Fechar

Ponte de Fão

Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens.
A velha ponte de ferro com nome de filho de rei , mereceu honras de raínha rejuvenescida e desejada e muitas linhas se escreveram já no seu percurso recente.
Com os seus 7 pegões bem alinhados, de águas profundas circundantes, a sua afirmação tem já mais de um século.
Longe vão os tempos dos grupos de crianças enfeitiçadas pela curiosidade do fundo, da apanha dos eirões que se enterravam nos torrões, dos mergulhos que testavam a resistência pulmonar em jeito de desafio, da linha e do anzol com pão azeitado, do garfo de ferro que ajudava à apanha da solha junto ao pé.
No torrão mais alto estudavam-se os mergulhos artísticos dos mais experientes e no sítio mais baixo os aprendizes esboçavam umas braçadas sorridentes e triunfantes mostrando que até já sabiam nadar debaixo de água, enquanto esfregavam os olhos de forma apressada e desenhavam uns passos desalinhados quase em desiquilibrio.
Os sorrisos, os troféus morais, os chamamentos em voz estridente das mães que lavavam no cais, a correria pelo areal e alguns cortes nos pés por entre pedras e vidros já ao chegar ao paúl.
Do lado de Gandra a paisagem encanta-se com o perfil irregular dos telhados fangueiros e o grande Hospital , o cano da fábrica de serração, a torre da Igreja, a Misericórdia, o palacete do Cortinhal e todo o casario sobranceiro à beira rio e a espelhar-se no Cávado límpido.


As areias foram-se encostando ao centro e as ervas reforçaram a sua consistência e a ilha ganhou figura e direito de permanência. Por ali poisam em bandos as gaivotas e algumas aves sazonais.
As águas perderam o seu encanto e os fundos já não se avistam.
Motas de água recortam o leito do rio e algumas canoas deslizam indiferentes à ligeira ondulação.
Já não se vêm as lavadeiras e o verde do paul deixou vez à pedra organizada entre o cimento onde a água bate e tudo parece mais linear.
A ponte revitalizada enche-se de carros e motociclos e por vezes os autocarros atravessam o seu percurso alcatroado. Os candeeiros renovados iluminam mais alto e à noite percebe-se outro colorido reluzente.
O turismo radical espalha-se pelas margens e alguns barcos de recreio sobem o leito com as correntes da enchente. As antenas domésticas e de serviços recortam o perfil dos prédios e o traçado mantém o seu desenho conservador. Longe já vai o tempo da exclusividade do branco no casario e os revestimentos em cerâmica recortam as cores da paisagem urbana. A água do Cávado já não tem aquele encanto e as crianças têm outros sonhos…