Fechar

Largo da Praça

Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens.
Muitos se lembram ainda da velha praça, tradicional … no Largo da Praça.
“Abria” muito cedo e as mulheres levantavam-se com as galinhas para não perder os legumes frescos das lavradeiras, algumas vindas das freguesias vizinhas, o peixe chegado do mar e as notícias fofoqueiras que lhes arrebitavam o espírito e actualizavam o reportório, facilitando-lhes o entabular de conversa em qualquer recanto onde encontrassem interessada para o segredo calhado no seu regresso a casa. Ali sabia-se tudo e também se cozinhavam enredos.
As mulheres da praça traziam e levavam e em breve a casa ficava abundante de notícias frescas. De resto espreitavam em cestos as batatas, os “miolos” das ditas em tempos de sementeira, delapidadas dos “grelos” que já tinham ganho assento nos campos bem estrumados, biológicos. Bem serviam para 1º consumo e à noite, adjacente ao bacalhauzinho ou a qualquer outro peixe, aqueciam o estômago de muito boa gente.
A Praça tinha de tudo e da aldeia vinham as frutas meias esverdeadas com as folhinhas agarradas para comprovar a origem. As primeiras ameixas, os pêssegos e cerejas da aldeia ali chegavam e os carrinhos de mão descarregavam o que a terra dava.
Curiosas eram as balanças de pratos em cobre com os pesos carcomidos pela perícia e que permitiam aquele gesto simpático de adicionar mais um punhado grátis em cima da mercadoria mal pesada.
O quadro pitoresco da manhã na praça, naquele ambiente meio bucólico de princípio de dia de um mercado simples, onde até a vendedeira dos tremoços e azeitonas tinha a sua freguesia, merecia bem o pincel de Malhoa…
Legumes frescos colhidos bem cedo nos quintais de Fonte Boa e de Apúlia criaram longa tradição e até a Poveira com o seu peixe iniciava por vezes ali a sua venda, onde rivalizava com a sardinha dos sardinheiros de Cristelo, que ali paravam nas suas motorizadas com caixa atrás e a corneta barulhenta. No chão, de patas amarradas os frangos “pedrezes” assistiam ao movimento.
No regresso, as vendedeiras despiam-se de algum dinheiro do seu ganho e adicionavam ao carrinho, passando pelo talho ali pertinho e pela loja da Lai-lai. Assemelhavam às trocas medievais e o comércio lá ia vivendo.
Da meninice o Largo tem memória das brincadeiras de bola feita, do desafio dos troncos das árvores e dos jogos populares da moda. Correrias, escondidas, a macaca riscada no chão duro, o pião e o botão.
Na foto de Ontem cedida gentilmente pelo seu autor Artur Costa, sente-se o bulício normal da nossa antiga praça, caras ainda reconhecidas, o frenesim das conversas por entre troncos envelhecidos.

Hoje o largo da Praça, que é dado também por largo Conde Agrolongo, revestiu-se de árvores ainda muito jovens, com vários carros a atestar a modernidade, cabine telefónica de imagem londrina e o empedrado com desníveis a facilitar esplanadas.
O lugar de venda já mudou há anos para os lados do Bom Jesus e a área mais próxima está taciturna com pouco comércio. Vale a esplanada de Verão e algumas noites de fado em tempos de festa.
Os Correios vão reforçando a aliança com o tempo e o casario envolvente ainda mantém a arquitectura de um passado recente, com rara excepção.
O arranjo urbanístico de há anos traçou-lhe nova configuração e até ficaria bem como local adequado a uma feira de velharias em Domingo a combinar.
O pequeno bar sazonal, que já foi sede de junta e os seus torreões laterais, emprestam graça ao largo, a que se juntam memórias da Casa Reis.
Um largo a precisar da alegria de umas boas floreiras bem coloridas, protegidas do norte, onde as varandas, muros, muretes e aquele ambiente bucólico apetecível prevalecem.