doces em chocolate finíssimo, gulosamente mascadas no aconchego do sofá.
Lá fora os compassos rolam sem batinas, mas com vestes formais e a cruz vai resplandecente. Ah, a sineta também toca, mas já poucas portas se abrem.