ROSÁLIA GONÇALVES DIDIER
MARIA JENY CARNEIRO FERNANDES
Desta vez decidimos juntar duas senhoras com algumas particularidades comuns. Ambas nasceram e viveram sempre em Fão, vizinhas na rua Padre Gonçalo Viana, também conhecida como “rua da Igreja”, de famílias respeitáveis, com várias experiências comuns, desde a infância, juventude e já adultas. Também em simpatia, cultura, amor a Fão e um certo charme as enquadra no melhor que ainda temos nas pessoas de Fão, tendo sido um privilégio esta nossa “cavaqueira”.
A D. Rosália, conhecida por “Zairinha Turra” e que nasceu em 1926, é filha do Sebastião “Tróia” dos Santos Didier e da “Miquinhas Turra” (Maria Mendes Gonçalves Didier), que foi a mulher que até hoje mais anos viveu em Fão: 105 ! Esta senhora, que manteve uma grande lucidez até aos últimos dias de vida, foi um autêntico património vivo, com a sua excelente memória e as histórias que contava de todo o século passado. Claro que a sua filha considera que por isso, também colheu muitos ensinamentos, transmitidos pela mãe, sobre muitos acontecimentos, histórias e tradições.
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A D. Jeny Fernandes, que nasceu um ano mais cedo, era um dos 4 filhos da D. Rosália Gonçalves Carneiro Fernandes e de Emílio Fernandes, um comerciante que tinha um dos melhores estabelecimentos de tecidos da região, a “Chique Parisiense”.
A primeira loja era onde mais tarde foi a Casa Penetra e depois passou para a casa da “Gena do Pote” , agora do Manuel Curto e finalmente, foi para a rua Padre Gonçalo Viana, na casa que compraram e passaram a viver e onde a D. Jeny ainda habita, que foi encerrada após o assassínio da irmã Edite, no Congo.
D.Jeny“Na época, a loja do meu pai tinha de tudo para a confecção e acessórios de vestimentas, pois não existiam os pronto-a-vestir. Desde chapéus, gravatas, luvas, xailes, écharpes, botões, entretelas e uma grande variedade de tecidos. Em Fão, apesar de haver várias casas, não faltavam clientes, não só da população local, mas de muitas terras vizinhas e, claro, os alfaiates, que também eram muitos.”
Zairinha“ A nossa rua (da “igreja”), já era muito movimentada, embora ainda de terra batida, existia um dos muitos pátios de Fão, dos quais e infelizmente poucos sobreviveram. Era o Pátio da Georgina Borda, com 2 colunas, saído para a rua e virado para a igreja Matriz. Eu já morava na actual casa, herdada do meu trisavô e construída em 1759, onde minha avó chegou a vender peixe.”
Falando no século XVIII, a D. Jeny revela-nos ter em sua posse um livro de registos dessa época, que estariam com seu avô João Victor Carneiro, que havia sido comandante na Marinha Mercante, que deveria ter algum cargo ligado à paróquia e terá ficado com esses registos, talvez devido à construção da nova residência paroquial e á polémica da substituição do pároco, que se viveu em Fão.
D.Jeny“A substituição do Padre Azevedo nos anos 20, causou uma enorme celeuma entre a população e quem sofreu foi o Prior António Nogueira, que veio para o seu lugar.”
“Num funeral que se realizou na que é agora a rua com o seu nome, o Prior Nogueira, na actual casa da Mitó Ramalho, viu-lhe ser retirada a estola pelo senhor Silva. “
Zairinha“Houve na altura muitos casamentos de fangueiros, realizados em S. Claúdio (Curvos), para onde foi transferido o Padre Azevedo.”
Do Padre Gonçalo Viana, que foi um marco importante para o desenvolvimento de Fão na segunda metade do século XIX, minha mãe que o conheceu, disse que era vizinho da sua tia, perto da Pedra Alta e a cumprimentava dizendo: -Olá vizinha de um anjo!”
D.Jeny“Meu avô, tinha por costume registar tudo o que se passava de relevante, não só na família, mas também na freguesia, tal como devia fazer a bordo dos navios. Mas o meu pai esteve ligado à imprensa, que no princípio do século tinha muita actividade. Foi fundador e administrador do semanário “O Grulha”, que teve o seu número 1, em 27 de Março de 1919 e cujo director era Cândido Nunes Vinha. Após 127 edições, foi substituído, em 1923, pelo ”O Notícias de Fão” de que também era administrador, mas agora sobre a direcção do Padre Jerónimo Chaves. Depois ainda esteve ligado ao “Ecos da Beira-Mar”, a partir de 21 de Abril de 1924 e com a direcção do Padre Avelino Borda.”
Um importante testemunho e de seguida nos deixou ver todos esses jornais, guardados como verdadeiras relíquias, que de facto o são para a história de Fão e entre os quais estavam também os 12 exemplares do “O Má-Língua”, dirigido pelo Padre Chaves e que antecedeu o ”O Grulha”, cujo nº1 foi publicado em 2-10-1918.
Um bom espólio, que só por si nos entusiasmaria durante muitas horas e nos perderia neste propósito de ouvir estas elegantes senhoras.
Não poderia deixar de referir alguns postais que devem ser dos anos 20, editados pelo pai da D. Jeny e pelo avô da Zairinha, “Inácio Turra”.
Se Emílio Fernandes, teve enorme protagonismo por ter estado ligado às principais instituições de Fão, Inácio Gonçalves “Turra”, foi um artista ímpar.
Zairinha-“Meu avô tinha a sua oficina junto ao rio, onde ficava também a Casa da Alvaíade, fábrica de tintas do sr. Gomes da Costa e a Guarda-fiscal. Depois veio para onde hoje estão os correios. Era um artista muito conceituado fabricando desde mobiliários, a portas e janelas, como as do nosso hospital, até instrumentos de música, como violinos, guitarras e pianos. Foi ele que construiu o órgão da nossa igreja”
Uma imagem da infância
D. Jeny”No largo em frente à casa do “Minguinhos” brincava à “viana”, com outras colegas de então, a Lúlú, a Quinhas, a Zairinha e Linda Torres, a Geninha do Penetra e as minhas irmãs Edite e Arlete”
Zairinha”Lembro ainda muito bem, muito pequena, ver as mulheres que passavam na praça, que vinham de trabalhar nos Estaleiros Navais em Esposende e cantavam uma modinha assim:
Adeus trabalhos da doca
Perdição das raparigas
Adeus cais de Esposende
Onde mora o salva-vidas.
E da juventude?
Zairinha”Muitas boas recordações, mas também algumas tristes, como foram as mortes de muitos jovens, principalmente de doenças pulmonares.
Os exemplos que mais me marcaram foram a morte do “Tininho Glória”, filho do Ernestino Sacramento, com 18 anos e da “Carminha do Pires”, também adolescente e lembro o Dr. Júlio Pimenta, que nos assistia, recomendar a todos o uso do “sabão de barra”, para melhor desinfecção.
D.Jeny”O Carnaval era muito divertido ! Já andavam alguns “Entrudos” pelas ruas e atiravam-se as “cacadas”, que eram loiças velhas e azeitonas mal cheirosas. Por isso, naquela altura ninguém pintava as casas, mas no entanto, as pessoas não tomavam a mal estas brincadeiras.
Depois tínhamos os bailaricos de Carnaval, que eram muito ansiados pela juventude de então que se reunia no Clube Fãozense.
Entretanto, foi criado o “Clube dos Grulhas”, que apareceu como alternativa para os mais jovens e humildes se reunirem e divertirem, sem irem para as “tascas”, únicos locais de convívio.
Em Agosto e Setembro também havia todos os dias baile no Clube. Nós éramos acompanhadas pelos pais ou outro familiar mais velho e rapazes, para além dos de Fão, vinham muitos de Esposende, Barcelos e Necessidades. O dr. ”Zé Emílio”, que não dançava, era normalmente o “disco-jockey” de serviço e era um animador nato.
Um espectáculo que não perdíamos no verão, era ver as mulheres que vinham de fora, tomar banho na praia vestidas. Como a roupa depois de molhada ficava colada ao corpo, viam-se os trajes interiores e claro, era uma risota geral.
As Serenatas começaram a surgir nos anos 40, quando vinham de Esposende os “Viana”, os “Sá” e os “Carvalhas” ainda estudantes, em carro de cavalos. Lembro de cantarem à minha prima Aracy, em cima da carroça, na subida que dá para a rua dos Veigas. Também as faziam em frente à casa da D. Belmira Vila Chã “do Lau”, mas uma empregada às vezes vinha atirar-lhes urina, para os afoguentar”.
Zairinha ”O Diamantino e o Mário foram os grandes impulsionadores em Fão das serenatas. Quando eles nos vinham cantar, era um silêncio absoluto mesmo por parte dos que passavam e paravam na rua, mas ao princípio, ninguém vinha à janela de noite e todos escutavam deliciados. Apagando e acendendo as luzes 3 vezes, era a nossa forma de agradecimento”.
D.Jeny”Tínhamos uns primos de Barroselas, que traziam outro primo marinheiro e vinham todos os anos a Fão, tocavam piano em casa da Aracy e animavam os nossos serões.
Mas o Clube era o centro da nossa atenção e divertimento, de onde surgiram vários casamentos, de rapazes que vinham passar o verão a Fão. Olhe, lembro-me do sr. João Esteves que trazia os filhos, o António e o Luís, que era assíduos frequentadores, enquanto o pai se dedicava à caça que fazia com o “Ascânio Secura”. Lembro bem, quando fechava o clube dos passeios, que fazíamos, em grupo, à praia de noite.
Naquele tempo as senhoras eram muito devotadas, mas as mais “assíduas” na igreja, eram apelidadas de “Ratas da Sacristia”.
Zairinha ”A D. Sara era das senhoras mais ligadas à igreja e em sua casa faziam as hóstias, organizavam e distribuíam, caridade. O Prior Nogueira era uma frequente visita em sua casa e por isso essa foi apelidada de “Vaticano”.
D.Jeny”Lembro-me de em 1945, tinha chegado o Artur Sobral do Brasil e lembrara-se de fazer um baile no “Galo d’Oiro”, para comemorar o fim da II Guerra Mundial. No dia seguinte, de manhã, o Prior Nogueira deu uma grande reprimenda, pois naquele baile até tinha pessoas que não iam à igreja.
Quiseram fazer outro logo de seguida, como pequena “vingança”, mas as meninas e senhoras de então não aceitaram, por ser altura do Tríduo Eucarístico e foi adiado. Naquele tempo havia muito respeito pelas solenidades. Nesses bailes, às senhoras não era permitido pagar qualquer despesa, mas a maior parte das que iam comungar ao outro dia, não tomavam nada a partir da meia-noite.
Os Banhistas “Amigos de Fão”
Zairinha ”Aos sábados era costume haver um pequeno arraial com petiscos no “Galo d’Oiro” do Manuel Ferreira (“ do Antero” ) , organizado pelos banhistas que começaram a “invadir” Fão no verão e criaram o “Clube Amigos de Fão”.
A chegada do Verão e dos banhistas, era esperada com muita ansiedade, as senhoras “Mouras”, eram esperadas por muita gente no Largo da Praça ou no Rufino, onde parava o autocarro do Linhares. Elas (Judite, Túlia, Alice, Emília, Júlia e os irmãos Eurico e Armando) eram pessoas muito divertidas, que organizavam muitas actividades. Faziam muitas festas, gincanas e jogos tradicionais na zona do “Campinho”, tardes de apanha às ameijoas na barra, piqueniques na Barca do Lago e Marachão e até um teatro no Salão Paroquial.
Nesse tempo, lembro-me de outros banhistas entusiastas por Fão como o Almeida Dias, avô do dr. Fráguas e também fundador dos “Amigos de Fão” como o dr. Franklim Nunes, os Madureira pai Germano e filho José, os arquitectos Magalhães e Júlio Oliveira, Leite Rosa, Dr. Sampaio e Castro, os Carvalhos de Barcelos e muitos outros”.
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D.Jeny “E também me recordo da ida às festas de S. Bartolomeu de bicicleta… E o baile final nos bombeiros, era uma despedida em grande dos banhistas, no final do verão.
Entre a família e a terra..
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D.Jeny”Eu sempre fui desde jovem muito tímida e muito apegada à família, participava em várias actividades, mas sempre com outros jovens ou com outras senhoras, conseguia me relacionar bem socialmente, mas nunca me envolvi em qualquer associação. A minha irmã Arlete, ainda entrou nas revistas, das quais o meu pai chegou a ser o organizador do mapa e bilheteiras no salão.
Com o falecimento do meu pai, fiquei mais dedicada a minha mãe, que viu partirem meus irmãos Lourival e Edite para o Congo. Depois veio o terror da guerra, em que estivemos 9 meses sem notícias deles e depois quando soubemos da morte da Edite e do marido…Foi terrível! Isso marcou-nos muito e por muitos anos.”
Zairinha”Eu estive sempre mais ligada à igreja. Fui muitos anos catequista, fiz parte das “Filhas de Maria” e do Grupo Coral no tempo do Padre Manuel Borda, de resto, tal como a Jeny e várias senhoras, participámos em várias angariações e colaboração nalguns eventos, como por exemplo, as inaugurações da Cantina Escolar e da Residência Paroquial.
Eu também acabei por ficar sempre ao pé de minha mãe, com quem tive a felicidade de aprender muitas coisas e ouvir histórias fantásticas do passado.
Muitas foram as pessoas que a procuravam para recolher informações sobre os tempos mais longínquos. Foi mesmo um grande privilégio tê-la até àquela idade (105 anos), com tal clarividência de ideias.
A festa do seu 100º aniversário foi inesquecível! Reuniram-se cerca de 100 pessoas no Bar de Fão, com um discurso muito engraçado do meu irmão Berto, uma bela poesia do “Zé Pio” e uma serenata no final.
Neste vosso considerável percurso, que acham de Fão actualmente?
D. Jeny” Sinto-me muito bem na minha terra e registo a melhoria do nível e alguma qualidade de vida. Mas, penso que o comércio local, comparativamente com outros anos está pior, temos muitas casas arruinadas…Mas talvez o pior seja a própria sociedade, com muita falta de respeito, pouca união dos fangueiros e demasiada ambição. As pessoas querem mais que as nossas possibilidades e o que se faz é muito criticado.”
Zairinha”Eu também não trocava Fão por terra nenhuma, mas muitos dos lamentos da Jeny são justificados. Olhe por exemplo a falta de um mercado, é falta importante.
Destaco os Bombeiros e o Hospital, que são duas instituições que nos devem orgulhar, o Museu da Misericórdia…O Bom Jesus, é um lugar muito bonito! Aliás, ainda conseguimos ter alguns belos recantos para um passeio agradável.
E assim, uma tarde inteira, que passou célere de tão enriquecedora e agradável, em que estas duas distintas senhoras, nos “levaram” a um passeio por mais de um século de recordações… Com um sabor a pouco, tal o manancial de conhecimentos, vivências e documentos, de indescritível valor, sobre esta terra, a sua história e alguns que a foram fazendo e prestigiando.