MÁRIO FERREIRA BELO (3)
“A entrada de barco na Baía de Guanabara no Rio de Janeiro, foi a imagem deslumbrante, que jamais esqueci.” Esta a forma como o nosso entrevistado descreve a chegada ao Brasil em 1951, neste novo capítulo da sua longa e rica experiência de vida. ”
Em casa do Tio Zé “Parrulho” e “Tia Santa”
Mário Belo - ”No Brasil encontrei alguns amigos e fiz ainda muitas amizade, apesar de só lá ter estado 4 anos. Logo à chegada tinha o Manuel “Cascalho”, que tirou meio dia de trabalho para me ir esperar ao navio, ele que era um grande amigo e senhor de uma voz fantástica.
À direita: Baía de Guanabara vista do mar.
No Rio de Janeiro, fui viver para a Rua Senador Pompeu, mas depois fui para casa do meu tio José da Costa Carvalho (“Parrulho”), que era casado com uma brasileira de Macaé, uma cidadezinha a norte do Rio. O seu nome era Emília, mas era conhecida por “Tia Santa” por ser vidente. Os brasileiros sempre foram muito crentes do sobrenatural, por isso ela era muito popular e conhecida em toda aquela zona. O meu tio Zé, trabalhava com irmão Francisco da Costa Carvalho, no Iate Club do Rio de Janeiro, onde tomavam conta de barcos dos ricos, isto depois de terem começado por serem pescadores, mas tal como cá o mar não dava grande rendimento. Quem me ajudou muito foi o Eduardo Cruz, irmão do António Terra (“Fandino”) de Esposende, amigo do tempo dos estaleiros em Esposende. Foi ele quem me encaminhou para o “Moínho Fluminense”, onde comecei a trabalhar.”
À esquerda: O Moínho Fluminense
No Moínho Fluminense e Na Fábrica de Cerveja Brahma
”No Moinho Fluminense, trabalharam na época vários fangueiros como o José Sá Pereira, o Abel Torres, o David Sousa e o meu irmão Manuel, que depois de mim. Este era o segundo maior moinho do mundo (o maior estava na Rússia), que tinha cerca de 1.800 empregados. Eu fui trabalhar para a manutenção, onde éramos 15, numa altura em que se processava a montagem de maquinaria moderna com rolamento e motores eléctricos individuais, substituindo as antigas correias.
Neste enorme complexo eram moídos todos os tipos de cereais, que vinham dos navios por baixo do chão, trazidos para os silos e depois de moídos faziam a viagem de volta para o cais do porto de embarque.
Também trabalhei na fábrica de cerveja “Brahma”, nas oficinas que cuidavam da manutenção e reparação da frota de distribuição, os famosos “camiões da estrela amarela”. Nesta grande empresa trabalhava o fangueiro António Viana, pai da “Mito” Ramalho, que era contabilista da divisão do Rio de Janeiro. Este homem era muito culto, um grande actor e amigo. Através dele, consegui assistir a vários espectáculos."

À direita:Teatro Circo
A guitarra e o futebol
“ Foi precisamente pela mão do António Viana que comecei a frequentar o “Teatro Recreio”, casa de espectáculos na rua Senador Pompeu, que até era perto de onde morava. Aí assisti a grandes espectáculos e mais tarde cheguei mesmo a actuar várias vezes acompanhando alguns artistas brasileiros, como foi o caso da Jane Gray uma famosa artista da época, que conheci casualmente numa festa, em que acabei por a acompanhar com outro músico brasileiro.

À esquerda: Com Avelino Pires Carneiro e António Viana
Participei em várias festas de portugueses no clube “Banda Lusitana”, do qual fui sócio. Neste clube havia muita actividade como cinema, teatro, bailes e outras festas. Também fui convidado a espectáculos na “Casa dos Poveiros” e na “Casa Transmontana”, que eram associações muito conhecidas no Rio de Janeiro, que tinham muitos associados.
Outro dos meu passatempos preferidos era assistir a jogos de futebol do clube dos portugueses, o Vasco da Gama, que jogava no Maracaña. Acompanhava o David Sousa (pai do “Manelzinho”), que era um adepto irreverente.
À direita:Estádio do Maracaña
O Clube de Regatas Vasco da Gama do Rio de Janeiro”, foi fundado por dois irmãos portugueses, que trabalhavam no “Iate Club”, situado na Rua do Propósito. Lá faziam-se e reparavam-se embarcações para canoagem e remo, competições em que o clube também competia, tendo surgido também o futebol, que foi abraçado por grande parte da comunidade lusitana. As infra-estruturas começaram a crescer e depressa se tornou o clube com maior património no Rio. Assistimos a grandes jogos no grandioso estádio Maracaña, onde vimos jogar alguns dos maiores jogadores do mundo.”
A crise sócio-económica e o regresso a Portugal
”Ainda visitei vários bairros onde viviam muitos fangueiros como Olaria, Ramos, Penha e Bangú, tendo encontrado por aí o Adelino Saraiva, a esposa e os irmãos Teixeira, entre outros. No Brasil, já havia muita criminalidade, mas nada comparável aos tempos actuais, embora já se assistisse a certos “lobbys” do crime com alguma conivência das próprias autoridades locais e mal de quem se metesse em apuros com certas comunidades. Governava então o Getúlio Vargas, que chegou a ser acolhido como um salvador, mas deixou o país mergulhar numa grave crise social e económica generalizada. O próprio Getúlio teve de responder como réu pela má gestão e política ruinosa, acabando por se suicidar. Eu fui alertado pelo António Viana e decidi regressar em 1954.
Manuel Ferreira Belo, irmão que também foi para o Brasil e não mais voltou, falecendo recentemente.
Do Brasil, para onde foi mais tarde o irmão mais novo Alexandre, trouxe uma experiência e vivência muito importantes e nas festas e serenatas, as modinhas brasileiras que trouxe de lá, fizeram muito sucesso, como por exemplo o “Sassaricando”, tema que faziam o povo correr as ruas de Fão nos serões de verão.
-"Mas as carências do país, das quais Fão não fugia à regra, não oferecia grandes condições de vida, mesmo para um operário especializado como eu e pouco depois tentei a sorte em França, um país que no pós guerra começou a importar muita mão-de-obra.”
Assim encerramos mais um capítulo com o nosso entrevistado das últimas edições que ainda tem muitas histórias e experiências que com certeza vão fazer prender a atenção de muitos dos nossos leitores que apreciam este Recordar com…