MARIA OTÍLIA DOMINGUES FERREIRA
“Tilinha Serguilha” como é conhecida pela maioria das pessoas em Fão, apesar da idade avantajada e algumas limitações físicas que a doença lhe trouxe, é uma senhora com muito sentido de humor, procurando nessas suas memórias lembrar-nos preferencialmente, os momentos mais divertidos.
Nasceu em 1923, nas Pedreiras, onde sempre viveu, filha de José Paulo Gaifém e Rosália Domingues da Venda, irmã de dois rapazes, o Raimundo e o José Paulo, que cedo partiram para o estrangeiro, o primeiro para o Brasil e o segundo para os E.U. da América.
Herança da alcunha e da arte de bordar
Do bisavô José , veio a alcunha “Serguilha”, que se gabava amiúde da qualidade do tecido das suas calças, composto por lã e linho. ”Eu cá só uso serguilha!” Dizia com vaidade, pelo que lhe colocaram essa alcunha.
Sua avó Rita Fernandes Dias, tinha uma mercearia e loja de vinhos, que sua mãe “Zairinha Serguilha”, transformou em atelier e loja de tecidos.
Dela herdou a habilidade para bordar e colheu seus ensinamentos, recebendo a sua primeira máquina de costura com apenas 14 anos, que aliás ainda conserva.
Sua mãe fazia muitos trabalhos de bordar para fora e dava trabalho a várias outras senhoras, que chegaram a trabalhar no seu atelier, entre elas lembra-se da Maria Branca Campos, Dalila Saraiva, Edir e Ilídia Mariz e a Maria Sá.
A Capela de Santo António e uma trágico-comédia
Seu avô José Fernandes, que era lavrador, foi o líder do movimento para a recuperação e arranjo da Capela de Santo António, construída no século XVII.
Durante vários anos o cortinado frontal da capela ficou na família, que zelava por ele, mas mais tarde devolveram-no definitivamente à capela. A “Tilinha” disse-nos que ainda se lembrava do caixão de madeira, que havia na capela e era alugado para enterros, principalmente na época das grandes pestes, como a pneumónica, que devastaram a nossa terra.
Ainda menina assistiu a uma cena dramática, que não deixou de ter contornos algo hilariantes. Em casa do Francisco “Mena”, por volta dos anos 30, foi recolhido o cadáver de um criado de lavoura, que havia falecido afogado no rio.
A casa foi invadida por curiosos, entre vizinhos, vendedeiras de peixe de Esposende e outros que passavam, para ver o morto. Foi então que o soalho desta desabou e o morto e transeuntes foram parar à cave, onde se guardavam as alfaias e carros de bois. Parecia uma cena dantesca com tantos gritos e lamúrias e também cómica, pois as mulheres ficaram descompostas e histéricas, penduradas algumas pelas saias no carro de bois e por cima dos armários, com o “indefeso” defunto no meio.
Pai marinheiro e irmão “americano”
O pai José Paulo era maquinista na marinha mercante e embora fosse do sul, veio ter a Fão, pela amizade que veio a contrair com o “Zé Setenta”, que lhe tratava de todos os assuntos burocráticos e trouxe-o até à nossa terra.
Um dia ao passar nas Pedreiras, viu a Zairinha à janela e ficou enfeitiçado com a sua beleza. Então, disse ao seu amigo fangueiro, que se conseguisse o seu casamento com aquela mulher lhe seria eternamente grato.
Numa altura de muitas dificuldades, o factor económico era muito importante na vida das famílias e condicionava ou favorecia algumas ligações amorosas.
Deste modo, o Zé Setenta, aconselhou-o a exibir notas em local público e que se declarasse. Assim fez, e na Alameda do Bom Jesus, em dia de muita concentração, pôs-se a contar dinheiro para que muitos o vissem e depressa chegou ao conhecimento da família “Serguilha”, que acelerou a futura união.
Casado em Fão, José Paulo regressou ainda às lides marítimas, andando mais pelas Américas, onde apanhou uma febre, talvez de origem tropical, que lhe causou sequelas a nível psiquiátrico, com alguns momentos de alucinação e esquecimento. Uma dessas alturas, coincidiu com o nascimento do filho, também José Paulo e decidiu ir registá-lo no consulado dos Estados Unidos, como se tivesse nascido lá.
Já com 17 anos, o irmão da D. Otília a trabalhar no Hotel Ofir, juntou uns “tostões” para ir ao consulado americano no Porto e confirmar esse registo. Aí deram-lhe a opção de escolher a nacionalidade, tendo-se decidido pela americana e partindo para lá pouco depois, no ano de 1951, onde acabou por ficar, fazer serviço militar e constituir família.
O vizinho Padre Chaves e as “Cacadas”
Tilinha-“O Padre Chaves, nosso vizinho, era afilhado da minha avó Rita e padrinho da minha tia Emília, mas era uma figura que me metia medo, sempre sisudo, muito alto com o seu capote e a sua fama de bruxo.”
Era Abade na Estela, onde fazia exorcismos e por isso perdeu as ordens, por ordem do arcebispo, que pertencia aos Sinaré, com casa nas Pedreiras, da família do mestre Sinaré, construtor naval. Não conformado com as justificações do arcebispo, desmascarou-o por comportamento pouco ético, no jornal da terra, cremos que o Má Língua. O proeminente clérigo tentou que “Chaves Coupon”, como subscrevia seus textos, desmentisse a acusação, oferecendo-lhe o perdão, mas desde que deixasse os exorcismos. Conhecido por ser um homem de convicções fortes, grande bairrista e firme, não voltou atrás.”
Por esses tempos da juventude a Tilinha, lembra com grande entusiasmo as “Cacadas”, no Carnaval, quando andavam pelas ruas a atirar cacos velhos às portas, e ri-se abertamente ao lembrar-se quando o fazia com a colega das brincadeiras, a Alice Pereira(”Alicinha Pinta”) e das correrias que faziam para fugir com os xailes pela cabeça.
Os Sábados à noite no Senhor Bom Jesus, eram também muito animados, com música de gira-discos, ao som de altifalantes do de Fonte Boa, bailarico e rifas.
Quando lhe questionámos sobre mais alguma história antiga, eis que lhe voltam a abrir os lábios convulsivamente…
Tilinha- ”No “Galo d’Oiro” , já lá vão mais de 50 anos…Uma estranha aposta, ficou famosa. Os protagonistas foram o António Herdeiro e o Álvaro “Carapuça”, que se desafiaram a ir ao cemitério de noite.
O Álvaro, foi à frente e vestiu-se de branco às escondidas e chegado lá passava uma chave grande pelas grades, com o intuito de assustar o António Herdeiro e outros comparsas que o acompanharam, entre eles o ”Miro Careta” e o Francisco Mariz. Estes, assustados, puseram-se em fuga. O Álvaro entretanto tropeçara e foi cair em cima da campa da sua própria mãe, um susto que o veio a afectar por muito tempo, e pôs-se também em fuga desenfreada, atrás dos outros que fugiam dele, sem se saber bem quem perseguia quem, embora sempre tocados pela sugestão do fantasma.”
As Marchas uma paixão de sempre
“Toca a cantar,
Por essas ruas de Fão
Toca lá ó tocador,
Toca lá o São João…
Ao longe se avista
O clarão das fogueiras
Afinai essas gargantas,
Raparigas das Pedreiras !”
Trauteando com a ajuda da filha Elvira, que é a sua grande companhia e zeladora, relembra-nos o tempo em que começaram as primeiras marchas em Fão, de que a sua mãe Rosália, foi uma das grandes impulsionadoras. Estas marchas saíam à rua na época do S. João e os rapazes e raparigas eram maioritariamente das Pedreiras, que circulavam pelas ruas de Fão exibindo cantigas e modinhas das revistas fangueiras. A mãe no seu atelier confeccionava as blusas, xailes e flores em tecido para as raparigas. Desse tempo lembra-se do Chico Saraiva, Dalila Saraiva e Cristina Carvalho, que tinham vozes fantásticas.
Mais tarde, quando apareceram as marchas luminosas, nas Festas do Senhor de Fão, que foi ensaiada durante vários anos pelo genro João José Morais, sentiu o renascer de uma grande paixão e tornou-se numa incondicional apoiante.
Assistia a todos os ensaios e acompanhava-os por todas as ruas no dia da exibição, mas mais que isso, foi a colaboração directa, cedendo a casa para ensaios e confeccionando algumas vestimentas. Em 1976, nas Festas da Vila foi quem idealizou e ajudou a confeccionar o modelo das roupas femininas (tipo “Maria Papoila”), em tons de vermelho e branco.
Mais tarde os ensaios passaram para a Casa do Caldeirão onde havia mais espaço para treinar as evoluções e onde também marcava a sua presença.
O negócio dos tecidos e uma certa veia para enfermagem
Quando sua mãe faleceu, ficou a dirigir a loja de tecidos e continuou a fazer trabalhos de bordados para fora.
A loja, numa altura em que não havia pronto-a-vestir, trabalhava razoavelmente bem, apesar de haver várias em Fão. Forneciam dois alfaiates de Fonte Boa e o Agonia, mas também vendiam para Esposende, sendo um cliente importante o António “Carcereiro”, que comprava tecidos para bandeiras e toalhas dos altares, que depois pintava para as igrejas.
Tilinha- ”A minha mãe já tinha alguma vocação para tratar doentes, como fazia com muitas crianças, passando-lhe azeite aquecido na barriga quando se queixavam de dores abdominais e a minha tia Cândida tinha fama como “endireita”. Eu, talvez tenha herdado alguma dessa vocação familiar e costumava dar injecções e fazer curativos a muita gente nas Pedreiras. Cheguei mesmo a fazer “partos”, como aconteceu no nascimento da Arlinda, do Arlindo Cardoso e do meu neto João.
Mas a minha maior experiência, foi quando cosi um gato, que havia sido atropelado, com uma agulha dos sacos e “fio de vela”. O gato era forte e resistiu à operação, tendo-lhe cortado o pelo e cosi-o da pata até ao pescoço.”
NF- Foi quase vizinha do Dr. Barrote e deve lembrar-se de alguma passagem ou préstimo deste estimado médico…
Tilinha- ”Ah! Sim… O meu marido um dia precisou tirar um dente e implorou ao doutor que lhe comprasse a anestesia, já naquele tempo, a maior parte das extracções eram feitas a sangue-frio. Coitado! Fartou-se de gritar e dizer palavrões. A minha Elvira também foi lá uma vez comigo e desesperada com dores, até me ferrou na barriga!”- Contou a rir-se e com um brilhozinho nos olhos.
Um casamento preparado na família
Seu futuro marido, António Pires do Monte, havia casado com sua prima Elvira, que acabou por falecer com o bebé no parto, um grande drama na família. Depois partiu para o Brasil, estando viúvo durante 10 anos, mas entretanto na família havia o interesse que ele voltasse e refizesse a sua vida entre os seus, enquanto me sugeriam a possibilidade de vir a casar com ele.
Tilinha-”Como o meu namoro com o Franklim “Polinária”, era muito inconstante, acabei por aceitar essa união em 1947. O Franklim quando soube que íamos casar, até desfaleceu, mas já era tarde para me demover. Eu tinha apenas 24 anos e o António contava 46. Ainda voltou para o Brasil e várias vezes tentou que eu fosse com ele, mas ninguém me tirava de Fão e não era capaz de deixar minha mãe e depois as minhas tias. Tivemos 4 raparigas, Evelina, Rosália, Raimunda e Elvira, que vive comigo e cuida de mim.
As Pedreiras, antigamente tinha muita vida e alegria, tal como o centro de Fão, onde havia muito comércio (havia muitas vendedeiras de tremoços no centro…).
Aqui éramos como uma grande família, entravamos em casa uns dos outros e ajudávamo-nos mutuamente.”
Já ia longa a nossa conversa, em mais uma tarde de viagem ao passado fangueiro, conduzidos por uma senhora, que usou para o cenário da sua vida uma moldura permanente : Fão!
Um Fão, que segundo diz, era em tempos uma terra com um povo muito unido e divertido, apreciando os passeios até à ponte e a zona do Bom Jesus, que com o senhor Valentim “Cantoneiro”, era um autêntico jardim, pois ele cuidava-o como ninguém e era a verdadeira “sala de visitas” da terra.
Apesar da sua dependência e pouca mobilidade, a Tilinha, transportou-nos num percurso pelo romântico, nostálgico e fascinante Fão de antigamente.