Rua Direita
| Esta rubrica pretende mostrar o tempo. O ontem e o hoje e as diferenças que os separam… em imagens. |
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Quase podemos dizer que todas as terras têm a sua rua Direita, espinal na ligeira configuração urbana e principal na acomodação dos comércios e nas movimentações sociais. Se bem me lembro, sendo isto nostálgico, a Rua Direita, que agora se chama de Azevedo Coutinho, quase tinha em cada porta um comércio, que intervalavam com as casas mais abastadas, senhoriais até, que ainda hoje conferem a Fão um estatuto urbano que se diferencia das redondezas. Boas mercearias, a padaria logo ali, os barbeiros Custódio e o “Albarino”, os cafés públicos e a Pastelaria, o talho, o pronto a vestir, a loja de vinhos e petiscos com o seu ramo de loureiro onde se esgotavam os tonéis, o sapateiro, a drogaria . Por ali circulava o trânsito principal e a camioneta do Linhares encostava ao “Rufino” , onde pontifica ainda o letreiro do “Ramos Pinto”, e ali se descarregavam as mercadorias vindas da Póvoa. Alguns miúdos, em desafio, ainda se dependuravam nas escadas trazeiras do longo veículo e contavam a velocidade de arranque para depois logo se largarem, por vezes com as esfarrapadelas da ordem. Pela rua Direita passavam as procissões e os Desfiles etnográficos preenchiam os seus espaços já apinhados de visitantes e locais que se acomodavam para apreciar o espectáculo, sendo de realçar as muitas varandas visíveis no “ontem”. Mas lá vinham os Invernos rigorosos, de chuvas contínuas e grossas e o caudal do rio invadia quase silenciosamente as ruas baixas de Fão. O Bom Jesus era o 1º e as águas entravam até à Rua Dr. Moreira Pinto, pelo Largo Amândio Teixeira e na rua Direita navegavam os barcos tirados ao rio e os mais novos arrumavam os pés por entre as águas frias e escuras. O tempo passou 100 anos desde então (foto de 1906) e pelo meio novas cheias com os cenários repetidos. Hoje a rua mantém a mesma silhueta urbanística, felizmente preservada e com a mesma importância social, reduzida nas movimentações de comércio e com o trânsito a fazer-se num só sentido, sul-norte, pese a sua escassez. Das cheias ainda muita gente se lembra pois num passado recente o rio voltou à Rua Direita ou Azevedo Coutinho. A construção das barragens necessárias à produção de energia controlam agora os caudais e o rio mostra-se assoreado pela falta de correntes que moviam as areias, com alguma consequência na costa marítima. Dificilmente as cheias voltam e o cenário repetido do barco a substituir os carros só por algum distúrbio climatérico. Mas ontem como hoje, as coisas podem repetir-se. |
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