DANIEL CARLOS
Um exemplo de vida, pela dedicação à família e pelas grandes provações porque passou, em que só um espírito forte e uma fé inabalável o tornaram um resistente.
Neto do 1º enfermeiro do Hospital de S. João de Deus
Das suas raízes, Daniel “Furtado”, como é também conhecido, por uma alcunha que vem de uma tia-avó, à qual lhe roubaram (furtaram) um filho criança, que nunca chegou a aparecer, falou-nos um pouco dos seus avós.
Também chamado Daniel Carlos, dos “Frades”, era seu avô paterno e foi conhecido como o 1º enfermeiro a exercer no Hospital S. João de Deus, onde sempre trabalhou. Era irmão do Manuel, que era cordoeiro, foi conhecido por “Pote dos Frades”, pela sua figura um tanto obesa e do José “dos Caragos”, que era pescador e avô do Casimiro Fonseca, que recentemente entrevistamos em “Porta Aberta”. Do seu casamento com Bernardina Marcelina Neves, oriunda de Palmeira, nasceu seu pai Sebastião Carlos.
O avô materno José Alves da Quinta, veio de Fornelos, tal como o seu
irmão Adriano para trabalhar e aprender a profissão de alfaiates, pois Fão era terra de grandes mestres desta arte. José e Adriano eram irmãos de Francisco Quintas, que foi tentar a sorte na Póvoa de Varzim, como cordoeiro e chegou a Comendador, sendo o patriarca de uma das mais importantes famílias poveiras.
Seu avô José, estabeleceu-se no Largo Manuel Magalhães (“do Fontes”) como alfaiate, enquanto o tio-avô Adriano, também o fazia, na pequena casa em frente à Pastelaria Fãozense, na estrada nacional.
Adriano Quinta, casou com Antónia Costa “das Bispas”, que era filha do Gomes da Costa, que tinha a Fábrica de Tintas Alvaiada, dirigida na altura pelos do “Pio”.
Pai combatente da I Guerra Mundial, deixa-o órfão aos 3 anos
Seu pai Sebastião, aprende a profissão de alfaiate e também acaba por se estabelecer na rua Prior Gonçalo Viana (da Igreja), na actual casa da D.Jeny, casando-se com Alice Alves da Quinta, filha do também alfaiate José Quinta e da fangueira Rosa Faria de Campos, trabalhando como costureira , ao mesmo tempo que o ajudava no estabelecimento. Chamado a prestar serviço militar, integra o Corpo Expedicionário Português que participa na sangrenta batalha de La Lys, na Flandres, a 9 de Abril de 1918 e na qual morreram mais de 2000 portugueses.
O uso de gás venenoso por parte das tropas alemãs, veio a aumentar ainda mais a tragédia e muitos foram os soldados que foram afectados gravemente pelos seus efeitos.
Sebastião Carlos foi uma das vítimas dessa intoxicação e acabou por falecer em 1926.
Daniel tinha 3 anos e sua irmã Rosa apenas 1, tendo uma leve lembrança de o ver no leito da morte. Valeu-lhes então o avô José, que os acolheu em sua casa, enquanto a mãe ficava a trabalhar na sua alfaiataria, ali no Largo do “Fontes”. O seu avô foi o 2º pai, durante uma década até ao seu falecimento, mas foram tempos muito difíceis.
Fez a 4ª classe na nossa escola tendo sido seus formadores os Professores Mendes, Lage e D. Ida Eiras. O seu primeiro emprego, tinha então 12 anos, foi como caixeiro na loja do Rufino. Recebeu um punhado de amendoins pelo 1º. dia de trabalho, 5 tostões no 2º. e 3$50 ao fim de uma semana. Desse tempo, lembra-nos uma pequena peripécia…
Daniel Carlos-”Um dia, faltou petróleo na loja, que era um produto de primeiríssima necessidade e o senhor Rufino mandou-me buscar uma lata de 20 litros a Esposende. Arranjei boleia com a Ermelinda “Lata”, que era carreteira e também levou o “Miro Careta”, que se sentou em cima da lata vazia, danificando-a. Regressei a pé a Fão com a lata às costas e a verter petróleo por cima de mim. Quando cheguei, trazia metade do produto, estava encharcado e mal cheiroso. O sr.Rufino deu-me sabão e eu fui tomar banho ao rio, desolado com o acontecido”
Trezentos escudos e um fato de “cotim”
Depois de um ano na loja do Rufino Barreiro, conseguiu trabalho como empregado de balcão numa loja (“Loja da Rufina”) na Póvoa de Varzim, que ficava na rua da Igreja, no velho centro da cidade, perto da Matriz. Este emprego conseguui-o por intermédio da Ermelinda “Lata”. O ordenado estipulado foi de 300$00 por ano e um fato de “cotim”. Trabalhava aos fins-de-semana e vinha apenas 2 vezes por ano a Fão, que era pelo Natal e Festas do Senhor Bom Jesus.
Quando vinha a casa fazia a viagem a pé, junto com outras pessoas que trabalhavam naquela cidade, como as “Chiquitas” e a Rosa “Cantoneiro”, cantando e dançando pelo caminho. Aqui trabalhou de 1936 até 1944, saindo para cumprir serviço militar.
Sempre muito próximo da Igreja
Sua tia Deolinda, que era uma senhora muito devota, cedo começou a levá-lo com muita assiduidade às cerimónias religiosas, pelo que a Igreja foi sempre muito familiar para ele e onde sempre se sentiu bem.
Em jovem fez parte da JOC, onde chegou a ser seu Presidente, sucedendo ao José Araújo Costa(“Zeca Saragoça”) nas funções, numa altura que era pároco em Fão o Prior Nogueira.
Daniel Carlos-”Ele, chegou a ensaiar-nos em pequenas peças teatrais, cuja música estava a cargo do Martinho de Gandra, organista e o Paulino Campos ao piano e também o Padre Borda, quando estava cá de férias.
Lembro-me muito bem de uma ida a Fátima, paga pelo Prior Nogueira a um grupo de jovens da JOC. A viagem foi de comboio, mas tivemos de ir a pé apeá-lo a Barcelos e depois também a pé da última estação (Chão-de-Maçãs), até Fátima, que ainda eram cerca de 20 quilómetros.
Quando o Amândio “Regina” casou, eu comecei a substituí-lo a ajudar à missa e fi-lo com vários sacerdotes… Prior Nogueira, Padre Jó, Padre Alaio, Padre Avelino, Júlio e Francisco Cubelo e outros.”
Muitos anos mais tarde, fez parte do Grupo Coral, liderado pelo Padre Manuel Faria Borda e actualmente faz parte, há uns anos a esta parte do Grupo do Bom Jesus.
Daniel Carlos-”Nos tempos da juventude, porque gostava de futebol, embora não praticasse, colaborou com o início do Fão Praia, na organização de algumas festas de angariação de fundos, com alguns entusiastas como o Neca d’Areia” (Manuel Monteiro e o Alípio “Chiquita”, que tal como o irmão Quim, eram bons jogadores. Lembro-me bem quando o Alípio partiu uma perna num jogo com o Gil Vicente…”
Carpinteiro e emigrante na longínqua Venezuela
Terminado o serviço militar, em 1945, iniciou-se na carpintaria, aproveitando o facto da Fábrica “do Felgueiras”, estar a recrutar pessoal e o facto de ter ferramentas próprias, que tinham sido de uns tios.
Foi uma época de grande crescimento e muita actividade na construção, como foi o caso da Estação Rádio Naval em Apúlia e as casas de Ofir.
Entretanto, como muitos outros, tentava tudo para emigrar, para melhorar a sua vida, pois cá os trabalhadores eram muito mal pagos. A sua preferência era para rumar a África, mas estava muito difícil de consegui-lo, mas também se tinha inscrito para a Venezuela, contando para isso com a ajuda do seu antigo patrão da loja da Póvoa.
Casou em 1951, a 10 de Fevereiro, com Elisa Gomes da Silva (“Barqueira”) e , filha do Alípio “Chiquita”, que chegou a ser banheiro na nossa praia.
Daniel Furtado-”Pouco mais de 3 meses e recebia a “carta de chamada” para a Venezuela e não pude deixar fugir a oportunidade. No dia do embarque, entre centenas de pessoas, no Cais de Lisboa, encontrei o Ilídio Mendanha, que rumava a África e lá ficou. A viagem durou 9 dias e dormíamos no convés, com uma grande lona a separar homens e mulheres.
Fui para Caracas, trabalhar em carpintaria da construção civil e mais tarde mudei para trabalhar com os rapazes de Apúlia. Depois, quando caiu o governo de Perez Menezes e houve uma grande crise económica, tive de mandar de regresso a família, que já se encontrava comigo (minha esposa Elisa e os 4 rapazes Daniel, Mário Jorge, Jaime, Alípio e Carlos Alberto
Entretanto, fui trabalhar para uma padaria por influência de um militar a quem fazia uns “biscates” de carpintaria em sua casa. A vida por lá foi melhorando e voltei a chamar a família. Estive na Venezuela entre 51 e 74, altura em que tive de regressar para poder tratar da fatídica doença da minha esposa, que tinha melhor clima e meios em Portugal. Sempre suspirei pela minha terra, mas só esta triste circunstância me fez regressar”.
Regresso a Fão pelas piores razões
Daniel Carlos-”Apesar da irreversibilidade da doença da Elisa, tive alguma sorte pois em Fão encontrei as melhores condições
para tratar e acompanhar minha esposa até ao desenlace final, incluindo cerca de 6 meses no nosso Hospital, onde vivemos e ela era tratada pelas irmãzinhas. Neste período, comecei a trabalhar com o António Sá Pereira, tendo como um dos meus principais companheiros o Chico Regina, em imensas obras nos mais diversos lugares.
Com o falecimento da minha Elisa em 1980, regressei à Venezuela, ficando apenas cá o Alípio, que estava perfeitamente integrado com a terra, os amigos e o estilo de vida.”
O Alípio de quem nos recordamos muito bem, era um rapaz muito alegre e dinâmico,
tocava viola e acordeão e era exímio jogador de ténis de mesa. Fez parte de várias actividades no MPCC, participando em várias festas e espectáculos. Ingressou depois na Marinha, mas também teve um final precoce e trágico, que angustiou não só a família, mas toda a comunidade fangueira, ao falecer num brutal acidente de viação, ainda muito jovem. Foi com certeza mais um enorme e rude golpe que o nosso entrevistado, teve de suportar.
Daniel Carlos-”Regressei definitivamente a Portugal em 1989, mas ainda fui trabalhar com o António Sá Pereira(o filho, conhecido cônsul), na sua empresa REIMELI, até aos 75 anos, tendo conseguido equilibrar um pouco a minha vida, pois as condições de vida e direitos dos trabalhadores melhoraram muito, já que antes de sair daqui não havia Segurança Social, Pensões ou Reformas.
Também na nossa terra houve grande melhoria da qualidade de vida, mas penso que o povo é cada vez menos unido, havendo muitas divisões, principalmente por causa da política.
Antigamente havia muito bairrismo e as pessoas conviviam mais. Fão era uma terra com raízes profundas com os Teatros e as Canções que agora é pouco valorizado".
Embora tenha os filhos ainda longe, é aqui que se sente bem, embora mantenha um contacto assíduo com eles, sendo que o Jaime é o mais ligado à terra e gosta de saber tudo, que cá se passa, por isso é um leitor acérrimo do Novo Fangueiro Online
Palavras para quê? Este homem na sua narração simples e tranquila, mostra quanto ama a sua terra, apesar de se ter apartado dela por muito tempo, para muito distante e a ela estarem ligadas as passagens mais trágicas da sua vida, em que sempre transpareceu muita serenidade, muito amor ao próximo e muita fé em Deus.