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MÁRIO FERREIRA BELO (conclusão)

Já vai longo, embora houvesse temas interessantes para muito mais edições, este Recordar com Mário Belo, que também já vai mostrando algum cansaço neste seu percurso pelos trilhos de 9 décadas, das quais elegeu a de 70 como a mais fértil e auspiciosa, em que as liberdades conquistadas, o nível de vida e os direitos sociais acabaram com a fome, a miséria e as enormes desigualdades sociais.

Serenata memorável em Esposende

Mário Belo - ”Estávamos nos anos 40, ainda solteiro e a trabalhar nos Estaleiros Navais de Esposende, quando assiduamente, vinhamos à noite até à Pensão Rego, onde se faziam algumas farras, com muita cantoria aos serões.
Certa vez, à saída da Pensão, lembramo-nos que na cadeia ali ao lado estavam dois conterrâneos nossos, que haviam sido detidos por pequenas querelas. O “Luís Gaio” e a “Fira Boiças”, eram gente boa, mas tinham lá ido parar por questões algo irrelevantes, de brigas entre vizinhos. Ora, resolvemos “prestar-lhes” a nossa solidariedade e fomos fazer-lhes uma serenata, do lado de fora da cadeia. Foi uma noite memorável, pois aquela zona de Esposende era muito habitada na altura e juntaram-se ali dezenas e dezenas de pessoas a ouvir-nos. Mais surpreendente foi quando de lá de dentro ouvimos uma voz a cantar acompanhando o nosso coro, que reconhecemos tratar-se da Fira. Um momento indescritível e comovente. ”


Foto: Manuel Sacramento acompanhante, cunhado e amigo

Com António Solinho e Artur Vinha, duas histórias ainda em França

”Ainda do tempo de França, lembrei-me uma altura em que ia com o António Solinho, conhecido popularmente em Fão como “Cristo”, para falarmos com um encarregado de obras italiano que eu conhecia e lhe oferecer os seus serviços. O António era um homem sempre bem humorado e conhecido pela sua forma eufórica como se ria, por vezes completamente descontrolada e que acabava por fazer rir toda a gente por contágio. Ora nesse dia e em plena cidade de Paris, desabou uma chuva torrencial, acompanhada por fortes trovões. Enquanto nos abrigavamos nas beiradas de um prédio, acabei por contar ao António aquela história hilariante, já aqui contada, da “Bárbara Virgem”, em casa da minha avó e ele não se conteve com tanta risada, que fez parar todos os transeuntes admirados a olhar para ele com semelhante ataque de riso, pensando tratar-se de algum louco. Prosseguimos a rir-nos da cara dos parisienses espantados com as suas risadas.
Outra história que também marcou muito a minha passagem por França, foi um acontecimento menos agradável, quando tive um acidente de motorizada no caminho para o trabalho, logo de manhã.
Eu tinha comprado essa motorizada, mas não tinha grande experiência ao volante, principalmente no meio de tanto trânsito como havia em Paris. Levava comigo o Artur Vinha dos Santos, amigo de Fão que

Foto:Marcos Reis, um voz fenomenal

trabalhava comigo na “Societé Bacillon et Barlot”, quando fui de encontro a uma carrinha. Acabei por ficar maltratado com fractura do perónio, enquanto o Artur Vinha, foi pelo ar, mas saiu ileso e foi ele que pegou em mim às costas, levando-me até um posto médico próximo, após o que segui para o hospital, onde fui engessado. O Artur foi um grande colega e amigo, que nos complicados dias seguintes muito me ajudou, até eu conseguir a autorização para fazer a convalescença em Portugal e nessa altura lá estava ele para me acompanhar à estação. Nunca esqueci esta sua atitude.”

Estágio na Grundig e ingresso na Jorro e Efacec

”Quando regressei a Portugal, comecei por fazer estágio na Grundig, pois com os estudos de electrónica que havia feito no estrangeiro, estava a pensar seguir essa actividade e pelo meio montei em casa, uma pequena oficina de reparações de rádios e televisões, aparelhos que passaram a ser adquiridos em alta escala.
Em 1967, fui trabalhar para a “Jorro”, fábrica de máquinas hidráulicas e impulsores sedeada na Póvoa de Varzim, que em 1974 ou 75 foi comprada pela Efacec, uma grande multinacional belga. Os muitos conhecimentos e experiência na metalúrgica francesa, cotaram-me como um bom profissional e nessa empresa fui encarregado da secção de ferramentas, até à minha reforma em 1988, tendo sido sempre muito reconhecido “.”



Foto: José Ribeiro Maia

O ciclo “Diamantino e Zé Maia” devolveu a alegria a Fão

”Pouco depois da minha chegada, eram amiúde os serões com cantorias no “Café do Rio”, que pertencia ao Zé Maia. Aí nos juntavamos músicos e cantores da época, que acabamos congregados pelo Diamantino Santos, a trabalhar em Lisboa e no verão começou a mobilizar toda a gente, para farras e mais tarde serenatas, que ficaram famosas. Noites mágicas ao luar passaram a marcar os serões fangueiros, nas escadinhas do Cortinhal e daí se partia muitas vezes em autêntica procissão percorrendo outras ruas de Fão, com muita gente a acompanhar-nos e várias paragens noutros locais típicos ou à janela de alguma senhora conhecida.
Nesses serões, havia canções que não podiam faltar como algumas trazidas do Brasil, modinhas fangueiras e havia uma que eu cantava e era particularmente apreciada, que fiz nos meus tempos de emigrante:

Fão Minha Terra Amada

Ó Fão minha terra amada,
Berço de tantos artistas
De poetas e fadistas,
Que cantavam à desgarrada.

Violões humedecidos.
Guitarras que já não trinam.
Mas choram os meus sentidos,
Por aqueles que partiram!

“Glória” aos violões
“Belos” dedos em guitarras,
Deixaram recordações,
De lindas noites de Farra!
Lá vão eles rua fora,
Com destino ao Ramalhão,
P’rás pedras da Tia Leonora
A Mouraria de Fão.

Cortinhal tu és o palco
Dos fadistas e do Fado,
De Fão tu és o Choupal,
E tens por Mondego o Cávado.

Em noites de nostalgia
E de luar prateado,
O povo e a fidalguia,
Vai ouvir cantar o Fado.

Glória aos violões
Belos dedos em guitarras,
Deixaram recordações,
De lindas noites de Farra!
Lá vão eles rua fora,
Com destino ao Ramalhão,
P’rás pedras da Tia Leonora
A Mouraria de Fão.

Já p’rá missa toca o sino,
Foi-se embora a lua cheia
Ainda se ouve o Diamantino
A cantar a Rendilheira !

Então, perante o “suspense” e silêncio geral…entrava o Diamantino a cantar:
Ó vem à janela, numa noite bela
Vem ver o Luar
Linda Rendilheira
Deixa a travesseira
~ Vem me ouvir cantar



Daí partiu-se para as revistas, sob a batuta do Zé Maia, que tinha predicados de ensaiador e contou com alguma colaboração minha e do Diamantino, que era um homem muito empreendedor. Nos anos 70 e 80 foram várias as revistas que foram a palco e que entusiasmou a nossa população e trouxe a Fão muita gente de fora. Depois também eles deram os primeiros passos para as Marchas Luminosas, muito pela influência da experiência em Lisboa do Diamantino.
Outros homens se aliaram a esta iniciativa como o Carlos Palma Rio, João Morais, Armando Solinho e Armando Barbosa, estes últimos ainda com o sangue na guelra a conseguirem que a tradição não acabe no GATA e até em marchas que se vão fazendo noutras terras do concelho.
As marchas foram mais uma grande prova da união e atributos de um povo que apesar da rivalidade entre os bairros, faziam as delícias dos milhares de pessoas que invadiam Fão nos dias de Senhor Bom Jesus.
Desta relação com o Zé Maia e o Diamantino ainda conseguimos criar um grupo típico “Rusga Típica Fangueira”, que não teve uma vida muito longa. ”



Foto:Com os seus dois amores (1987)

O Fado e a Guitarra um “hobby” que ainda rendeu algum

” A guitarra nunca me abandonou e eu sempre me dediquei e aperfeiçoei nesse instrumento. A minha esposa Aurora chamava-lhe a “amante”, pois ocupava-me muitas vezes mais tempo que a ela ou à família, já que para além dos espectáculos, eu ensaiava muito em casa, onde me isolava para não ter interferências.
Mas, se no passado a guitarra só me tenha servido por prazer, passatempo ou colaborar em festas particulares e de instituições, mais tarde deu para rentabilizar um pouco e foi uma boa ajuda. Organizei um pequeno grupo de fado, que tinha o acompanhamento do meu cunhado Manuel Sacramento (Né Glória) e mais tarde o Américo Coutinho, o Eduardo Macedo da Póvoa e finalmente o José Saraiva de Vila do Conde.
Acabei mesmo por me profissionalizar, certificando-me no Sindicato dos Músicos do Norte e tocávamos em restaurantes, hotéis e diversos espectáculos.
Chegamos a acompanhar grandes nomes do fado, principalmente nortenho e os nossos fadistas eram o Albano Silva, a Fernanda Praia e o João Morais. Na época balnear a nossa actividade era muito intensa e estivemos muito tempo seguido a actuar no Hotel Nélia (7 anos) e na Lareira como músicos “residentes” (3 anos)
.

Foto: Espectáculo em Bruxelas

Das várias experiências, destaco a digressão à Bélgica integrando uma comitiva, que foi promover o Concelho turisticamente naquele país, por acção do Manuel Gomes do Vale. Nessa digressão o Albano Silva foi o fadista e o Adão Pereira (Barcelos) o viola, num grupo que incluía a Ronda Típica de Vila Chã e era liderado pelo Dr. Penteado Neiva. Actuamos no Teatro Municipal de Bruxelas, que estava cheio e foi um momento inesquecível.”

Músicos e artistas de uma rica geração

”Fão, como dizia em frase célebre, o João “Carteiro”, foi uma autêntica academia do fado, em certas épocas do século passado com muita e boa gente a tocar e cantar.
A cantar e na contingência de me esquecer neste momento de alguém, devo destacar as vozes masculinas do Marco Reis, que penso ter sido a mais notável de todas, Diamantino Santos, José Carvalho (“Água doce”), Manuel Ferreira (“Cascalho”), Manuel Cardoso dos Reis (“Neca Peralta”) e o Dr.Albino Campos.
Vozes femininas, há muito mais a destacar, como a Cristina Carvalho (“do Bom Homem”), Cândida Gaifém, Lurdes Pereira (“Lúlú”), Maria Belo, Gilda e Leida Neves, Eulália Barra Reis, Maria do Céu Pedras, Rosalina Pedras (“Lica”), Maria do Vale, Maria e Rosa Lavandeira e ainda mais recentemente as ainda jovens vozes da Inês Silva e Mara Simões.

Como músicos com a guitarra, depois de mim só apareceu o Alberto Cardoso e não se vislumbra qualquer sucessor, para grande pena minha.


Foto: António Viana, moveu-o para a Cooperativa Cultural

O fado morreu em Fão e vai para o túmulo comigo, apesar da Cooperativa Cultural de Fão, da qual também sou sócio fundador e comemora este ano 20 anos, tudo fazer para manter essa tradição, promovendo os Encontros de Fado e Poesia.
Na Viola, o primeiro e que muito me acompanhou, foi o saudoso Francisco Costa (“Chico Glória”), mais tarde o meu muito querido cunhado “Né” (Manuel Sacramento) e depois o Américo Coutinho. Agora resta o Armando Barbosa com um instrumento que foi muito popular entre os fangueiros."

Figuras do Teatro

”- O teatro em Fão irá estar sempre ligado ao nome de Ernestino Sacramento, embora já antes dele houvesse tradição em Fão das artes cénicas. Depois de algum interregno apareceu o Zé Maia que foi outro grande líder e entusiasta. Os grandes actores de que me lembro foram: o Sebastião Rodrigues (“Folheteiro”), Alberto Belo (meu pai), João Condesso (pai deste João), João Carneiro, Zeca Gomes, Zé Maia, Belmiro Gonçalves (“Miro Careta”) e o Franklim Lima, que infelizmente não tiveram descendentes à altura.
Claro que houve outros entusiastas que se dedicaram muito ao teatro em Fão como os irmãos Abel e Alceu Vinha, Querobim Evangelista, Manuel Penetra, o Diamantino Santos e o Carlos Palma Rio.
Valha-nos agora o ressurgimento de algum entusiasmo com o GATA, que conta com o Armando Barbosa e o Armando Solinho, como dois homens que merecem todo o nosso apoio e reconhecimento e já são sobreviventes dessa época de ouro dos anos 70/80.”



Foto: Homenagem da Cooperativa

Artesanato como imagem de perfeccionismo

Durante a minha vida, fiz várias peças, principalmente em aço, colocando nelas todo o meu saber e levado ao mais pequeno detalhe, pois sempre procurei a perfeição máxima. Quando me reformei comecei a fazer algumas peças de artesanato, com destaque para barcos e carruagens antigas. Além de serem peças que me atraíam bastante e eu tinha trabalhado na construção delas no tamanho real há várias décadas, com estes trabalhos como que tentei perpetuar actividades já extinguidas. Fi-lo apenas por prazer, embora tenha vendido uma ou duas peças a muito pedido e que me obrigou a repeti-las. Mas, também já ofereci algumas, a maior parte aos meus filhos, que pelo menos tem casas mais airosas para as expor e podem estimá-las melhor."

Foto: Carruagem antiga

Os trabalhos são essencialmente feitos em madeira e aço, tendo exposto na Cooperativa Cultural, na Junta de Freguesia de Fão e no Posto de Turismo de Esposende. “

Momentos marcantes ou de reconhecimento

Nunca fui um homem que me envolvesse muito directamente nas associações da terra, embora tenha pertencido a várias direcções e colaborei em várias festas para angariação de verbas. No entanto, fiquei extremamente feliz com o reconhecimento de algumas, como foi a festa de homenagem feita pela Cooperativa Cultural de Fão, a que também se associou a Junta de Freguesia, pelo seu presidente José Artur Marinho, graças ao empenhamento desses grandes fangueiros António e Luís Viana.
Também destaco a reportagem feita pela RTP N, pela Margarida Reis, que veio a minha casa, para falar do meu passado, das minhas peças de artesanato, de Fão e de algumas das suas tradições do passado.
Também recentemente, estive num programa da Esposende Rádio, convidado para falar das personalidades e histórias do passado fangueiro.
A nível pessoal, apreciei muito as festas das Bodas de Prata e de Ouro de casamento. A primeira foi realizada no Café do Rio, do Zé Maia e foi uma “noite fangueira” inesquecível, com muitas canções e modinhas da terra e toda a gente a cantar.”


Mário Belo, confessa-se um grande amante da sua terra, sempre com um apurado sentido crítico, sem complexos e com a independência e autoridade que a experiência lhe foi dando, preocupado como muitos de nós com o envelhecimento e abandono do nosso centro da vila, a destruição do pinhal, o açoreamento do rio e o avanço do mar.

Nos seus tempos livres ainda vai mantendo a sua guitarra entre os braços, dedilhando-a algumas horas por semana, ou brinca no tabuleiro de damas, ensaiando algumas das jogadas que sempre estudou nas suas enciclopédias e que o tornou um exímio jogador, que o digam vários colegas do Clube Desportivo da Póvoa ou do Clube Fãozense.
Na sua pequena oficina repleta das mais diversas ferramentas, algumas feitas por si, continua a fazer algumas maquetas e até se aperfeiçoou nas artes culinárias, ao que foi de certa forma forçado, desde que lhe faltou a sua “refinada” cozinheira e companheira Aurora.
Quando a saúde o permite, gosta de passear um pouco pela marginal e vai até ao “parlamento” no Cortinhal, local de conversas, mal dizer, mas também de bom humor. Na companhia de sua irmã Maria, que encontra muitas vezes nesse trajecto, passa alguns dos bons momentos, pois tem muito em comum e nas suas conversas há muito a recordar e divagar sobre os bons momentos do passado.
Outro dos pequenos prazeres que não dispensa, é assistir aos jogos do Fão, no seu magnífico estádio, uma obra que muito valoriza, tal como o futebol de grande quilate que a equipa fangueira tem exibido nestes útimos 2 anos.
"Para isso vale-me a companhia e ajuda de meu filho Carlos Alberto, que nesta como noutras situações tem sido a minha verdadeira "muleta", isto sem dispensar a minha pequena bengala, claro, pois as pernas já não tem muita força e o estádio infelizmente não tem acesso às bancadas para deficientes ou debilitados como eu e outros."
Se sente a tristeza de ter de deixar as suas guitarras paradas, sente o orgulho do seu sobrinho Tininho, filho do Né e da Maria, que é um conceituado instrumentista de guitarra moderna e do seu neto Joel, que lhe parece ter potencial para se afirmar no piano.

Assim, concluímos este Recordar com…que nos foi entretendo por vários meses, com certeza do agrado de alguns, esperemos. Perdoem-me aqueles que não o apreciaram tanto ou pensem tratar-se de algum favoritismo familiar, mas em boa verdade, só o fizemos por muita insistência alheia.
Foto: Com o filho Carlos Alberto