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MARIA DE LURDES CAMPOS PEREIRA

Senhora simples, devota e recatada, mas com uma voz inconfundível de “arrepiar”, impossível passar despercebida, a “Lulu”, foi durante décadas ajudando à maior solenidade das cerimónias religiosas nas nossas igrejas e em tempos foi destaque no teatro fangueiro de revistas.

Pai seminarista, veio de Curvos “ancorar” em Fão e “pescar” sua mãe

Lulu- “ Meu pai Américo Fernandes Pereira, era natural de Curvos e em criança foi para o Seminário, que era o grande desejo de minha avó. Depressa se apercebeu, que ser padre não era a sua verdadeira vocação e um dia fugiu de lá.
Contudo, pelo grande desgosto e insistência de sua mãe, resolveu voltar e aí permaneceu, quase até ao final dos seus estudos, mas acabou por abandonar em definitivo o Seminário.
Mais tarde, foi trabalhar para o Porto, numa loja da casa Ramos Pinto, uma das mais antigas e conceituadas Caves de Vinho do Porto.
Não sei bem como, mas veio mais tarde para Fão, onde se estabeleceu com uma loja de mercearia na antiga rua Conde Castro, actual Professor Pio Rodrigues, logo no pós guerra 14-18.
Minha mãe, Maria Rodrigues de Campos, popularmente conhecida por “Micas Calheiras”, vivia ali perto na casa onde nascera, na rua da Areosa (agora Azevedo Coutinho), em frente ao “Penetra”, onde também eu nasci e vivo actualmente. A vizinhança ajudou ao namoro e acabou em casamento. Dele nasci eu, a minha irmã Maria América, o José Augusto, mais 2 que faleceram em bebés.”


Do grande incêndio à sua infância

Lulu- ”Ainda antes do meu nascimento (1924), dá-se o grande incêndio da loja, que ardeu completamente pois em Fão ainda não havia bombeiros, que tinham de vir de Esposende. Este trágico incidente ajudou a acelerar a fundação da nossa Corporação, que aconteceu no ano seguinte (1925) e da qual meu pai fez parte dos fundadores e da direcção por muitos anos.
Em pequena ainda me lembro de irmos brincar para as ruínas da loja que se mantiveram durante muito tempo. Depois meu pai montou a loja nesta casa onde moro. No entanto, como o negócio não era muito próspero e arranjasse emprego na Câmara de Esposende, acabou por a alugar ao Manuel Lopes “Cavaca”.
Na escola, fui sempre aluna da D. Zulmira Borda, que muitas vezes me dizia que eu só tinha habilidade para cantar, principalmente pelo grande número de erros que dava no ditado e por isso levava muitos “bolos”. Nesses tempos de miúda da escola e catequese, comecei a participar nos “teatrinhos” organizados pelo Prior Nogueira (Na foto pode-se ver ao centro, no baptismo do carro de bombeiros). O sr. Prior organizava uma festa muito bonita no dia de Reis (6 de Janeiro), em que se decorava o Salão, com um grande pinheiro e os mais assíduos à catequese recebiam as melhores de várias prendas distribuídas. Também me lembro do , que quando estava cá em Fão, nos vinha ensaiar.
As minhas colegas de menina, com quem brincava, por exemplo à “roda” e a cantarolar aqui pela Areosa eram a Laia do Tininho, Zaira Torres, Aida Mariz, Carmen do Pires, Jeny Fernandes (colega de carteira na escola)Geninha do Penetra, Maria d’ Abília, Adelaide e Helena das Martinhas, Maria Palmeira, Maria Oliveira e Almerinda Cochinha e ai de nós que fossemos para casa depois das 17 horas!”


A entrada adiada no Teatro de Revista

Muito jovem comecei a ir com a “Laia” aos ensaios do teatro na casa da Pedra Alta, ensaiados pelo seu pai Ernestino Sacramento e quando foram à cena as suas primeiras revistas, “Sem Fios” e “P’rá Frente”, fiquei muito triste por não ter participado, pois ainda era muito nova, embora algumas colegas da minha idade tenham entrado por terem mais corpo que eu. Lembro-me, no entanto, da estreia da “Sem Fios”, que fui ver com a minha mãe, em que tal como os tocadores, o meu pai, que era o “ponto”, tiveram de abrir a primeira cena cantando uma pequena estrofe e a dele era:

Quando eu morrer
Quero o caixão bem fechado
Que as pitas da companhia
Me cantem todas o fado


A minha estreia em palco foi em 1938 na Revista “Não se fala mais nisso”, na qual interpretei “Ondas”, “Os Beijos” e “Os Feixinhos de Faúlha”, a seguir entrei na ”Manta de Trapos”, com os papéis “As Bordadeiras” e “Marcha de S. João”. Seguiu-se um grande período de estagnação e só voltei a entrar em reposições com o Zé Maia, sendo a última delas em Recordar é Viver”, em 1982, tendo aberto o 1º Acto cantando “Ondas”. Foi um tempo fantástico em que o nosso Salão abarrotava. Era sempre uma grande confusão e o meu pai, que ficava na bilheteira e depois vinha fazer de “ponto”, tinha dificuldade em manter a ordem, pois havia sempre gente que queria forçar a entrada numa casa esgotada.”

Na foto em cima, Lulu com um grupo de amigas da juventude a saber, ”Zairinha”, Cândida e Palmira Borda, irmã “Quinhas” e Lurdes do “Antero”.

Catequista e cantora na igreja por muitas décadas

Sempre conhecemos a D. Lurdes Pereira, como uma mulher muito ligada à igreja, pelas mais diversas formas, mas claro, das que melhor nos lembramos é como catequista e cantora de voz inconfundível. Daí que não podíamos deixar de falar sobre essa faceta.
Lulu- ”Fui catequista muito cedo, praticamente mal acabei a minha catequese, a convite do , tendo continuado por mais cerca de 60 anos.
Pertenci sempre ao grupo de cantoras da igreja, com outras senhoras como a Júlia Nogueira (irmã do sr. Prior), Florinda, Zairinha e Miquinhas Borda, Zaira Pereira e Vira Barcelista, que embora não fosse um grupo organizado, íamos alegrando as cerimónias da nossa igreja. Chegamos a ser ensaiadas pelo Martinho de Fonte Boa que nos deu melhor aperfeiçoamento. Mas o melhor tempo foi quando o Padre Borda, esteve à frente do Grupo Coral, pois era um grande músico e dinamizador. Éramos entre 30 a 40 pessoas e vivemos momentos inesquecíveis… As idas à Rádio Renascença e à Televisão, 3 ou 4 vezes a cada, os Encontros de Coros em Braga e um deles em Fão, foram acontecimentos muito bonitos. A saída do Padre Néné, que chegava a trazer com ele vários músicos eclesiásticos, foi uma grande perda. O sr. Moreda também se revelou um bom ensaiador e eu mantive-me no Grupo Coral até há bem pouco tempo, mas parece que os meus cabelos brancos já não eram bem vistos por alguns e decidi afastar-me.”


Bordadeira, reconhecida na primeira Exposição do Museu d’Artes

Lulu- ”Como muitas outras mulheres e raparigas, fui aprender a arte de Bordadeira, com a Belmira “Calafate” aqui na mesma rua e que era uma grande mestre. Nessa altura andava lá eu e a Carminda Martins Moledo. Era uma profissão com muito trabalho na época, tínhamos muitas clientes particulares e até para a própria Singer. Também mais tarde ensinei outras senhoras a bordar e trabalhei muitos anos pelo menos até à morte da minha mãe. Agora que saiba, apenas conheço uma bordadeira em Fão, que é a Lúcia Brandão.
Quanto a essa escolha para fazer parte da Exposição “Mulheres…Entre a Terra e o Mar”, que decorreu no Museu d’Arte em Fão, de Agosto de 2004 a Junho de 2005, foi uma grande surpresa, muito agradável por sinal e senti-me lisonjeada por representar as Bordadeiras e Fão. Foram muito simpáticos e não sei porque me escolheram, talvez por ser a mais velha…mas que gostei, gostei de ser reconhecida por algo que tenha feito.”


Maria de Lurdes Pereira é uma senhora que apesar da sua avançada idade, não vive fechada nas quimeras do passado, acompanha os tempos, gosta das novidades, da vida e das actividades do presente. Considera que esta terra que sempre amou, continua atractiva e com qualidade, embora sinta alguma quebra do comércio local. De coisas más passadas em Fão, só mesmo o falecimento de sua irmã e amiga “Quinhas”, lhe cria constrangimento e considera a festa da inauguração do novo Quartel dos bombeiros o dia mais bonito vivido, principalmente o momento mágico em que cantaram na Missa Solene dita pelo Padre Vilar, o “Aleluia” de Haendel, sob a batuta do sr. Moreda.
Para nós, ela será estimada e lembrada pela mágica voz de soprano, que embelezou muitas das cerimónias das nossas vidas ou numa simples missa dominical.


José Belo