ALBERTINA LEITE
Uma mulher do povo, cuja condição humilde e experiência de vida foram uma luta constante contra a miséria e a fome. Um trabalho extenuante, viuvez precoce com 8 filhos para criar, num Fão também ele carente de infra-estruturas, onde do mar e do pinhal muitas famílias conseguiam algum sustento.
A D. Tina, conhecida por “Tina 29” , apelido que herdou de seu pai Adelino, mineiro que fazia poços de rega, começou ainda criança a ajudar a sua mãe, Maria Alexandra Oliveira, na faina da recolha e venda de pinhas e faúlha. Com os olhos humedecidos, recalca sempre a miséria e vida carente de então, que a obrigou a ter de faltar à escola para ajudar os pais. Pelo que diz o seu maior desgosto é não saber ler.
Com a sua mãe, descalças, galgavam com os pés muitas vezes em ferida, quilómetros e quilómetros desde as “quintas” de terras como Vila Cova, Gemeses, Perelhal, Creixomil, onde recolhiam pinhas e faúlha, que vendiam às padarias do Beirão e do Pilar em Esposende e do Fontes em Fão. Quem lhes comprava muito era o João do “Abílio” , que depois revendia e aproveitava também os pinhões.
Quilómetros percorridos a pé, descalças e com as cabeças carregadas
Sempre descalças, lá iam com a lenha à cabeça, até à Póvoa e Vila do Conde, de onde regressavam com peixe. Muitas vezes, conseguiam vender pelo caminho, em Estela, Navais, ou Criaz, o que as ia aliviando, e alguns chegavam a comprar por compaixão, pela violência do peso na cabeça.
Infância e brincar, diz ser algo que nunca conheceu, em adolescente acompanhava o pai, que ia pedir pelas aldeias e a deixava numa família de Vila do Conde, em Alto do Pega, onde fazia recados e trabalhos domésticos.
A miséria do tempo da guerra, casamento e muitos filhos
No limite da miséria, recorda os tempos da 2ª Guerra Mundial, quando havia o racionamento de alimentos e chegava a levar o pequeno colchão de palha, onde passava a noite à porta da padaria, até à manhã seguinte, para com a sua senha poder levantar um só pão.
Nascida nas Pedreiras, em 1924, onde viveu com seus pais, depois que casou veio para o Ramalhão, onde foi constituindo família. Teve 10 filhos, todos nascidos em casa com a ajuda das parteiras populares de então, como a Antónia “Esconça” , a “ Micas Ventosa” e a Joaquina Rei, mas 2 deles não passaram de bebés, um deles morreu à nascença, talvez devido ao esforço a carregar uma cesta de carapaus, quando estava à espera de gémeos. O outro, o Amândio, nosso colega de infância e que faleceu há pouco tempo, saiu muito fraquinho, pelo que teve de ser amamentado com leite de uma vaca só, que vinha de Gandra para a “ Quinhas do Arlindo”.
O trabalho do marido, José Faria na fábrica do Felgueiras, onde também trabalhava o seu cunhado João, que curiosamente casou com a sua irmã Ana, era árduo (das 8 às 18 horas) mas mal pago, 12$00 e em finais de 50, era 99$90 por mês. Por isso tinha de o ajudar e desde peixe, a fruta e o que houvesse para transaccionar, de tudo vendia, mas o peixe foi o seu principal negócio.
Em Fão havia muitos barcos e muita gente a viver do mar
Dedicou-se principalmente à venda de peixe, numa altura em que havia muitos barcos em Fão, embora fossem pequenos, pelo que quando o mar estava muito mau, tinha de ir buscar peixe à Póvoa para vender, pois lá tinham traineiras, que se podiam fazer ao mar.
Num entre linhas, refere a multa que cobravam a quem fosse apanhado descalço na ponte de Fão, que na altura eram 2$50, um terror para nós que não tínhamos calçado, nem dinheiro.
De outros pregões com que andava e competia, nos leilões na praia, forma usada para comprar os lotes aos pescadores, relembra nas épocas mais recuadas, a Maria “Setenta”, Maria “Panca”, Marina “Peloca”, “Micas Ventosa”, Belmira “Paralta” e ainda a Amélia “Vassala” e a Elisa “Peloca” , que também compravam peixe aos pescadores de Âncora.
Do nosso mar, saía muito e muita variedade de peixe e marisco, bom camarão, navalheiras, santolas, robalo, linguado, fanecas, polvos, sendo que por vezes ia 2 e 3 vezes à praia, tal a fartura.
Um episódio dramático vivido na praia
Das cenas mais marcantes que se lembra na praia de Fão, contou-nos que um dia de mar muito bravo, já tinham regressado todos os barcos e apenas o do Júlio “Remador” que estava com o filho Daniel não chegara. “Nós as mulheres desesperadas rezávamos e suplicávamos, e quando vimos o barco ao longe fustigado pelas ondas enormes, a aparecer e desaparecer, maior foi o nosso desespero, principalmente da esposa do Júlio, a Joaquina, que quando eles chegaram à praia, estoirados e cambaleantes, desfaleceu de tanta emoção”.
Lampreia o melhor negócio
A venda da lampreia? "Ah! Essa sim, deu-nos muito dinheirinho a ganhar! Até mortas os espanhóis as vinham buscar, isto enquanto o peixe, principalmente o marisco só se podia vender bem vivo, senão iam para o lixo e na altura ninguém tinha arcas frigoríficas. Por isso, era preciso arrepiar caminho com a gamela à cabeça e às vezes com os filhos pela mão”.
“A lampreia comprava-a em Esposende à Teresa do “Castelo” e vendia-a junto à ponte e tínhamos duas “sociedades” distintas: eu, a “Landa Panca” e a Micas Ventosa e a outra era a Maria do “Fino” , a “Zaira do Francisquinho” e a “São da Irene”.”
“Muitas vezes também íamos vendê-las à Póvoa e Vila do Conde e naquelas horas que passávamos, ali junto ao cruzamento para a praia, onde agora está o banco, divertíamo-nos um pouco, mas também às vezes nos zangávamos e lembro-me de atirar com uma lampreia à cara de uma colega.
Também os clientes, apareciam de tudo. Uns muito simpáticos, estrangeiros que nos tiravam fotografias, mas também alguns desonestos. Chegavam a tentar comprar com notas falsas, principalmente pesetas, outros tentavam roubar-nos as sapateiras, enquanto nos entretinham e houve até quem pedindo mais uma lampreia, fugisse no carro enquanto íamos buscar a outra”.
Viuvez precoce e o prazer de ser de Fão
Como o marido adoeceu e acabou falecendo ainda novo, numa altura em que já vivia na zona da Areosa, nunca teve descanso e os filhos tiveram de começar muito cedo a trabalhar, mas o mais velho o António, foi o seu braço direito e ajudou-a muito a criar os irmãos. Nesta zona era vizinha do “Chico Nóvoa”, e chegava a levar a mercearia que este vendia ao hospital às irmãzinhas, que quando a viam grávida, sempre a incentivavam a ter os bebés lá, mas ela nunca o quis.
Da casa em frente à da D. Helena Assunção, uma boa senhora, que muitas vezes a convidava a servir-se do seu rico pomar, recorda que lhe chamavam o “moinho” pela forma arredondada, antes da sua reconstrução, e quanto era desconfortável. Desconfortável era o nosso Fão de antigamente, onde pela falta de luz, chegava a ser aterrador, principalmente nas muitas ruelas que temos, ruas em terra batida, enlameadas no Inverno e poeirentas na primavera e verão. Lixo, era por todo o lado, e quem andava descalço mais o sentia, pois eram abundantes os ferimentos nos pés.
“No entanto, sempre adorei o meu Fão, mas agora é tudo melhor, mais limpeza, mais luz, melhores pavimentos, bancos para nos podermos sentar e apreciar a bela terra que temos. Agora que tenho grande dificuldade em caminhar, sinto já saudades de passear junto ao rio, onde lavei milhares de peças de roupa no cais, e me sentar no Cortinhal”.
Remata dizendo visivelmente emocionada, que Fão é uma terra maravilhosa, e que nem todas as amarguras e dificuldades porque passou, lhe retiram a mínima beleza e o amor que sente por ela.