Fechar

D. ADELAIDE GOMES DO BAIXO

Muito jovem casou, e sempre tratada como tal, a “Lai-Lai”, é uma fangueira dos quatros costados, que viveu toda a vida na sua terra natal – Fão !

D. Adelaide Gomes do Baixo,, nasceu no longínquo ano de 1919, vivendo a sua meninice na rua da Cruz, bem no centro da vila. Ainda menina, lembra bem a animação que havia nesta terra, desde os concertos e serenatas da Banda do Internato do Porto, às festas na casa da Pedra Alta, onde o Ernestino Sacramento, Carlos Turra e Querobim Evangelista deram os primeiros passos para uma época áurea de peças de Teatro-Revista.
“ A minha mãe, só com muita insistência do Esrnestino Sacramento, me deixou participar nessas peças, em que era meu par o Abel Torres, irmão da dra. Ró-Ró. Como casei com apenas 18 anos, já não participei nas revistas no Salão Paroquial.
Da banda do Internato do Porto lembro-me bem apesar de pequena. Vinham passar férias para Fão nos anos vinte e ficavam aqui na rua da igreja. O director era o Virgílio Teixeira (segundo Mário Belo, o mesmo que foi jogador do Fão, onde se destacava pelos seus dotes futebolísticos, só comparável ao Barra Reis, e depois do FC do Porto, onde ganhou notoriedade) e o regente da banda o sr. Leitão. Tocavam no coreto do Bom Jesus, às quintas e domingos, mas faziam cortejos pelas ruas, nessas noites de verão, tocando e fazendo autênticas serenatas.
Era uma época muito alegre e vinha muita gente de outras freguesias, divertir-se para Fão, principalmente de Esposende. Igualmente este Internato organizava um passeio de barco, em que os músicos levavam os seus instrumentos e tocavam a bordo e no Marachão, onde faziam piqueniques.
Também se lembra da festa que era feita às Alminhas do Cais, lembrada pelo Mário Belo como promessa do sr. Leitão, por ter escapado à tuberculose. Com a ajuda do Antonino Borda, que ajudava a decorar, montava um estrado para a banda e fornecia o material para a realização dos vários jogos populares, ali no Largo do Cais. Anos mais tarde (1928) a morte, do jovem António Manuel Xavier Dias, daquele Internato, por afogamento e congestão, num desses piqueniques, ensombrou e encerrou este ciclo maravilhoso nos verões de Fão. Ainda hoje, passados que são quase 80 anos, há pessoas de Fão que tratam da sua campa, no nosso cemitério.
Outras das imagens da minha juventude, que jamais esquecerei foi o acidente que aconteceu na Barca do Lago, quando um foguete caiu no barco onde iam todos os outros e originou uma enorme explosão, provocando muitos feridos num grupo de pessoas que participavam nas célebres “Feijoadas”, organizadas pelos primeiros banhistas e alguns fangueiros, naquele local, para onde se deslocavam em vários barcos.
Jamais esquecerei, o António “Lapa Pinta”, que traumatizado, mais parecia um autêntico cadáver petrificado e a expressão do Anselmo Moreira (o protector do Avelino e doador do Coreto), todo queimado e roupas rotas. Os feridos chegavam nos barcos e nos poucos automóveis de então, uns tratados no Hospital e outros na farmácia do sr. Monteiro, junto à Igreja da Misericórdia. Foi um filme dantesco, que eu e uma multidão de fangueiros presenciámos horrorizados.
“Uma das figuras, desses tempos que me marcou, foi o Padre Alaio”, um homem de grande bondade e bairrismo, que apesar de estar em Braga aproveitava todos os bocados na sua terra. Eu ia espreitar os ensaios que ele dava às senhoras que cantavam na igreja. O seu funeral, foi de longe o maior de sempre em Fão, quando foi a sepultar em Maio de 1937, com apenas 50 anos. Só nesse dia a maioria das pessoas de Fão, aperceberam-se da grandeza, respeito e admiração que este fangueiro, merecia por todo o distrito e norte do país, como grande homem, músico, compositor e professor.
“Eu andava sempre de bicicleta, o que era raro nas senhoras e fui a primeira mulher a tirar a carta de condução na terra. Casei como disse muito nova (18 anos), com o António Gomes de Baixo, que veio de Fonte Boa para Fão aos 12 anos. Estabelecemo-nos com uma mercearia, que mais tarde mudou para a minha casa actual, por cima da loja que ainda existe. Foram bons tempos, apesar das dificuldades da época, em que poucos tinham dinheiro, mas as pessoas confiavam e ajudaram-nos. Havia gente muito boa, mesmo nos tempo da guerra em que só se podia vender com senhas, nós resistimos, nunca cedendo à tentação de emigrar, quer para o Brasil ou África, a que fomos seduzidos.

À esquerda a D. Adelaide Gomes do Baixo, mostrando algumas fotos dos seus álbuns, esfolhando recordações… À direita, como muitas pessoas de Fão, também a Lai-Lai, guarda com muita devoção uma foto do Prior António Nogueira, a bondade em pessoa.


Na altura das Revistas, Fão era uma terra de grande procura e prestígio. Os telefonemas para a minha loja, eram em catadupa quando havia um espectáculo no Salão, a pedirem-me para reservar bilhetes, que esgotavam rapidamente. Não perdia nenhuma revista, fosse nova ou reposições. Eram fantásticas! Os cenários, a orquestra, as vestimentas e os actores… E as serenatas? … Íamos todos atrás do Mário, do Marcos, do Né, do Diamantino, Neca Peralta e outros…
Como esposa vivi ao lado de um homem, que era mais fangueiro que muitos e só muito mais tarde, valorizei o que ele fez pela minha terra, pois para tratar dos interesses dela, ele tinha que se ausentar e não havia os meios de agora.
Se a Junta de Freguesia lhe deu imenso trabalho, na Santa Casa da Misericórdia, em que foi mesário dedicou muito das suas energias e conhecimentos.
Ainda me recordo do Padre Avelino, que o “obrigou” a receber a chave da instituição, por depositar nele toda a confiança e era preciso muito empenhamento. Com o Celestino Cubelo, conseguiu “virar um pouco a página”, na história da SCM de Fão, que apenas possuía imóveis difíceis de manter e pouco rentáveis e não havia dinheiro para reformas importantes. O Lar de Idosos, que comemorou 25 anos, foi a sua grande aposta e penso que a ganhou. Estou em crer que o que fez pela terra e suas instituições, mereceria alguma lembrança e consideração. Recordo a sua satisfação pelas palavras do Ministro da Saúde, em Apúlia, quando lhe pediu apoios para o Lar: “ Homens como o senhor, a lutar pela sua terra, eram precisos muitos no nosso país!”.
Por tudo isto, sinto agora no crepúsculo da minha vida uma grande alegria e satisfação de ter vivido como vivi, com quem vivi e na terra em que vivi !
Estes alguns “flashs” da “Lai-Lai”, que nos recebeu com muito carinho e mostrando um grande entusiasmo a falar de Fão, e dos tempos que já lá vão...