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MARIA JOSÉ BORDA DIAS COSTA

A ”Zézinha Borda”, como foi sempre conhecida pela maioria dos fangueiros, nasceu em Fão no ano de 1928, neta de José Dias dos Santos Borda, de uma família de construtores navais, vindo viver com seu tio Antonino, um homem multifacetado e que marcou uma geração de grandes artistas fangueiros.



De Barqueiros para Fão ainda criança

NF- Quais as suas origens e lembranças mais antigas?
Zézinha - ”Eu nasci em Fão, mas por motivo de doença de minha mãe Maria dos Santos Borda, que vivia em Barqueiros, vim definitivamente para Fão com 7 anos, para viver com minhas tias Isaura e Amélia e meu tio Antonino, que já viviam nesta casa no cais e tinham outro irmão chamado Amadeu que foi ainda criança para o Brasil. Comecei a escola em Barqueiros, mas ainda durante a 1.ª classe mudei-me para Fão, tendo sido aluna de minha prima Zulmira Borda.”.

Passeios de barco, festas das Alminhas e as cheias

NF- Desde sempre ligada ao cais e ao rio, quais as recordações mais marcantes aqui passadas da infância e juventude?

Zézinha- “Sim aqui o cais tinha muita vida, com os pescadores e lavadeiras em grande número a darem grande animação. Lembro-me muito bem das cheias, logo nos anos 30, de muito maior dimensão que as mais recentes, pois não havia as barragens de agora e chovia bastante mais. A água entrava pela casa dentro e cobria 4 degraus das escadas, daí que nós para sairmos tínhamos de colocar cadeiras até à porta, para apanharmos um barco que nos levava até perto da casa do “Lapa Pinta”.
Algo que nos alegrava muito eram as festas das Alminhas, quando vinha para Fão o “Internato do Porto”, que com a sua música, fazia com que o Cais fosse invadido por toda a gente de Fão.
E depois, havia os passeios à Barca do Lago, então nos dias da Festa da Senhora do Lago, toda a gente que tinha barco, abalava com a família e o “piquenique”, para Gemeses. Para nós jovens era uma grande alegria. Mas fazíamos outros passeios e até chegámos a subir o rio até Barcelos, passando inclusive nos açudes. Mas, muitas vezes e mais tarde eu própria pegava num barco e ia rio acima, que era uma coisa que muito me agradava. Ah!...e muitas vezes chegávamos a ir às desfolhadas de barco na zona de Fonte Boa. Quem também o fazia muitas vezes era o Dr. Martinho, que fazia férias em Fão e levava consigo o “Tião Folheteiro”, que uma vez não me deixou regressar sozinha, deu-me boleia e o Tião depois trouxe o meu barco.


Tio Antonino, uma figura ímpar

NF- Numa família de antigos mareantes, a vivência com seu tio Antonino, deu-lhe a conhecer um homem conhecedor de barcos, navegação e outras artes…
Zézinha- ”Sim, meu avô ainda construiu uns barcos, mas de menos relevância e o meu tio Antonino, também construiu alguns dos seus próprios barcos, de pequena dimensão para navegar no rio. Ele tinha certificação para navegar e era mestre de estacada, possuindo todo o material para isso, barcos, redes e a própria estacada. Naqueles tempos em Fão havia 3 estacadas e 2 em Esposende, mas alternavam na sua colocação, obedecendo a “timmings” certos, de forma a que a lampreia pudesse sobreviver, o que não veio a acontecer mais tarde, quase a levar à extinção dos ciclóstomos, com caça a toda a hora e dias da semana. A época era só entre 15 de Janeiro e 15 de Junho, mas isso depois foi desrespeitado e isso foi uma atentado à preservação da espécie. Meu tio Antonino tinha 2 barcos grandes e um pequeno, feitos em casa com a devida manutenção, herdando a veia do seu pai e ainda chegou a trabalhar nos estaleiros com o pai do Padre Borda, do grande construtor que foi o mestre José dos Santos Borda Júnior. As redes naquele tempo que eram de fio, tinham de ser retiradas para secarem, senão apodreciam e ficavam a secar, penduradas na parede do quintal da casa, do lado do rio. Agora com as rede de “nylon” elas podem ficar lá permanentemente e não há esse risco. Ele para além disso, estabeleceu-se como armador e montou uma funerária, também cá em casa. Por esses tempos as procissões em Fão tinham outra dimensão, mas também vestíamos muitos “anjinhos” para outras procissões de outras terras, como por exemplo uma de S. Veríssimo que chagava aos 150 figurantes. Há cerca de 50 anos, ele organizou uma procissão na inauguração da igreja da praia da Afurada, que saiu de perto da Ponte D. Luís, em que as imagens dos andores foram dentro de barcos. Também participou numa grande exposição em Lisboa, com trabalhos regionais e ornamentações que durou vários meses. Ele realmente era um artista e “tocava vários instrumentos”, lembro-me de como ele decorou sumptuosamente a nossa cantina na sua inauguração. Mas também fazia carruagens aqui em casa desenhadas por ele e para isso tinha uma forja, onde trabalhou o Alberto Belo e mais tarde o Augusto Ferreiro, para fazer todas as ferragens e carpinteiros, como o Martinho e o Gualdino, para as partes de madeira e ele próprio chegava a coser os estofos em lona e rede de pesca. Uma altura até fizemos uma rede, que eu própria cozi, para o campo de ténis do Hotel Ofir, a pedido do Sousa Martins. Mas o meu tio também foi um homem que se envolveu muito nas primeiras revistas de Fão e foi várias vezes com o Penetra, Querobim e Ernestino, ver revistas ao Porto. Depois colaborava nos cenários e vestir das raparigas, no qual também cheguei a colaborar e até tivemos aqui algumas mulheres a costurar as roupas.”

O cais, o rio e a ponte

NF- Viver aqui junto ao rio e ao cais, em tempos que havia tanto movimento, mesmo ainda sem os bombeiros, deve ter gravados vários acontecimentos…
Zézinha- “Sim, é verdade! O rio com tantos pescadores e a azáfama que havia no tempo do “barguear”, o tratar das redes, o partilhar dos “quinhões”. As lavadeiras enchiam o cais e havia sempre grandes discussões e até conflitos, por um lugar mais privilegiado (o lugar da ponta). Eram figuras de destaque nos tempos mais antigos a Palmira “Libânia”, a Felicidade “Moleira” e as “Manelinhas”, duas irmãs de baixa estatura, que viviam a seguir às alminhas e costumavam fazer o transporte do vinho do armazém para casa da “Adelaidinha” Gaifém, com algum “derrame” pelo caminho, que se notava nalgum ziguezaguear das irmãs. Bem, depois tínhamos a ponte, com muitos e grandes acidentes, com vários carros a caírem ao rio e que causavam grande alvoroço nas imediações. Ainda me lembra de a minha mãe de dizer: -Olha na última hora passaram 20 carros para Esposende! E até cheguei a tirar uma fotografia no meio dela sem que passasse qualquer carro durante muito tempo. Mas, isso agora é completamente diferente, embora não haja os acidentes do passado, alguns que me recordo muito bem. Uma vez estávamos na praça e apareceu uma mulher a gritar, que um camião tinha caído junto à curva do lado de Gandra e foi uma correria enorme de todo o povo. O meu tio socorreu muita gente, chegando a vestir algumas vítimas, mas desses acidentes nunca morreu ninguém. Há até uma história engraçada…Eram cerca de 7 horas da manhã e estavam as pessoas a deslocar-se para a primeira missa, quando o meu tio se acercou do rio e viu um corpo a boiar. Correu para casa e trouxe um “bicheiro” e conseguiu “pescar” uma mulher, que se atirara a afogar no “cais do Rufino”, a mulher escapou, mas acabou por ficar com uma marca que o “bicheiro" lhe deixou.
Também me marcou um pouco o tempo das senhas e das filas, para obter os alimentos racionados, na loja do Rufino e na padaria do Fontes, em que felizmente nunca passei muitas carências e que me lembre apenas um dia fiquei sem comer. Em Fão, havia algumas procissões importantes, como por exemplo a do Santíssimo, que era muito participada e na qual as ruas também eram enfeitadas com tapetes de pétalas. Já a da “Via Sacra”, acho que nunca tiveram muito sucesso, principalmente as más interpretações de alguns papéis, como as leituras. ”
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Tia Isaura, a “chefe” da segurança da casa

NF- E entre os tempos mais remotos e agora, quais as principais diferenças que nota em Fão?
Zézinha- ”Temos coisas que melhoraram, como alguma qualidade de vida e equipamentos, mas outras bem mais negativas, como a falta da tranquilidade, respeito e segurança de outros tempos. As portas de casa ficavam abertas até à noite e nunca houve assaltos ou intrusos a entrar. O meu tio dizia, quando lhe tentaram vender um seguro para a casa: - O meu seguro é a minha irmã Isaura! É que ela, fazia a ronda pela casa ao anoitecer, às vezes às escuras e por isso, às vezes até se magoava nalgum barco, carro ou peças que estavam em sítios diferentes. Ela fechava todas as portas e janelas, passava no quintal e armazéns e até na forja, para verificar se havia algum vestígio de lume. Mas o passado deixa muitas recordações…E eu gosto de guardar alguns documentos e registos do passado, que já têm servido algumas pessoas para estudos que fazem e me vêm pedir emprestados. Tenho por exemplo, uns negativos em vidro de fotos do princípio do século XX, que me deram os descendentes do Dr. Palmeira, que era muito amigo do meu tio, plantas de algumas casa antigas de Fão, que eram feitas em cambraia e linho. Por exemplo, as nossas primas chegaram a deitar ao lixo plantas de navios desenhados e construídos pelo pai, o que foi uma perda inestimável. ”

A Zézinha Borda, que leva uma vida passada no largo do Cais (Avelino Pires Carneiro), tem uma experiência de vida e testemunho de muitas das tradições culturais e patrimoniais da nossa terra, com o mérito de o tentar preservar, não se inibindo de viajar e conhecer outras paragens assiduamente, acompanhada por sua irmã Amélia e por vezes com a sobrinha Conceição, procurando conhecer locais ricos em património histórico e monumentos. A vida e o convívio com seu tio, fez dela uma mulher de “armas”, muito autónoma e independente, muito empreendedora e com obras constantes numa casa histórica, que teve de sofrer ao longo dos tempos várias intervenções, sobre o seu comando e exigência. Um excelente exemplo, que é pena não haver muitos mais, de forma a não termos tantas e tão belas casas antigas arruinadas…