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ANTÓNIO GOMES VIANA

“Pau para toda a colher” é um dito popular, que bem se poderá aplicar a este nosso entrevistado, pois o António Viana foi carpinteiro, caixeiro e carteiro, mas paralelamente, tem tido uma vida recheada de diferentes e simultâneas experiências associativas, onde fez de tudo um pouco, em prol das colectividades que foi representando e do seu grande e incontestável bairrismo.

Parece ou talvez não coincidência, ter nascido no Dia da Economia (31 de Outubro, ano de 1938), teve de gerir muito bem os “tostões”, nas diversas instituições da terra.

Carpinteiro, por herança familiar, necessidade e paixão

Filho da recém falecida Otíla Antunes Gomes “Pepina” e de Albino Pedrosa Viana, a quem começou a ajudar, tal como os irmãos, na pequena oficina de carpintaria, que este tinha em casa, onde trabalhava nas horas livres do seu emprego, para conseguir sustentar dignamente a família.
O pai era encarregado da carpintaria da Fábrica “Serração, Moagem e Carpintaria de Viana”, conhecida pelo nome do seu gerente “Felgueiras”.

De menino recorda-se dos carros de bois que chegavam carregados de pinheiros, que vinham para pesar e depois num trabalho que era manual, eram descascados, seguindo então para as serras e transformação.
A principal produção nesse tempo era as tabuinhas para embarque.
”Era no trabalho de encastelar as tabuinhas para secagem, que os meus amigos Irmãos Matias trabalhavam e por essa altura começaram a sua arte de artesãos.
Nesse tempo, as famílias iam aos restos não aproveitáveis das madeiras para o lume, que compravam à “arroba”. Tiravam um pequeno bilhete que era fornecido pelo Manuel Cardoso “Neca Mata”, que era o “fogueiro” ou chefe da casa das máquinas, era ele o primeiro a chegar e o que punha a fábrica a trabalhar.
Também era ele que controlava os apitos (ou avisos) da fábrica, que eram às 7,30 horas, às 7,55 horas para avisar e às 8 horas para começar a trabalhar; às 12 horas para o intervalo, depois novamente avisando às 12, 55 horas e às 13 horas para recomeçar; e finalmente às 17 horas para terminar o serviço. Era um apito a vapor, através de um cano alto e estreito, feito em chapa, que ele fazia aquele som inconfundível e inesquecível!”
O meu pai na oficina, para onde vinha à tardinha e no fim-de-semana, tinha 3 bancos de trabalho e não lhe faltavam encomendas, pois era um grande artista. Chegava da escola, onde fui aluno da D. Ida Eiras e do Prof. Pio Rodrigues e ficava a ajudar nos serviços mais simples até à hora do jantar. Ele fazia muitos trabalhos em castanho e mobilou muitas casas de oficiais da marinha, por influência do Dr. Barrote, que era médico na estação de Apúlia.”


De caixeiro a carteiro…

Na fábrica foi “moço” do “António Rosinha”, que era o seu mestre, começando a trabalhar só por alguns períodos, alternando com o trabalho em casa com o pai, onde um certo dia partiu acidentalmente um formão.
Então, com 12 anos, conseguiu o formão graças ao Rufino Barreiro, para onde foi trabalhar como ajudante e caixeiro, inicialmente para pagar o dito formão e esteve lá até aos 18 anos.
Eu ofereci-me logo e fui inscrever-me na antiga estação de Fão, sendo atendido pelo senhor Artur Costa. Foi preciso um fiador de 5 contos e dinheiro para tirar o Bilhete de Identidade, assegurado pelo senhor Rufino Barreiro.
Entrei para os CTT com 19 anos, em “part-time”, para fazer substituições, numa altura em que também fui contratado para a fábrica do “Felgueiras” a tempo inteiro, o que aceitei com a salvaguarda de ser libertado sempre que os Correios me chamassem. Claro, que sempre continuando com os “biscates” da carpintaria de casa. O meu primeiro ordenado na fábrica foi de 99$90, por semana, isto em 1957, portanto tinha de entregar 1 tostão ao senhor José Costa “Zeca Saragoça”, que era o escriturário, para receber a nota de 100$00.”
Alguns anos depois, acabou por entrar para os quadros dos CTT, onde trabalhou até 1993, perfazendo 34 anos de serviço, mas nunca abandonando os “biscates” de carpintaria, onde a sua especialidade era a marcenaria.

Recordações da juventude: As figuras típicas e a paixão pelos bombeiros

“ Fão, durante muito tempo, também era conhecido pelas suas figuras típicas e eu convivi mais de perto com 2 delas. O Marcelino, que era meu vizinho, vivia aqui na Areosa com o pai e o irmão e era sempre um momento animado quando ele vinha, já com o “grão na asa”, cantar o “eu matei a centopeia…” para o “pátio das Vila Chãs”.
O outro era o “João Cego”, que viveu durante muito anos num anexo que o meu pai fez no nosso quintal. Era um homem, que apesar de não ver, tinha uma enorme sensibilidade e chegou a fazer pequenos serviços para os Correios, como por exemplo entregar telegramas, mesmo a outras freguesias.
Em jovem, a minha grande paixão foram os bombeiros ! Já em miúdo brincava com os meus irmãos e amigos “aos bombeiros” e até tínhamos o nosso próprio quartel de brincadeira, com comandante, formaturas e simulações de operações.
Aos 18 anos, finalmente incorporei-me tal como os meus irmãos na Corporação dos Voluntários de Fão. O quartel nesse tempo, chamava-se Sousa Martins e situava-se na rua Azevedo Coutinho, no edifício dos Amigos de Fão. Fui bombeiro durante 12 anos e a saída abrupta devido à cisão entre o Comandante e a Direcção, marcou-me muito, pois foi um grande desgosto. Também sofri muito por esse conflito, quer na vida familiar, quer profissionalmente.
Mas tenho algumas boas recordações…
Uma certa vez, tínhamos ido a um Congresso Internacional de Bombeiros, com alguns colegas e chefiados pelo “Chefe Miro” e acabou-nos a gasolina no carro que levámos (o Austin). Juntámos os nossos tostões e lá metemos mais combustível, que deu para seguirmos até junto dos “marinheiros” em Apúlia. Ainda lá fomos pedir ajuda, mas eles só usavam gasóleo e o nosso carro era a gasolina. Então lá tivemos de empurrar aquele carrão até à garagem, com entrada pelo largo do Cortinhal, já madrugada dentro.
De jovem também já gostava de futebol, mas como não tinha habilidade ía aos domingos ver os jogos que havia na Junqueira.”


O Carteiro de Fão

”Trabalhei sempre em Fão na distribuição de correspondência, mas nos primeiros anos, como só havia estação em Fão e Esposende, tinha de entregar noutras freguesias, como Fonte Boa, Apúlia, Rio Tinto e Barqueiros. Chegava a fazer 40 quilómetros por dia, quando havia colegas de férias ou doentes.
Nessa profissão ganhei muitas amizades pois era visto como bom mensageiro e um amigo da casa. Nesses tempos, que poucos tinham telefone, as novas dos emigrantes na França e Brasil e dos militares na guerra do Ultramar, eram aguardadas com muita ansiedade.
Poucas portas em Fão eram numeradas e por vezes tinha que adivinhar o destinatário. Comecei eu a numerar algumas ruas, o que aliás foi na maioria respeitado pela autarquia, quando procedeu à revisão da toponímia. Fui o primeiro fangueiro a trabalhar nos CTT, trabalhei com o João Carteiro e mais tarde ajudei aos primeiros passos do António Teixeira, João Barcelista, do Óscar Monteiro e da irmã e do malogrado José Lopes, um rapaz que poderia ter feito uma grande carreira.
Ao fim de 34 anos, reformei-me e a minha última entrega foi na zona das Pedreiras, uma zona onde gostava muito de andar e fiz muitas amizades.
Sensibilizou-me o reconhecimento dos fangueiros, que na hora da despedida me fizeram uma bonita homenagem. Também a Junta de Freguesia o fez quando fiz 25 anos de serviço, tendo também sido reconhecido pela empresa.”

br> Associativismo, o “bichinho” que se alojou para sempre

“A minha primeira e talvez mais abrangente experiência, foi no CF de Fão, começando na época de 1965/1966, como 2º Secretário da Direcção. O futebol, foi então a minha 2ª profissão e 2ª família e estive ligado ao clube directa ou indirectamente cerca de 30 anos.
Trabalhei com muitos outros carolas, o Adelino Saraiva, Luís Viana, Manuel Soares (“Neu Xita”), António Miguel, Marinho Matos do Vale, entre outros, mas colaborei com muitas direcções a que não pertenci, pelo meu grande amor ao clube.
Quando entrei o clube estava na 1ª Regional de Braga e a sede era na Travessa da Moira, tendo depois passado para a Rua de S. João e mais tarde para a sede no Ramalhão(Rua Artur Sobral). Essa sede foi conseguida como um protocolo entre a Junta liderada então pelo meu irmão Luís e o presidente da Câmara Eng. Losa Faria , aquando da construção do Bairro Social.
Foram tempos muito difíceis, em que não havia patrocinadores ou subsídios, era preciso muito sacrifício e mendiguice. Mesmo assim ainda conseguimos alguma obra, como a construção da sede, dos balneários e a iluminação.
O momento mais difícil foi nos anos 70, quando após 7 assembleias tivemos de reassumir a direcção, para o clube não acabar e a inscrição foi no último momento. Claro, que como já fomos tarde, foi difícil arranjar jogadores e descemos de divisão.
Contudo, apesar dos sacrifícios passados, tenho grandes recordações e guardei muitas e boas amizades. Tive várias manifestações de gratidão, desde antigas direcções, como por exemplo um quadro bordado com o emblema do clube oferecido pelo presidente Amândio Leite Faria e da própria Associação, que me reconheceu pelos serviços prestados ao futebol regional.”

Na parede de uma pequena sala, entre várias recordações podemos ver o tal quadro, vários emblemas e até uma bola do último “Fão-Esposende” jogado há 30 anos.
António Viana, deixou o futebol, porque se foi envolvendo noutras actividades, mas confessa, que o “bichinho” custou muito a passar, já que sempre o viveu de forma muito apaixonada, tendo inclusive desmaiado por 2 vezes em jogos que eram muito importantes para o clube. Na política, sempre por Fão

Ainda não tinha deixado o futebol e já se envolvia na política, tendo feito parte da Junta de Freguesia durante 4 anos, como Tesoureiro e fazendo vários mandatos na assembleia de Freguesia.
” Meti-me na política para servir a terra, mas actualmente penso que seja mais vista como um meio de promoção pessoal.
Tentamos sempre comemorar a elevação de Fão a vila, que agora tem sido um pouco esquecido, mas penso ser um acontecimento que merece ser celebrado, pois custou muito a várias pessoas. É que o resto do concelho foi contra a nossa promoção e muitos se moveram para o contrariar. Até a própria revolução de Abril, nos veio afectar, pois quando estava prevista para 28 de Abril de 1974, a elevação foi adiada e só aconteceu passados 2 anos.
Sinto, depois desta experiência alguma desilusão com a política, pois actualmente promete-se muito e pouco se cumpre, mas pessoalmente fico com a sensação do dever cumprido.
Sinto que isso foi reconhecido pela maioria dos fangueiros, que actualmente, se sentem um pouco desinteressados. Acho que Fão foi ultrapassado pelas aldeias, pois se no passado era a freguesia com melhores equipamentos, actualmente tem muitas carências. O Cemitério é ainda um bom exemplo, embora a capela esteja em mau estado. Uma das faltas mais evidentes é uma sede de Junta condigna, à altura que a vila merece.”


Comissões de Festas, Confraria do Senhor Bom Jesus e Cooperativa Cultural

”Fiz parte de várias comissões de festas do Senhor Bom Jesus, em tempos que era difícil arranjar dinheiro. Era uma luta para conseguir verbas a tempo e horas para fazer face a todos os compromissos. O sacrificado era quase sempre o fogueteiro “Gaspar Fernandes”, o último a receber às vezes com muito atraso. Tínhamos que negociar ao tostão, desde a Banda, ao Arraial e o Fogo, que eram as principais despesas. Nesses tempos, tínhamos de andar a pedir a várias pessoas para alojarem os músicos, para embaratecer a participação na procissão de segunda-feira.
Eu ficava muito aflito quando via não aparecerem receitas suficientes, mas o bom amigo António Miguel, era um optimista e dizia com a sua típica tranquilidade-“ O Senhor Bom Jesus nunca nos deixou ficar mal !”
Estas participações nas Festas teve muito a ver com a minha entrada para a Irmandade do Bom Jesus, há cerca de 30 anos e a pedido do Juiz (ou presidente) da Confraria de então o senhor Manuel Pinheiro Borda dando-me o lugar de secretário, numa direcção completada pelo tesoureiro, que era o José Domingues da Venda (Zé da Euláia).
Também como responsáveis da confraria tínhamos que solicitar a colaboração dos Irmãos Matias para a concepção dos tapetes de flores, cujo projecto era desenhado pelo José e depois com outras pessoas participávamos na sua construção. Pelo seu falecimento, tivemos este ano de assumir completamente a confecção do tapete e a pedido da Comissão de Festas, tive de liderar esta tarefa, com a colaboração de algumas pessoas, como a D. Emília Saraiva, Carlos Palmeira, Franklim “Carapuça” e sua esposa e a minha esposa Eduarda..
Neste momento, a direcção da confraria precisava de algum rejuvenescimento, pois é uma instituição com um importante espólio e rica história, que merecia maior atenção e disponibilidade,a que já não conseguimos dar a resposta adequada.
Finalmente, apareci na Cooperativa Cultural de Fão, a convite do senhor José Duarte, que foi a alma desta instituição, que no seu início estava virada para a recuperação de casas antigas e era constituída por muitas pessoas de fora da terra. Estou na direcção há 10 anos, que então abriu as portas aos fangueiros e uma forte dinamização cultural, cumprindo um vasto programa anual.
Também aqui, como noutras instituições tenho feito de tudo um pouco, mas o entusiasmo começa a esmorecer, por não ver muita motivação ao nosso redor e os apoios são cada vez menores.”


Entre a família e a terra uma relação de “bigamia”

“Digo bigamia, porque ambas amei apaixonadamente, com dedicação, prazer e empenhamento, embora por vezes descurando uma das partes e normalmente quem mais sofria era a família.
Casei em 1965 com a Maria Eduarda Graça Oliveira, que tive de preparar para repartir esta paixão, na qual a envolvia muitas vezes, a ela e até à minha irmã Berta. Arranjava serviços “extra” para ajudar as instituições, como por exemplo no tratamento de roupa, bandeiras e outros trabalhos de costura e lavores.
Quando estava no futebol, além de alguma falta de acompanhamento, também acabava por afectar pela minha indisposição, quando havia maus resultados. O meu filho muito pequeno começou a acompanhar-me para todo o lado e a sua companhia era reconfortante.
A paixão pela terra pode ter abrandado, mas continua acesa e adoro-a acima de tudo. Em Fão temos algumas referências importantes, como são o Hospital e os Bombeiros e as últimas direcções do CF Fão e Comissão de Festas, são bons exemplos de alguma vitalidade de pessoas mais jovens, que fazem falta noutras instituições. Um dos piores exemplos é o Clube Fãozense, que nasceu há mais de 100 anos com propósitos bem interessantes e agora está abandonado.
Contudo, penso que no geral Fão está um pouco moribundo, virado para outros interesses. Há a festa da cerveja, mas acho pouco, pois a terra é muito atractiva, mas é preciso maior dinamização e preservação das riquezas que ainda temos.”


Assim, foi esta conversa com o António Viana, um fangueiro dos “quatro costados”, humilde, sincero e frontal, que no seu pequeno “reino”, em cada parede ou recanto se encontra um naco da sua vivência, das suas paixões e das suas múltiplas experiências, com um denominador comum – FÃO!!!