ABEL DA COSTA
Nascido há quase um século bem no centro histórico da cidade do Porto, filho de um comerciante na zona do Carmo, o nosso interlocutor atingiu uma grande projecção como grande desportista, árbitro e dirigente desportivo, fundou e dimensionou uma empresa de louças e vidros que fez atingir prestigio além fronteiras e nas últimas décadas veio a fixar-se em Fão, terra pela qual se deixou encantar e para a qual muito contribuiu pelo seu envolvimento e benfeitoria, nalgumas das principais instituições da terra. Agora aos quase 98 anos, tenta preservar a saúde que o permitiu chegar a esta idade e para o qual muito terá contribuído o desporto praticado, atento ao bem estar sua filha que vive no Lar da Santa Casa e beneficiando da companhia de sua esposa e “enfermeira” Conceição, que o ajuda a conservar-se tão activo, como conduzir diariamente o seu automóvel e viajar assiduamente em distâncias consideráveis. Fão para além da ajuda na qualidade de vida, dá-lhe um certo prazer pelo respeito e amizade que vai conservando com muita gente, que lhe retribuiu e reconhece como alguém que foi e é um verdadeiro Amigo de Fão.
Pai e irmãos fotografia com mais de 90 anos
A cantar o “Quino” na pensão do pai
NF- fale-nos dos seus antecedentes e dos tempos da infância e juventude
Abel da Costa- ”Eu nasci na Travessa do Carmo, na freguesia da Vitória, bem perto do Hospital de Santo António, filho de Carlos Augusto e Maria do Rosário Costa, que eram de Celorico da Beira e se radicaram no Porto.
O meu pai chegou a trabalhar no quartel do Carmo a tratar dos jardins e serviços de manutenção e mais tarde casou e estabeleceu-se com uma pensão e adega. O Porto no tempo de criança em que frequentava a Escola do Carmo e mais tarde a Infante D. Henrique, onde fiz o 2º ano do secundário, era uma cidade muito calma em relação a agora e podia-se brincar à vontade na rua, com algum comércio pequeno centralizado mais na zona de Carlos Alberto. Só me lembro um dia de uns soldados da Guarda Republicana a cavalo chegarem ao quartel feridos, por um qualquer conflito daquela época, que não posso precisar vindo do lado da ponte D. Luís.
Muito novo fui ajudar o meu pai na pensão, havendo naquela altura a tradição do jogo do “quino”, que juntava ali muita gente e eu aí com os meus 14 anos era que cantava os números, claro que isso dava-me certa popularidade entre os clientes.
Por essa altura começo a praticar desporto, começando pelo futebol no Sport Clube do Carmo, que jogava num campo no Carvalhido. “
Recusa de ser profissional no Boavista
NF- Sabemos que foi um grande desportista, quer-nos contar o seu percurso como atleta?
Abel da Costa- ”Mas enquanto jogava futebol também participava em várias provas de atletismo e ciclismo. Venci o 1º Cross Popular para Infantis (no palácio de Cristal), em Atletismo, a prova Record de Ciclismo do Porto e o 1º Prémio Ciclo-Pedestre, tipo o actual Duatlo, que era corrido na Circunvalação desde o Freixo ao Castelo do Queijo. As bicicletas eram alugadas numas casas que havia ali no Jardim da Cordoaria. Com 14 anos já jogava futebol com os adultos no Carmo, mas aos 18 fui para o SC Coimbrões, onde joguei durante 8 anos nos campeonatos regionais, tendo sido treinador da equipa nos últimos 2 anos. Fiz parte várias vezes da Selecção Regional e fui convidado a jogar pelo Boavista que se deslocou a Lisboa para defrontar o Sporting. Nesse jogo perdemos 2-3, mas eu marquei os 2 golos dos axadrezados. Então a direcção do Boavista convidou-me a ser profissional no clube e oferecia-me naquela época (anos 30) 20 contos para assinar e 1.900$00 por mês. Mas eu não queria enveredar pelo profissionalismo e tentava preservar o meu emprego, até que em 1940 alistei-me para árbitro de futebol, o que fiz durante quase 20 anos.”
Na equipa do Coimbrões em finais dos anos 20 (primeiro em baixo à direita)
De empregado de loja de retalho a empresário de sucesso com 100 empregados
NF- Entretanto profissional e pessoalmente como foi organizando a sua vida?
Abel da Costa- ”Aos 18 anos fui trabalhar para uma loja de retalhos nos Caldeireiros e aí estive até casar, depois de ter cumprido o serviço militar no regimento de Infantaria 18, que era na Lapa, onde agora é o Quartel General.. Mais tarde decidi estabelecer-me por conta própria, abrindo uma loja e armazém de louças, vidros e materiais de construção, que mantive durante muitos anos na rua da Alegria, primeiro como retalhista e mais tarde venda por junto. A empresa cresceu muito e mais tarde entramos nas exportações, com um grande destaque para os Estados Unidos, até que chegou a ser a maior do ramo no país, com filiais em várias cidades como Lisboa, Santarém e Maia, onde arranjamos um lugar de maior dimensão na zona industrial, onde ainda se situa, apesar da empresa já não me pertencer, pois acabei por vendê-la a familiares e sócios, mas chegamos a ter 100 empregados. ”
Entrada em campo com as equipas do Nice e Real Madrid em 1960
Árbitro internacional que marcou penalty contra o Campeão Europeu Real Madrid
NF- Mas o seu maior prestigio foi sem dúvida como árbitro. Quer-nos contar como foi esse percurso e algumas histórias dessa grande experiência?
Abel da Costa- ”Realmente foi e penso que muito poucos em Portugal terão chegado tão alto. Comecei como árbitro tinha já 27 anos e histórias haveria muitas para contar, mas muitas delas são desagradáveis como sempre acontece a quem anda nesta actividade. Fui árbitro nos regionais durante algum tempo, depois de ter frequentado a escola de arbitragem e depois fui para os quadros nacionais até chegar a internacional.
Caricatura de um jornalista francês, num jornal da época
Como internacional fiz muitos e memoráveis jogos, entre clubes e selecções, mas o que mais deu que falar foi um Nice-Real Madrid, sendo esta última a grande dominadora da Europa e era já “tri” e único vencedor da Taça dos Campeões Europeus, num jogo nos quartos-de-final dessa competição.
Nessa equipa pontificavam alguns dos melhores jogadores de todos os tempos como Kopa, Di Stéfano, Puskas ou Gento e era treinador o paraguaio Solich, mas foi o seleccionador da Espanha Pedro Escartin quem o criticou quando decidiu marcar uma grande penalidade a favor do Nice. O Real Madrid veio a vencer esta Taça na final por 7-3 frente ao Frankfurt e a Taça Intercontinental.
Mas toda a imprensa europeia foi unânime em considerar a minha actuação notável e o jornalista e director do jornal “A Bola” bem o frisou na 1ª página do jornal, onde diz que Escartin deveria pedir-me desculpa, pois as imagens da televisão comprovaram que aquele “penalty” havia sido bem assinalado. Mas naquele tempo já havia muito jogo de influências e muitas vezes apesar dos convites que recebia, era preterido por outros da capital.
Jogo dirigido entre as Selecções da Espanha e da França
Foi o que aconteceu quando a Federação da Venezuela me convidou para ir arbitrar uns jogos internacionais no país e mandaram outro, mas que lá rejeitaram. Também fui designado para a Taça Latina e quando lá cheguei colocaram-me como fiscal de linha. Depois de deixar de ser árbitro entrei para a Comissão de Arbitragem do Porto e mais tarde na Comissão Central até 1975.
Num At.Madrid-Hbernians
Aceitei isso para tentar que os árbitros fossem dirigidos pelos árbitros, pois na capital havia quem lutasse contra isso e a minha luta foi em vão, por isso abandonei de vez o futebol. Pelo meio também era frequentemente nomeado para os exames dos candidatos a árbitros em todo o norte do país.”
Benfica-Sporting em Lisboa
Galardoado com a Medalha Desportiva
NF- E foi reconhecido por todo esse percurso?
Abel da Costa- ”Fui sim, principalmente por distinções vindas de Lisboa e não tanto aqui no norte. Deram o meu nome a uma escola de arbitragem, e a um torneio, tendo tido muitas referências elogiosas por várias alturas em todas as instâncias do futebol e da arbitragem nacional, até que em 2005 fui distinguido com a Medalha Desportiva, que recebi das mãos do Secretário de Estado Dr. Laurentino Dias, em Fafe.”
A Medalha Desportiva
No Japão viu o Porto vencer a Taça Intercontinental
NF- Depreende-se que tenha viajado muito, pelas suas diversas actividades…
Abel da Costa- ”Sim, como árbitro conheci alguns países, mas na minha actividade profissional também viajei muito. Na minha empresa eu comecei a correr o país para vender os nossos produtos, da empresa que ainda hoje tem o meu nome. Mais tarde, quando passamos a exportar, comecei a estar presente nas feiras internacionais como Milão e Hannover.
Recebendo o galardão das mãos do Secretário de Estado do Desporto
Mas claro que também viajei em férias e ainda há alguns anos ia no verão a Benidorn e fui ver vários jogos internacionais do FC Porto, alguns deles históricos, foi no Japão, quando conquistaram a Taça Intercontinental. Muitas destas viagens para ver o Porto fi-las com o Celestino Cubelo, que é um amigo que tive o prazer de conhecer em Fão, com ele conviver e trabalhar na Santa Casa da Misericórdia de Fão.
Comprovativo da Medalha
Curiosamente, em Portugal, onde tenho livre acesso pelo cartão vitalício que tenho da FPF, nunca fui ao futebol e até hoje não o usei.”
Cartão de livre trãnsito vitalício da FPF
Pescador amador apanha peixe com 19 kg
NF- E como e quando aparece em Fão?
Abel da Costa- ”Comecei a vir para cá com o meu cunhado José Gandarela e fazíamos um tipo de campismo selvagem, perto da Senhora da Bonança. Trazíamos a família e tendas, que ficava lá num terreno durante a semana sem ninguém lhe mexer. Estávamos nos anos 70 e passávamos ali bons tempos, fazíamos a comida, íamos à praia e às vezes à pesca. 
Com José Gandarela e Guedes exibindo o a corvina de 19kg
Eu não era um grande pescador, mas um dia pesquei uma corvina com 19 kilos e aquilo deu brado e de certa forma entusiasmou-me ao ponto de ter comprado todos os apetrechos para a pesca, que comecei a fazer com o meu cunhado em várias zonas neste litoral até Viana eu o meu cunhado, o seu irmão e o Guedes. Os peixes que pescávamos dávamos à Santa Casa, mas aquela corvina foi embalsamada qual troféu e ficou em casa do meu cunhado, ali perto do restaurante “3 Arcos”. “
Artigo na imprensa destacando a sua carreira
Na Cooperativa, Clube Fãozense, Bombeiros, Misericórdia e Lions
NF- Entretanto, depois começou a vir com mais frequência e a envolver-se nas instituições da terra…
Abel da Costa- ”Bem, mais tarde decidimos alugar casa em Fão, a primeira delas no Largo do Fontes e depois outra em frente à igreja da Misericórdia. Até que mais tarde comprei uma casa perto do Bom Jesus, onde comecei a passar mais tempo, pois já tinha deixado o negócio, que entretanto passara a um sobrinho e um empregado a quem já tinha dado uma quota.
Homenagem do Lions Clube
Comecei a frequentar o Clube Fãozense onde conheci grandes homens e fangueiros como o Padre Avelino, o Padre Borda e o Celestino Cubelo e aí cheguei a ser presidente. Tentei criar uma secção de canoagem e para o efeito comprei 2 canoas, mas as pessoas não estavam viradas para o desporto, mas sim para o jogo e demos as canoas ao Né Vieira, que as pediu para o Clube Náutico que estava a dar os primeiros passos. Se deixei a minha empresa por questões de ética, aqui aconteceu o mesmo, pois não concordava com o destino que o Clube estava a seguir com o jogo a dinheiro, ao ponto de ter visto mulheres a virem reclamar com os maridos que gastavam ali o “pão” dos filhos. Bem tentei acabar com aquilo mas não consegui e lembro-me inclusive de ter sido chamado ao Governador Civil por causa do que se constava sobre o Clube Fãozense, mas ainda estive envolvido na colaboração de Revistas com o Carlos Palma Rio e o Zé Maia..
Discursando no 20º aniversário da Cooperativa Cultural
Por outro lado, o Celestino “arrastou-me” para a Santa Casa da Misericórdia, onde fui vice-Provedor durante algum tempo e aí me dediquei com corpo e alma e sempre com toda a disponibilidade, embora tenha saído mais tarde contra a sua vontade. Fão deve o grande crescimento do seu Hospital, ao Celestino que tem feito ali um trabalho extraordinário.
Entrei também para a direcção dos Bombeiros, onde fui presidente durante 7 anos de 1983 a 1990, estando ligado á ampliação do quartel, pois consegui com o Padre Avelino negociar da melhor forma a compra da casa ao lado, para o qual adiantei o dinheiro (2mil contos) e foi uma obra que a todos nos orgulha. Mas também aqui tive o meu tempo, apesar de ter sempre contribuído para a associação como para outras que me solicitem.
Casa de Castelões (Guimarães)
Estava a esquecer-me da Cooperativa Cultural, da qual fui sócio fundador e que muito me agradou se terem lembrado disso no seu 20º aniversário, tendo participado tal como este ano nas comemorações. Também fui sócio fundador do Lions Clube de Esposende, que também foram muito simpáticos comigo e me fizeram uma bonita homenagem no meu 92º aniversário, com a entrega de uma placa num dia em que me invadiram a casa aqui nas Pedreiras, onde agora moro.”
Admirador do Padre Avelino, Padre Borda e António Gomes do Baixo

NF- Sente que valeu a pena esse empenho por Fão e que é reconhecido por tal?
Abel da Costa- ”Claro que sim, eu sempre gostei desta terra e as pessoas são simpáticas comigo, respeitando-me e estimando-me, que penso ser recíproco. Claro, que como noutros sítios há pessoas que por vezes se servem dos lugares que ocupam e as politiquices estragam as relações e as boas intenções e para mim tirar partido disso não é correcto, daí que me tenha afastado de certas coisas. E como desapareceram homens como o Padre Borda, o Padre Avelino e o António Gomes do Baixo, eu senti essa grande perda para Fão.”
Num dia de Natal, uma nova e feliz companhia
NF- Já em Fão também refez a vida familiar…
Abel da Costa- ”É verdade, primeiro foi onde arranjei o melhor local para ter a minha filha Angelina, que se tratou no Hospital e ainda vive aos 72 anos, no Lar da Santa Casa da Misericórdia. Depois foi a doença e falecimento da minha esposa e mais tarde o ter conhecido a Conceição, que era enfermeira no Hospital de Fão e com quem haveria de casar há já cerca de 20 anos. Depois de enviuvar senti que não podia ficar sozinho e a Conceição foi a melhor companhia que poderia ter arranjado, pois é uma grande mulher, uma boa companheira e melhor “enfermeira” que um homem da minha idade sempre carece. A Conceição era enfermeira parteira no Hospital da Póvoa e fazia serviços no de Fão, onde a conheci, mas é natural de Castelões, em Guimarães, terra onde também construímos uma casa onde passamos os fins-de-semana, juntando-nos muitas vezes com os seus irmãos, que vivem na maioria ( e são 9) ali perto. (Confessou-nos ter andado numa ordem religiosa, mas depois viu não ter vocação apesar de como tal já praticar a enfermagem, pois tinha tirado o curso e veio para a Póvoa, aproveitando o tempo livre para fazer serviços no hospital de Fão). Tudo se decidiu numa noite de natal, em que a convidei a ir jantar a minha casa com a minha filha e daí a casarmos foi um pequeno passo. Pequeno mas muito acertado e importante, pois tem sido uma grande companheira.“

Com a esposa Conceição
NF- A que pensa que deve o facto de chegar a esta idade, tão activo e como ocupa o seu tempo?
Abel da Costa- ”Devo-o principalmente ao facto de ter praticado muito desporto. Claro que também sempre me cuidei, nunca cometi grandes excessos e levo uma vida bem regrada e beneficiando dos cuidados da Conceição. Actualmente vivo com menos fulgores, faço por estar mais perto da minha filha e acompanhar a minha esposa, com quem vou todas as semanas à sua terra em Guimarães, onde está a outra nossa casa e uma família de gente muito boa com quem nos damos muito bem. De resto levo uma vida mais calma, aqui por casa, dando as voltas necessárias de carro mais pequeno aqui por perto e usando o Mercedes para as viagens maiores, pois é outra segurança. “
NF- Sente que Fão tem boa qualidade de vida?
Abel da Costa- "Acho que sim. Um bom Hospital, Centro de Dia e o Centro de Saúde, trabalham todos muito bem, e são uma mais valia para toda a população e muito especialmente para as pessoas da minha faixa etária. Aqui há praticamente tudo o que precisamos e isso nem todas as terras desta dimensão o tem, por isso gosto também e é bom cá viver.”
Foram momentos agradáveis passados com este casal, tendo passado por várias gerações no tempo que tem vivido Abel da Costa, que nos enriqueceu com o seu interessante testemunho, de um homem que como muitos outros se deixou encantar por esta terra, onde deseja passar os seus últimos tempos e para a qual muito contribuiu. Foi, como escrevia alguém numa revista, “um grande exemplo” no desporto, como atleta, árbitro e dirigente, exemplo esse que também poderemos estender á nossa comunidade, onde não proliferam muitos homens com a sua postura e dedicação. Recordar com… Abel da Costa, foi como ler vasto capítulo de um valioso compêndio de história.
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