MÁRIO FERREIRA BELO (4)
No desbobinar das suas memórias MB, por vezes, leva-nos para vários quadros e épocas diferentes, alterando alguma ordem cronológica que tentamos seguir, já que as histórias e as pessoas que vão aparecendo nestas recordações fazem muitas vezes recuar no tempo ou mudar de cenário.
A aventura ou “corrida” ao volfrâmio
Mário Belo - ”Se o Brasil chegou a ser visto por muitos portugueses como a corrida ao “El Dorado”, isso também aconteceu por cá ainda nos anos 40, quando em plena guerra se descobriram as minas de volfrâmio. No concelho a sua maioria estavam sedeadas em Gandra e Palmeira de Faro e as minas da Borralha em Montalegre eram as maiores do país . O volfrâmio era o minério chave para a construção de material de guerra e os alemães vinham buscá-lo às escondidas. Legalmente, esta exploração era proibida, mas as minas estavam registadas como se tratasse de alumínio e antimónio. Foram muitos os que ganharam milhares com estas minas, desde os proprietários, seus sócios, até aos intermediários que o vendiam aos alemães.
Todo o minério que fosse encontrado até 7 metros de profundidade era da pertença do dono do terreno, mas depois dos 7 metros era pertença do Estado. Outra curiosidade era que quem encontrasse uma mina, tinha direitos à sua exploração, mesmo que o proprietário fosse outra pessoa, que no entanto tinha uma certa percentagem. Ora, como isto era uma exploração ilegal havia muita fiscalização, mas com alguma cumplicidade no dia das inspecções, era colocado um minério diferente nas gamelas e tudo passava incólume. Em Fão houve algumas pessoas que tiveram sociedade nalgumas minas, mas muitos aventureiros como eu, andamos de noite a tentar “pescar” alguma coisa, sobre grande risco. Lembro-me bem uma altura em que uma explosão, numa das minas fez saltar uma pedra enorme de volfrâmio para um campo fora da propriedade e um grupo de nós, conseguiu fugir com ela. Aquilo rendeu naquele tempo 20 contos! Uma pequena fortuna, que foi dividida por vários e eu recebi da minha parte quase 2 contos. Bem, naquele tempo de miséria, foi uma enorme festa em casa dos meus pais, como foi também noutras famílias. Era um pouco a história do “ladrão” que rouba a “ladrão”, já que tudo aquilo era ilegal, mesmo por parte das autoridades que encobriam o negócio, que à luz da aliança com Inglaterra, estava a agir a favor dos alemães. Era muita gente envolvida e havia compradores de mercado negro por todo o lado. Devo dizer que a grande maioria das pessoas que mais ganharam com isto, acabou quase sem nada. É que aquela fartura toda deu para grandes esbanjamentos, desde jogo, mulheres e vários luxos extravagantes, de pessoas que pensavam que aquilo ia durar para sempre, mas a guerra e o minério acabaram e o dinheiro desapareceu mal gasto. Foram vários os colegas da minha geração que alinharam nesta aventura, passando por grandes perigos e muitas vezes fugindo debaixo de fogo. ”
Admirador de Alceu Vinha na oposição ao antigo regime
”Entre os anos 40/50, no concelho e particularmente em Fão, surgiu .um bom grupo de pessoas que se posicionaram contra o antigo regime de Salazar. O grande miliciador foi o Dr. Alceu Vinha dos Santos, um homem de grande cultura e humanismo, que nas suas conversas de café, nos elucidava da realidade do que se passava no nosso país e falava de democracia, liberdade e direitos humanos. Ele era um grande exemplo de homem, pois não se limitava às palavras como muito dos nossos políticos da actualidade. Praticava o bem, ajudava os mais carenciados, dava aulas e medicamentos de graça, que o tornou ainda mais admirado. As nossas tertúlias aconteciam no “Café do Agonia”, em frente à Misericórdia e no “Café do Maia”. Quando o general Norton de Matos, um homem que esteve muito anos no Ultramar com cargos de grande responsabilidade, começou a defender publicamente que a política ultramarina era errada e que se devia liberalizar a então dificultada emigração para África, este logo foi contestado pelo governo de Salazar.
Só anos mais tarde e com o estalar da guerra, é que a maioria das pessoas lhe veio a dar razão, mas então já era tarde, pois havia perdido as eleições em 1949 (um escrutínio muito duvidoso, quanto à sua legitimidade), vendo-se como este especialista em política colonial estava certo. .
Claro, que com a sua candidatura às eleições nacionais, depressa ganhou muitos aderentes, mas por outro lado muitos inimigos. Nós, entusiasmados com esta candidatura , criamos em Fão uma lista de apoiantes ao General. Essa lista mais tarde foi apanhada um dia que a PIDE entrou no Café do Agonia e todos fomos chamados à Câmara onde a PIDE nos interrogou. Nessa lista tinha 14 nomes mas há um que não me consigo recordar…O dr. Alceu Vinha, o Júlio e a Berta Monteiro, Abel Vinha, Zé Maia, Manuel do Vale (“Neca Rosinha”), António Herdeiro, Álvaro “Carapuça”, Francisco Gaifém (“Roqueiro”), Agonia Pereira, Prof. Elias Cardoso, Luís “Gaio”, eu e mais um que espero ainda me lembrar…
Fomos a um comício do general em Barcelos, onde nos apedrejaram e no Hotel Ofir a algumas sessões de esclarecimento, que eram organizadas pelo Arquitecto José Magalhães, um grande amigo de Norton de Matos. Recordo-me de numa dessas sessões ouvir a Arqª. Virgínia de Moura, que foi a primeira mulher portuguesa a tirar um curso superior e esteve presa várias vezes.
O Dr. Alceu teve de fugir e quando fizeram a rusga ao café do Agonia, que foi dos mais apertados, foi escondido por uma das famílias mais nobres de Fão, que apesar de não comungarem das suas ideologias, sabiam o grande e bom homem que ele era.
Quando fomos interrogados pela PIDE, já levávamos a lição estudada pelo Dr. Alceu, de forma a não darmos respostas em falso. .
Quem chefiou os interrogatórios foi o chefe de distrito da PIDE Mário Vilaverde. Lembro-me de algumas questões:
-Que queixa tem contra o Senhor Doutor Oliveira Salazar ?
Nós repondiam-nos, -nada!
- Então porque andam nisto?
Nós dizíamos, - Fomos ver o programa, para ficar esclarecidos e podermos votar em quem olhar melhor pela nossa vida.
- Então o que ganham não lhes chega? (perguntavam o nosso ordenado)
Eu na altura lembro-me que eram 27$00 por dia
- Sabe quanto ganha um professor? (E falavam ao pormenor do custo das coisas mais simples, como o pão, os legumes, etc…O pobre não podia ter muito mais na miséria que queriam que vivessemos)
Estas perguntas foram repetidas a todos, mas acabaram por nos libertar, salvo o Agonia que foi mais complicado, mas quem eles queriam era o Alceu, pois sabiam que ele era o líder, o homem culto que tinha e propagava os seus conhecimentos.
Antes de embarcar para o Brasil ainda tentei a África, mas claro as dificuldades eram tantas que tive de desistir.
Antes de ir para França, um dia que seguia no autocarro para o Porto, com o Prof. Elias a meu lado e em cavaqueira, fui desabafando com ele acerca da situação, ele bem me fez sinal, pois no autocarro seguia um estudante no seminário que era conhecido “bufo”. Andei uns tempos angustiado à espera que sofresse por isso, mas por sorte esse .
seminarista terá valorizado a amizade dos tempos de rapazes em que fomos colegas.
Mais tarde e já em França, mais me apercebi de quanto importante era a liberdade individual. Lá conheci umas pessoas que pertenciam a uma associação de monárquicos e num dia de festa, a 5 de Outubro, estávamos em 1962 ou 63, fui convidado a participar e entre baile e canções toquei a minha guitarra para uma animada plateia. Perante tantos discursos, não resisti a usar da palavra, a convite do presidente da associação, após a minha actuação e lembro-me de dizer com alguma emoção:
- Estou longe da minha terra e dos meus filhos, por causa da política e da miséria do meu país. Mais vale morrer de pé do que viver toda a vida de rastos.
Ora, mais tarde soube que naquelas festas também costumavam estar “bufos” e isso atemorizou-me. Depois comecei a constatar uma grande demora na correspondência com a minha esposa. Claro, que depois percebi que as cartas eram violadas pela PIDE, para verem se falava nelas de políticas, isto tudo sem que ela de nada soubesse. Mais tarde, .
numa das minhas férias contei-lhe o que acontecera e coitada tentava que eu me afastasse disso, pois podia por em causa a minha liberdade e a felicidade da família.
Também em França assisti a várias manifestações públicas, onde a liberdade de expressão era uma realidade e qualquer um falava contra o regime e isso influenciou-me ainda mais a ser um apoiante da democracia.
Em Portugal lembro-me ainda de ouvir as emissões da Rádio Moscovo, num velho rádio a corrente “Phillips”, mas usando em cima dele um copo de água com um lápis dentro (a grafite despista a frequência). Isso foi um velho truque que o Dr. Alceu nos ensinou, para que a PIDE não o detectasse.”
Regresso à Ponte 20 anos depois e a partida para França
”Regressado do Brasil, cheguei a trabalhar para uma empresa de serralharia no Porto. A “Júlio Ferreira de Sousa” estava situada na rua Ciríaco Cardoso, perto da Boavista e construía várias máquinas industriais.
Aí estive alguns meses, mas antes disso fui contratado para trabalhar nas obras da ponte de 1956. Quem me convidou foi o António Oliveira que era encarregado da Junta Autónoma das Estradas, que soube que eu tinha trabalhado na anterior intervenção em 1936. Nesta reparação, para além de pintura e manutenção geral, foram também colocados os passeios exteriores, mas não se mexeu na estrutura da ponte. Esta obra, durou mais de um ano e eu tornei-me grande amigo do António Oliveira, que aliás se tornou meu compadre, pois ele e a esposa foram padrinhos do meu filho “Marinho”. Outros homens de Fão foram contratados como o meu irmão Alexandre,.
ainda muito novinho, que trabalhou como ajudante e o Augusto Vieira “Barraca”, que mais tarde ficou nos quadros da J.A.E. até se reformar.
Entretanto, o meu cunhado Miro (Valdemiro Cardoso), que por esta época trabalhava no Hotel de Ofir, conheceu um cliente, Jules Bacillon, que tinha uma empresa de metalurgia em França e falou-lhe que precisava de um bom serralheiro. Falando-lhe de mim, este quis conhecer-me e ficou interessado em me contratar.
Estava eu há uns 3 ou 4 meses na fábrica no Porto, quando recebi uma carta de França com um contrato de trabalho legal já assinado pela Junta de Emigração de França e Portugal. Ora nesta época, isso era muito difícil de conseguir e a maioria dos emigrantes iam para França “a salto”, ou seja clandestinamente, atravessando a monte as fronteiras, de noite entre riscos e perigos diversos.
Foi uma oportunidade que não pude desperdiçar e assim parti em 1959 com destino a Paris, onde ficava a “Societé Bacillon et Barlot”, no “quartier” onde havia nascido o famoso Maurice Chevalier (Menille Montand). A primeira noite em França foi dolorosa, pois tive de dormir vestido num armazém, por cima de umas palhas, até que os alojamentos feitos para estrangeiros fossem estreados.
Era uma fábrica de recuperação de materiais, com especialização em máquinas e impulsores de rega. Aqui trabalhei cerca de 3 anos, tendo feito paralelamente um curso técnico nocturno e estudei também a língua francesa. .
Depois inscrevi-me no “Lycée Téchnique Diderot” , onde fiz um curso de especialização em metalurgia mais avançada, para a montagem de refinarias e reactores para os aviões comerciais “Caravelle”.
Naquela empresa, fui o primeiro português a ser contratado, mas depois entraram mais dois, que foram por meu intermédio, o Emídio Carneiro (de Marinhas e já falecido) e o Batista (soldador de São Vicente de Areias). Mais tarde veio o meu cunhado Marcos Reis, que ficou sempre a trabalhar lá, mesmo depois de a empresa se ter deslocado para Orléans, numa política de descentralização da indústria para fora de Paris, como se fez cá na zona da Expo.
“.”
Filme de terror vivido num choque de comboios
”Depois de sair da “Bacillon et Barlot”, fui trabalhar para a “Gaston Maurice”, uma empresa que construía locomotivas industriais para minas e carregamentos. Nesta empresa que ficava em La Corneuve, na zona de “Quatre Routes”, evoluí muito profissionalmente.
Depois ingressei na “Societé Râteau”, que ficava nos arredores de Paris, perto do aeroporto militar. Aí trabalhavam mais de 2.000 operários de várias nacionalidades, destacando-se um grande número de espanhóis e italianos. A Râteau foi uma grande escola para a minha evolução como metalúrgico especializado, pois comecei a trabalhar com a mecânica de alta precisão e máquinas programadas, para o que ajudou muito os estudos de trigonometria que aprendi ainda em Portugal.. Um dos principais engenheiros da fábrica foi quem desenhou o “Caravelle”.
Em França tive dois amigos que devo destacar, o António Santos, que era .
do sul do país e principalmente o Reinor Sá Pereira, que me recebeu muitas vezes em sua casa e me ajudou muitas vezes, nos piores momentos.
Eu era no entanto, muito saudoso da família e da minha terra e nunca falhei um verão sequer, mas também vim várias vezes no Natal, o que não era nada fácil de conseguir, pois não gostavam de nos liberar nessa época.
Numa dessas viagens de regresso no Natal, creio que uma das últimas que fiz, aconteceu algo que me marcou durante muito tempo. O “Sud-Express”, comboio que nos trazia de França, tinha perto de 20 carruagens, mas estava a abarrotar. Eu consegui um lugar numas primeiras, mas não gostei muito de um grupo de indivíduos que lá iam, com modos brutos e pouco amigáveis, que me deixou pouco à vontade. Felizmente apareceram por perto o Cândido “Casanova” e um primo seu, filho do “Manel de Fão” à procura de lugar. Logo aproveitei e fui com eles, tendo arranjado lugar só na penúltima composição. O comboio saiu já com algum atraso e perdeu muito tempo a atravessar os Pirinéus, pelo que a sua potente locomotiva depois de embalada na planície atingiu grandes velocidades. Já em Espanha, na localidade de Medina del Campo, um erro humano originou o choque com um comboio espanhol de mercadorias movido a carvão, que vinha de Cidade Rodrigo, eram cerca das 6,30 horas da manhã. Nos só sentimos as malas a tombar das prateleiras, mas o Cândido, que deitou a cabeça de fora, gritou: -Fujam! Fujam! E saímos todos a correr…Cá fora o ambiente era dantesco, a névoa, o frio, os gritos de agonia de feridos e moribundos, alguns a correr por entre chamas e ao fundo aquelas duas locomotivas encavalitadas uma na outra, num enorme monte de ferros trucidados. As carruagens do comboio espanhol, que eram de madeira, ficaram todas destruídas, mas no nosso comboio ainda morreram muitos passageiros das 3 primeiras carruagens, precisamente onde eu havia estado antes da partida. Foi um autêntico filme de terror, vi pessoas desfiguradas e com queimaduras de grau muito elevado, no meio dos campos e da lama. Estivemos ainda várias horas à espera de socorro e transporte para a fronteira. Bem, pior foi a minha família que soube pela rádio do acidente e as horas dramáticas até terem notícias, sabendo que tinha havido muitas vítimas mortais.
Mas nem todas as vindas a Portugal foram dramáticas e principalmente no .
verão, o Diamantino juntava-nos para grandes farras e serenatas, era o reencontro dos velhos costumes e dos velhos amigos para reviver o nosso velho Fão, sempre com muita alegria e grande mobilização de fangueiros, banhistas e alguns estrangeiros hospedados nos nossos hotéis.”
Bem e vamos interromper para não cansar os nossos leitores e o nosso entrevistado que embalado pelas suas dissertações do passado, que revive com enorme clarividência e pormenor, também vai sentindo algum cansaço, devido a alguma insuficiência respiratória que o vai afectando…Mas, vamos deixar para a próxima edição mais histórias e memórias, prometendo começar com uma que nos vai fazer recuar mais algum tempo, quando foi feita uma serenata aos presos na antiga cadeia de Esposende, onde pernoitavam alguns fangueiros…
Resta-me desejar um Bom Natal a todos os nossos leitores, cheio não só de boas recordações, mas de bons momentos no presente, quem sabe ouvindo um membro mais velho das vossas famílias, que também eles por vezes gostariam de ser mais ouvidos e Recordar com…os seus na noite de natal, em vez de esquecidos a um canto da sala ou no sofá, alheado dos mais novos que se divertem com as “play stations”, computadores, ou um jogo qualquer.