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JOSÉ DE SÁ PEREIRA

Estivemos à conversa com José de Sá Pereira, um homem que adora viajar, esteve emigrado no Brasil e França, sempre muito apegado à terra, acompanhando o presente, mas com o passado sempre muito perto.

Nascido às primeiras badaladas do ano de 1924 (1 de Janeiro), falou-nos em particular de 2 obras históricas em Fão: A construção do Salão Paroquial e as primeiras edificações na zona do Ofir, começando pelo Restaurante e mais tarde o Hotel e as vivendas.

O Salão, lembra-se nos princípios dos anos 30 ser um campo com uma eira e um dos muitos chalés que existiam na época, onde em garotos, saltavam para roubar barbas de milho, para fazer cigarros. Pertencia às irmãs “Sarinhas”, umas senhoras que vieram do Brasil e moravam no Largo Amândio Teixeira, que também era um campo, com uma casa senhorial. Mais tarde venderam o terreno ao senhor Amândio Teixeira, que por sua vez desfez os muros, dando passagem aos transeuntes e origem ao actual largo, espaço que cedeu à freguesia, um de vários actos como benfeitor que foi de Fão.
Estas senhoras entregaram o terreno ao Prior Nogueira, já com a finalidade deste fazer um Salão Paroquial.
Enquanto não se iniciaram as obras, o bom Prior ainda o emprestou ao Albino Torres, que lá colocou o 1º “charriot”, antes da construção da sua fábrica de madeira com o nome S. José. Mais tarde, com a fábrica operacional, o Albino Torres tratou toda a madeira para a obra do Salão, gratuitamente, madeira essa, que veio maioritariamente da quinta de um tio do Prior Nogueira.
Foi então lançada uma campanha junto da população, conhecida pela “Campanha da Telha”, em que se propunha a cada fangueiro a entrega de uma telha ou o seu valor em dinheiro (2$50 escudos).
Esta obra foi feita pelo povo e a D. Sara enviava a sua empregada D. Aninhas “Quitéria”, levar figos e pão a quem lá trabalhava.
Por estes motivos, esta obra foi um dos grandes feitos do Prior Nogueira e de todo o povo, numa época de grande bairrismo e orgulho de ser fangueiro.
Em 1936, deu-se a primeira grande intervenção na ponte de Fão, obra que foi entregue pelo então Ministro das Obras Públicas a António Sá Pereira, que entregou a parte de pedreiro aos Labristas de Góios. Nesta obra, foram mudadas várias chapas no tabuleiro e picado o pavimento, que na altura era em saibro e cascalho, pois só em 1956 recebeu alcatrão.

Com António Sá Pereira, que era seu tio e também seu sogro, trabalhou na construção do Restaurante de Ofir em 1945, bem como a primeira parte do Hotel, que funcionava mais abaixo, com a casa da Conchinha ao meio. Fizeram também a casa de Cupertino de Miranda, que mais tarde se transformou na Estalagem e depois Hotel do Pinhal. Por essa altura , foi assentar praça no regimento de Arca d’Água, no Porto, mas por sorteio, foi dispensado ao fim de 3 meses. Voltou para continuar com o seu tio empreiteiro, que não tinha “mãos a medir”, sobretudo na construção de dezenas de vivendas na zona de Ofir, agora muito procurada. Por outro lado, nesse mesmo ano de 45 também construíram a Estação Rádio Naval de Apúlia e começaram a construção das primeiras escolas públicas, pelo que correu o norte de lés a lés, na edificação de várias dezenas de edifícios para o ensino. Até se estabelecer por conta própria em 1950, ainda participou na construção do Hotel Suave-Mar, a estação de serviço “Sonap”, em Esposende e o Quartel Militar de Braga.
Como não tinha muito feitio para patrão, decidiu emigrar para o Brasil em 1955, onde trabalhou até 1962 no “Moinho Fluminense”, como encarregado da secção de pintura e onde encontrou outros fangueiros, como o Manuel e o Alexandre Belo, o David Sousa (pai do “Manelzinho”), o Alberto Furtado e o Abel Torres. Aí, foi com muitos outros ver o general Humberto Delgado no aeroporto “Galeão”, agora “Tom Jobim”, na sua visita àquele país.
Entretanto, já havia casado com sua prima Elvira Silva Pereira, em 1953, de quem enviuvou recentemente. Em 1963 foi para França, onde trabalhou em Lille até 1968, tendo aproveitado para conhecer não só a França como os países vizinhos, em particular a Bélgica, a poucos quilómetros daquela cidade francesa.
Já conheceu 10 países e gosta muito de viajar, estando a preparar-se para voltar ao Brasil, com seu filho José que vive no Canadá, onde também já foi várias vezes. Salienta as grandes facilidades e condições dos transportes públicos nestes países.
Ama muito a sua terra, mas sente que Fão não acompanhou os tempos, embora haja alguma qualidade de vida. “Ao longo dos anos senti a perda de bairrismo e identidade”.
Faz uma pequena pausa para atender o seu neto, que lhe telefona do Canadá, para que lhe consiga uma nova camisola da Selecção Nacional.
Recomeçando a conversa remata dizendo que “antigamente em Fão havia de tudo, apesar de ser uma terra pequena, hoje nota-se muita falta de iniciativa dos comerciantes, industriais e profissionais, por isso, quem vem de fora consegue os maiores sucessos”.
A nível institucional diz que se divulgam as coisas boas de Fão, para promover o concelho, mas quando surge algo de mau, é apenas reportado a Fão.
José de Sá Pereira é um homem sempre atento ao que se passa na sua terra, entusiasma-se com os grandes projectos mas logo esmorece de dúvidas em relação ao poder do lado de lá do rio.
Passa muito do seu tempo a passear os espaços bonitos de Fão, é observador e também interessado em dar a sua achega sempre que pode. É assim que se sente bem.

Na foto, com colegas de outros tempos (anos 40), em cima: Quim “Chiquita”, José Sá Pereira, e Chico “Pomba”. Em baixo: Raimundo “Serguilha”, Ilídio Mendanha e Adelino “Cantoneiro”.