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MANUEL DE JESUS ALVES LOPES

Manuel “Cavaca”, como é popularmente conhecido e ele próprio vincou, é actualmente o homem mais velho de Fão, contando o bonito número de 94 primaveras, nascido que foi a 19 de Outubro de 1912. Um homem simples, que apesar da idade, teima em não abrandar, desde as voltas que dá pela vila, ir ao café , ler os jornais e fazer uns trabalhinhos no seu quintal.

Pai carpinteiro nos antigos Estaleiros de Fão

Manuel Lopes- “ O meu pai Manuel Alves Lopes, era da família dos “Urbanos” das Pedreiras, filho do José Alves Lopes e Maria Ribeiro e a minha mãe Ana Jesus Machado era dos “Cavacas”, filha do Joaquim Machado e da Assunção Ferreira
As minhas tias não gostavam nada que lhes chamassem pelo apelido e a minha mãe brincava com isso e às vezes quando vinham lá a casa perguntar pelo meu pai Joaquim “Cavaca”, ela mandava-os a casa das minhas tias, que os insultavam.”

Seu pai abraçou a carpintaria e trabalhou na construção naval nos Estaleiros de Fão, nos princípios do século XX, mas quando estes fecharam em 1928, emigrou para o Brasil, tendo vivido em Niteroi, onde também trabalhou na construção naval. Mais tarde voltou e foi para a Ribeira no Porto, onde também trabalhou na construção e reparação de iates e traineiras. Também, tal como ele, sempre gostou de amainar as terras e só deixou de o fazer 3 dias antes de morrer.

Retalhos da Infância

Manuel Lopes- ”De pequeno lembro-me, do meu exame da 4ª classe, que tivemos de fazer, eu e o Sérgio Mendanha, junto com malta de Esposende. Normalmente os exames eram lá, mas nesse ano foi em Fão e como só se faziam 10 de cada vez e cá éramos 12, nós passamos para o 2º dia. A rivalidade já era muito grande, mesmo entre miúdos e eles até nos picaram com alfinetes nesse dia, em que estavam em maioria. Desse exame, a que o Artur L. Costa, já fez referência no antigo ”Novo Fangueiro”, só eu e a Profa. Lamela estamos vivos. Por esses tempos eram professoras como a D. Helena Vieira, Ema, Palmira Vasco e Ida Eiras, mais tarde então é que vieram o Professor Pio Rodrigues e a esposa D. Zulmira Borda.
A catequese tive-a parte dela em Gandra e fizemos a 1ª Comunhão em Esposende, devido ao conflito em Fão, onde algumas pessoas não aceitaram o novo pároco, António Alves Nogueira, que nos leccionou na freguesia vizinha. De rapaz recordo-me quando o “Cachiço” foi assassinado e andarmos com a Guarda a vasculhar e escavar o pinhal na procura infrutífera do cadáver, que nunca chegou a aparecer, após várias semanas de buscas.
Houve ainda a morte do guarda na estrada da Bonança, com uma navalhada pelo bando do “Zé do Lírio”, na noite do Fogo, quando se dirigiam para o arraial da festa. O cabo Jerónimo Peixoto, também foi atacado, mas com alguma argúcia conseguiu escapar,identificá-los e mais tarde todos foram apanhados pelas forças da ordem e presos".


Os Naufrágios, o Tifo e a ida para Braga

Manuel Lopes
- ”Estive sempre muito ligado à igreja e fiz parte da JOC, no tempo desse grande pároco que tivemos em Fão – o sr. Prior Nogueira. Curiosa essa história quando desabou o 1º andar da casa do ”Mena” nas Pedreiras, aquando da morte de um seu “jornaleiro”, pois o senhor Prior estava lá para lhe dar a Extrema Unção e também foi dos que caiu por cima do curral das vacas e do estrume. A partir daí, sempre que era chamado a casa com um 1º andar, só entrava, quando saísse toda a gente, “não fosse o diabo tecê-las”.
Também me recordo de quando caiu na praia de Apúlia, perto onde se encontra a Colónia, um avião de guerra alemão e como o Neca “Folheteiro” trouxe de lá o seu transmissor.
Ainda sobre tragédias no mar, nunca me esquecerei dos naufrágios dos navios “Alagoas” (português) e o cargueiro “Audenberg” (alemão”). Este vinha carregado e muitos foram os que se aproveitaram para o “saque”. Eu ainda consegui tirar de lá umas moeditas. Muitos pescadores, fizeram várias viagens ao navio e escondiam as coisas nas dunas, mas quem mais lucrou foi uma mulher coxa de Fonte Boa, que enquanto eles voltavam ao navio, ia ao “fieiros” e levava para a sua carroça ,o que eles lá tinham depositado.
Outros quadros que detenho na minha memória, foi a grande razia que houve em Fão, provocada pela febre tifóide, matando muita gente de todas as idades. Uma cena terrível foi ver num funeral a esposa do “Mixarro”, no caixão e ele atrás com um filho morto ao colo.
Recordo-me… do antigo campo de futebol, num terreno mais tarde comprado pelo Fontes, tinha uma barraca onde fora a bilheteira e aí morreu o meu primo Eugénio, que lá se abrigava e deixou-se adormecer com o cigarro aceso. Foi todo queimadinho…coitado, uma morte horrível!
Também, algo que muito me impressionou foi o “Tio Manuel Pedras”, um homem que perdeu as mãos e a vista, quando lhe rebentou uma bomba no barco, em pleno mar e ele mesmo assim, ainda foi durante muitos anos à pesca.”

Mal acabei a escola, fui para Braga passar uns dias para casa da minha tia e madrinha Judite, que servia nessa cidade e me arranjou emprego como empregado de balcão, na antiga Rua da Ponte, actual Avenida da Liberdade. Estive lá vários anos e depois fui para outra loja em S. Vicente, com um novo patrão, precisamente no ano em que morreu o arcebispo D. Manuel Vieira de Matos. Aí, conheci aAlzira Dias da Mota, que fazia trabalhos na cozinha em casa do meu patrão, que também era seu tio e mais tarde enamorámo-nos.”

Estabelecimento por conta própria, casamento e viuvez precoce

Manuel Lopes
- ”11 anos depois de ter partido para Braga, voltei a Fão e com a experiência que adquiri resolvi estabelecer-me por conta própria, por volta de 1937. Tomei então conta da loja do Américo Pereira, na Rua Direita, actual Azevedo Coutinho.
Casei dois anos depois com a , que era de Soutelo (Vila Verde) e tivemos a loja durante 11 anos, mas nunca deixamos de cultivar o nosso quintal,já que os tempos eram de grande crise económica, pois estávamos em plena II Guerra Mundial e os anos que se seguiram também foram terríveis. Daí ainda conseguíamos tirar sustento para nós e ainda para vender para fora, principalmente batatas. Tivemos a loja durante 11 anos, mas as constantes multas e quezílias com os fiscais fizeram-me esmorecer e abandonar o negócio. Recordo uma cena que eu e o Leonardo Coelho, tivemos com um fiscal, que queria que lhe entregássemos as senhas de clientes nossos, no antigo grémio de Esposende. Ainda andamos envolvidos e ele acabou em cuecas, no fim da zaragata.
Naquele tempo vendia-se tudo avulso e em pequenas quantidades, 30 reis de arroz…10 reis de unto….não havia dinheiro e imperava o racionamento.
Mas, o pior foi a doença da minha Alzira, com tuberculose e meningite, que me fez gastar o que tinha e o que não tinha, pois a penicilina era uma novidade na medicina e cada injecção naquele tempo custava uma pequena fortuna, cerca de 1.000$00. A tuberculose era curável, mas a meningite, foi fatal, como concluiu a junta médica formada pelos Dr. Barrote, Dr.Pimenta e o outro de fora. Fiquei endividado, mas os meus irmãos António e Alfredo, salvaram-me dessa situação.
Fiquei com os meus 6 filhos (Alfredo, António, João, Manuel, Cândido e Maria Assunção) todos muito pequenos e quem me valeu então foi novamente a minha madrinha Judite, que já vivia connosco e foi a segunda mãe deles. Uma grande mulher, que tive a felicidade de estar sempre comigo.”


No Ofir com Sousa Martins e braço direito do “Pieira”

Manuel Lopes
- ”Acompanhei os primeiros passos do Hotel Ofir, ainda como Restaurante e Estalagem eu fazia de tudo um pouco, mas no verão era zelador pela praia, fazendo trabalho de banheiro e limpeza, do espaço envolvente.
O senhor Sousa Martins e a esposa D. Helena, eram bons patrões. Apenas me lembro uma vez, em que ela estava na sua barraca, que era logo a primeira de me chamar à atenção por uns jovens de Fão estarem a brincar no escorregão, entre os quais estava o Padre Borda, mas depois chamou-me e deu-me uma gratificação. -Para os teus pequenos, dizia ela.
No Inverno ainda fazia trabalhos de manutenção e acompanhava o condutor da camioneta, no serviço de compras e transportes.
Certa vez vinhamos do Porto, eu e o condutor Vinhas de Gandra, um homem para ajudar a carregar e um gato, na camioneta, com os vidros para as vidraças do restaurante. Ao virar para a praia, no local onde agora está o banco, a camioneta guindou para o campo do Rufino e precipitamo-nos com toda a mercadoria. Apesar de ser ainda uma altura razoável, por incrível que pareça, ninguém se feriu, a camioneta apenas empenou um eixo e os vidros não se partiram. Foi no dia de S. José, 19 de Março, nos princípios de 50 e apenas desapareceram 3 garrafas, que devem ter sido “desviadas” por algum curioso.
Depois da saída de Sousa Martins, também deixei o Ofir e encontrando um dia o António Vilar ”Pieira” numa rua de Esposende, pedi-lhe emprego. Prontamente me admitiu como seu “apontador”, para registar todos os seus trabalhos, pessoal, materiais, etc, etc…
Tornei-me o seu homem de confiança, pois tratava de toda a parte administrativa, desde contas, depósitos, salários, licenças e compras. O meu primeiro ordenado foram 12$50 escudos por dia.”


Em Fão os pobres foram sempre mais generosos

O senhor Manuel, apesar de ter uma grande família para cuidar (6 filhos), ainda teve algum tempo para dedicar à comunidade e fez parte da Confraria do Bom Jesus, Comissão de Festas e direcção do CF de Fão.
Lembra-se particularmente de quando conseguiram a primeira iluminação para a Alameda do Bom Jesus e de quando a Confraria realizou as Festas do Bom Jesus.

Manuel Lopes- “O tapete de pétalas era na altura feito pelo Antonino Borda e lembro-me de ir com o Joaquim Soares, apanhar “chorões” perto da nossa praia.
No peditório para a iluminação da alameda, cada família pobre deu 26$00, entregando 5 tostões por semana, enquanto os ricos davam tudo de uma vez, mas só 10$00, ou seja os pobres acabavam por contribuir com mais do dobro. As grandes obras, deveram-se muito mais aos pobres e foi assim nas festas e na própria obra do salão paroquial, em que alguns fidalgos não deram nada.
Também fiz parte da direcção do CF de Fão, quando era presidida pelo , até os meus pequenos trabalharam a carregar tijolos, quando construímos a bilheteira e aumentámos a altura do muro.
Mas com quem mais colaborei foi com o Prior Nogueira, que era um verdadeiro líder, um sacerdote exemplar e grande homem.
Ah…Um dia, com o compasso na Páscoa, andava aí uma equipa de filmagens e lá apareci uns segundos no filme “Madragoa”.


Não parar, o segredo do homem mais velho de Fão

O Manuel “Cavaca”, com os seus 94 anos, mantém uma invejável actividade, quer percorrendo as ruas de Fão a pé, desde o café do seu filho Manuel, onde lê os jornais diários, vai á missa, visita as obras da ponte, percorrendo diariamente umas boas centenas de metros.
Entretanto, vai-se entretendo no seu quintal a cultivar alguma coisa, abrir um carreiro, podar, fazer algum arranjo na pequena oficina…E não gosta de estar muito tempo sentado. Parar é morrer, é o seu lema e talvez o segredo da sua longevidade.
Confessa que gosta de ver futebol na televisão, mas não tem qualquer paixão clubista, apenas gosta de seguir a carreira do CF Fão, tendo uns apontamentos onde tem todos os resultados e classificação semanal da equipa.
Mas outros apontamentos bem importantes guarda consigo e consegue desenvolver, como a enumeração das antigas lojas de Fão, os carteiros, os sapateiros, os alfaiates, figuras proeminentes e acontecimentos de relevo. Questionado sobre os últimos tempos na vila, faz alguns reparos…
Manuel Lopes- “Na marginal, penso que não se rentabilizou bem o trabalho feito, pois com aquele trabalho de ladrilho na pedra, perdeu-se muito tempo e material, que talvez desse para que a obra avançasse um pouco mais. Acho importante e ficará muito bonita quando se concluir até ao Caldeirão.
A obra da ponte que tenho acompanhado, verifiquei que o reforço do arco, foi muito bem feito, pois a estrutura estava toda quebrada e a desmoronar-se. A ponte em si, é praticamente nova, pela grande quantidade de ferro que vai levar, mas acho que vai ficar boa.
O Centro de Saúde, está logo aqui ao pé de casa e é um bom equipamento, mas ou me engano muito, ou vai ter problemas de humidade e infiltrações.
Lamento, que a antiga porta da capela da Senhora da Bonança, esteja na Póvoa de Varzim no seu museu e não na nossa terra e questiono-me sobre o que terá acontecido ao quadro a óleo, que representava a tragédia da epidemia da febre tifóide e esteve muitos anos numa parede da capela das Almas.”


O senhor Manuel Lopes, tem 20 netos e 13 bisnetos e é preservado e acarinhado como uma autêntica relíquia, pelos seus familiares mais próximos, mas ele próprio tenta acompanhar, ajudar e incentivar os mais novos. Relíquia viva, que conseguimos usufruir num enriquecedor par de horas passados no seu quintal, em que repartiu muitas das suas memórias, de tempos que não voltam mais e que muito poucos entre os vivos têm o privilégio de ter vivido e conseguir Recordar com… a sua lucidez e pormenor.