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Largo do Fontes

Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens.
O Largo do Fontes esconde o tempo e aquela sensação tranquila de solidão entre muros, onde o vento norte encana ligeirinho pela cangosta escurecida e a sul se some pelos laterais.
O velho Largo, onde as brincadeiras da pequenada tinham início em valentes correrias de bola de trapo ou de plástico saída em furo de cartão, assistia benevolente á passagem das vendedeiras vindas da praça e era um ver de gente que se encostava ao balcão da padaria, onde o cheirinho a pão quente aquecia a alma.
A pequenada encontrou uma “coroa” no chão emborralhado e abasteceu-se depressa de um quarto de sêmea do Sr. Fontes, ali na esquina, de portadas azuis, onde a D.Arminda, de bata branca, esboçava um sorriso reconfortante e assistia à partilha solidária.
Lançando um olhar sobre o largo, o sapateiro Luciano batia em pancadas certeiras as meias solas, enquanto as sombras giravam pelos recantos. Ao fundo, o recuado do prédio confundia-se com as suas janelas de um traçado largo e característico e os telhados emergiam em escalonamento diferenciado.
O casario antigo encostava-se ás traseiras da capela da Senhora de Fátima, onde o pequeno sino pendia silencioso e ilustrava a arquitectura ancestral dos recantos solarengos, em contrastes de luz.


O velho Largo do Fontes refrescou-se e hoje veste-se de um piso organizado e elegante, de tracejados graníticos a exibir a intervenção urbanística recente, bem desenhada. A árvore a norte esconde uma fachada desqualificada e os prédios laterais modernizaram-se a poente, mantendo-se a riqueza de arquitectura dos velhos edifícios sobranceiros à capela.
A padaria desapareceu há dezenas de anos e não mais se sentiu o cheirinho do pão cozido a lenha e o velho “Sano” vive já em recordações de alguns. O edifício vizinho à cangosta refez-se, mantendo alguns dos seus elementos característicos e os ocres contrastam com os brancos clássicos. Um fontenário metálico de um verde velho, aligeira a sul a força de alguma modernidade, enquanto os automóveis vão ocupando espaços num Largo sem obstáculos.
O Largo do Fontes exibe-se hoje com fato completo e não tem nada a ver com o nosso alfaiate, que ali vive junto à mais estreita cangostinha de Fão, velha viela. Aquele largo contrasta com outros vizinhos, de casario infelizmente degradado. Ali cheira a contraste de edifícios antigos e outros recentes, mas todos compostinhos e pintados.
Ali se passa em passo largo e a remirar sempre a envolvente, mas já sem aquele cheirinho a pão, é verdade, que distancia pelos sentidos o Ontem e o Hoje.